A outra Sra. Parrish e o triângulo da sociopatia

Por Cinthia Demaria, jornalista e psicanalista

Fui intimada a ler esse livro pela criadora deste site. Quando você se torna psicóloga, as pessoas sempre lembram de você quando leem (ou veem) obras que tratam de algum transtorno psicológico. E sim, é bem verdade que a gente adora consumir literatura desse tipo. Já lemos tantos seminários psicanalíticos que, quando surgem oportunidades de ver alguns ‘casos práticos’, ainda que fictícios, é sempre uma delícia.

Esse texto é feito para quem já leu A outra Sra. Parrish! Está cheinho de spoilers! Se ainda não leu, role correndo para o final da página para comprar o livro. 🙂

A Outra Sra. Parrish pincela alguns momentos de quem convive com sujeitos sociopatas. Confesso que, na primeira parte do livro, achei que seria apenas um drama familiar de uma mulher obcecada pela inveja que rouba o marido rico da melhor amiga. Costumo dar pelo menos duas chances pro livro, principalmente quando me indicam. Ainda bem que com este não fiz diferente.

Jackson Parrish é rico, bem sucedido, bonito e carrega com perfeição o semblante do sociopata: perfeito em público e apaixonado pela esposa, que é com quem esbanja bens materiais. Mantém um casamento de fachada com Daphne, uma mulher simples que se casa com o sonho do “príncipe encantado” e só depois descobre quem ele realmente é.

Amber é a “amiga” que entra na história e desperta calafrios no leitor quando dá indícios de sua obsessão pelo plano de conquistar Jackson. Aproxima-se de sua esposa Daphne em um plano muito bem estruturado, com direito a dramas familiares forjados e situações sensíveis, o que a faz ganhar a atenção da ricaça.

Uma das amigas antigas de Daphne suspeita das intenções de Amber. Silenciosamente, ela investiga a história da novata e descobre, ali, uma saída para o relacionamento violento que ela era obrigada a sustentar com Jackson, sob ameaça de morte, caso ele suspeitasse que não a controlava.

Não temos elementos suficientes para descrever a estrutura clínica dos personagens, porque pouco se sabe sobre a história de vida deles. O que é descrito pelas autoras – sim, são duas! – são apenas os casos chocantes cometidos em outros momentos, antes de chegarem a esse. Sabe-se que tanto Amber quanto Jackson são controladores obsessivos e não se importam em cometer crimes para conseguir o que querem. Porém, o que descreverei a seguir é sobre Daphne, a “vítima” que precisa agir como eles para sobreviver.

Chamei esse “triângulo amoroso” de sociopata, incluindo a vítima, porque é só quando ela consegue entender a dupla e ser igual a eles que pode bolar um plano ainda mais arrebatador, que destruirá os dois juntos. Daphne age com esperteza e vai se munir de informação para enfrentá-los. Ela decide estudar psicologia, pesquisa o histórico da falsa amiga e se coloca no jogo tão bem que nenhum dos dois percebe que quem os está controlando era a esposa traída.

Ou seja, Daphne se torna um deles (de forma consciente e com juízo de valores) para se libertar. Em um plano perfeito, coloca o marido à mercê da amiga “traidora”, sem que os dois percebam. Quando se dão conta, Jackson é preso e Amber fica na pior.

Importante ressaltar, entretanto, que, apesar do plano inteligente, Daphne se anula completamente e abre mão da sua vida em troca da liberdade do casamento de fachada.

A mensagem principal do livro é “nem tudo é como parece”, não apenas pela máxima “ter dinheiro não é ter tudo”, mas pela perspectiva “não conhecemos quem está ao nosso lado”. Acho que a história da pequena Bella, que apresenta alguns traços semelhantes aos do pai, seria uma ótima continuação deste livro, a propósito.

O dinheiro é a arma que Jackson tem para controlar e seduzir o mundo. E acredite, podem haver muitos Jacksons e Ambers por aí e você nunca se deu conta. Em alguns casos de psicose, sociopatia, serial killers, etc., o diagnóstico e a identificação do criminoso torna-se ainda mais difícil pelo poder de sedução que eles tem. Dificilmente eles procuram ajuda porque não se enxergam como alguém doente. Estão acima de tudo e de todos e ponto final.

Assim como Daphne, o que os faz enfrentar a realidade, como qualquer outra doença mental no mundo, é a informação. Quanto mais se sabe sobre isso, mais se diz sobre ter saídas. Em suma, A outra Sra. Parrish é uma boa leitura, que necessita ser discutidas mais vezes – inclusive em outras esferas.

 

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Sobre a autora

Cinthia Demaria é jornalista por profissão há dez anos e psicóloga há quase três. Pesquisadora da área de Psicanálise e Cultura Digital, atua na clínica com jovens e adolescentes. Aqui no Literama, faz a leitura psicológica de best-sellers. É autora do texto sobre Hardin Scott, da série After, e sobre Tessa Young, a protagonista dos livros de Anna Todd.

 

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