A morbidez irônica de Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe não gostava da ideia de escrever romances por achar que eles não poderiam ser apreciados em sua totalidade. São muito longos. O número de horas, dias, meses de dedicação que demandam não era algo que lhe agradava, tampouco inspirava. Preferiu, portanto, imortalizar-se por contos e poemas, embora – e essa é a primeira das muitas ironias de Allan Poe – pudesse ser um tanto quanto prolixo na primeira categoria.

Estamos falando de um homem que é considerado por críticos o que Julio Cortázar, um dos estudiosos que comentam a coletânea Edgar Allan Poe – Histórias Extraordinárias, classifica como um “caso clínico”. Reles mortais que leem Allan Poe à luz da intenção do divertimento, do frio na espinha e pela essência do mistério, podemos nos contentar em ver no homem o que ele realmente é: um escritor que vibra o horror, a morbidez. Para os críticos, Poe é o vomitar de seus sentimentos em palavra: um neurótico que, para muitos, tinha um quê de necrófilo.

Eu, particularmente, encontrei rastros de comédia e de sarcasmo profundos enquanto trafegava pelos contos de Histórias Extraordinárias, devidamente mobiliados com todos os itens que promovem medo: morte, desespero, claustrofobia, escuridão.

Tome, como exemplo, essa frase do conto Pequena palestra com uma múmia:

“Adoro queijo derretido com cerveja e torrada quente. Um quilo por vez, porém, pode nem sempre ser recomendável”.

Jamais achei possível ler uma frase dessas, que me tomou gargalhadas e o aceno de cabeça de quem diz “é verdade”, antes de ler qualquer um de seus feitos. Meu contato era resumido apenas por saber da existência desse senhor, que me lembra Belchior na figura (e quem o próprio Belchior cita na música Velha Roupa Colorida), e da série televisiva The Following, que tratava de uma seita inspirada pelos livros de Edgar Allan Poe.

Depois de ler o livro, lindo, delicado, com ilustrações incríveis e posfácio de Charles Baudelaire, minha perspectiva sobre Edgar Allan Poe tomou proporções maiores. Hoje, entendo que trata-se, sim, da transcrição de loucuras, mas não as dele. As nossas.

O maior horror causado pela leitura de Poe não é o susto que você toma em descobrir uma informação que antes não tinha – recurso utilizado em thrillers de mistério e terror, na literatura e no cinema. O maior horror é ver em suas palavras aquilo que seus contemporâneos suplicam: a verdade. A angústia dos contos de Poe assustam mais do que as situações de terror narradas, por um simples motivo: ela é legítima.

Sabe quando seu cérebro te leva a lugares incertos e tenebrosos, em que você se pega imaginando tudo o que poderia ter sido e não foi? Os ansiosos vão entender o que estou falando. Os que não são ansiosos vão aprender o que é isso quando lerem Histórias Extraordinárias, e outros contos também, porque isso é Poe.

É se imaginar sendo enterrado vivo, ou estar sozinho/a em uma casa abandonada, velando um cadáver que dá a impressão de poder se levantar a qualquer momento. Ou descobrir que a vida é ficção e que você ainda não encarou a realidade o suficiente para perceber isso.

Todas essas coisas estranhas que a gente vê, e das quais tem acesso através da tecnologia, estão escritas com linguagem simples por um homem que passou pela fome, pobreza, pelo vício em álcool e as incertezas do amor, tudo isso e mais um pouco, mas na primeira metade dos anos 1800. Não poderia ser mais atual.

O resumo da minha impressão sobre Histórias Extraordinárias é: os contos de Poe não vão causar o susto ou arrepio dos filmes de terror, mas vão te fazer devorar as páginas com agonia e medo. Talvez seja exatamente por isso que, embora alguns críticos insistam em dizer o contrário, Edgar é – assim mesmo, no presente – tão bom no que faz.

Em Ligeia, um dos contos de Poe, o personagem diz:

“É essa saudade feroz, essa veemente fome de vida, de vida apenas, que me sinto incapaz de retratar em palavras”.

Por essas e outras li e lerei tantas outras vezes esse homem que, por mais estudos que se dediquem a ele, nunca saberei explicar. Mas de uma coisa terei certeza: Poe se imortalizou como soube, através do medo e do fascínio pelos horrores humanos, e nos mostrou, como a chama da vela em um cômodo escuro, que há vida após a morte – e a prova cabal são os livros.

 

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