A resposta para o sentido da vida é um livro da minha estante – A história de Douglas Adams

Minha primeira atitude após terminar de ler A Espetacular e Incrível Vida do Criador do Guia do Mochileiro das Galáxias, de Jem Roberts, foi marcar um horário na tatuadora e fazer o que deveria já ter feito há muito tempo: mandar uma aquarela de “42” no braço.

Quando li o Mochileiro pela primeira vez, fiquei apaixonada pela narrativa de ficção científica que me fez rir desde a página 1, ou 5, com a contextualização de uma cena que não tinha absolutamente nada a ver, e nenhuma consequência, na trilogia de cinco que viria a seguir.

Levei cinco meses para ler tudo e, quando acabei, fui pesquisar sobre o autor. Fiquei sabendo que era um comediante inglês (tava bem na cara) que faleceu muito novo, aos 49 anos. Seus livros inspiraram um totem – a toalha –, uma filosofia de sentido de vida – 42 – e uma nova forma de ver a ficção científica na literatura.

Passei meses com essas informações na cabeça, mas parei por aí. Até que, um dia, lendo Ensaios sobre o Contemporâneo, de Giorgio Agamben, me deparei com a seguinte frase: “ser contemporâneo é voltar a um presente no qual nunca estivemos”.

Isso, e outras frases mais (muitas outras, na verdade), começaram a formar na minha cabeça uma ideia fixa: o Mochileiro, se não uma alegoria do pensamento filosófico do contemporâneo, pelo menos contém diversos elementos desse conceito. Mesmo podendo estar completamente errada nessa presunção – afinal, li poucas obras sobre o tema –, desenvolvi um estudo sobre o Mochileiro e resolvi que queria ler mais sobre a narrativa de Adams, que, para mim, parece realmente bárbara.

Foi assim que cheguei à sua biografia autorizada, um calhamaço de mais de 500 páginas de puro deleite histórico. Com a pesquisa de Roberts descobri não só que Douglas é tudo sobre comédia como, também, que inspirou várias pessoas e obras consideradas tão incríveis quanto a dele, como a saga de Harry Potter e a série Rick and Morty.

Isso, claro, além de ter participado de produções de Monty Phyton e escrito um antológico episódio de Dr. Who. Ele queria ser ator, mas isso não deu muito certo; então começou a roteirizar, o que foi mais interessante. O Guia do Mochileiro das Galáxias era, a princípio, uma obra radiofônica: estourou nas ondas sonoras para só depois virar livro, e muitos anos depois, filme.

Douglas Adams foi um nome para todos os formatos, em todas as mídias, e imagino o que ele sentiria se tivesse vivido e produzido na época das redes sociais digitais.

Também descobri que, por mais clichê que pareça, Adams era mais um autor da turma da comédia que sofria com picos de depressão e tremendo bloqueio criativo. Mesmo vendendo milhões de exemplares, ele brigava com os fantasmas de sua própria criação por boa parte do tempo, não gostando do que havia escrito ou confessando não ter se conectado em absolutamente nada com o que pôs no papel.

É o caso, por exemplo, de Até mais, e obrigado pelos peixes, o qual afirma não ter gostado de escrever.

Saber disso é muito edificante, pois, quando você lê todos os livros de uma vez, sente que, em uma parte do caminho, a narrativa se perde – e começa a se perguntar se o problema é com você. Se foi você quem parou de entender todas as informações que o autor te dá. Ao saber que Douglas também parou de entender suas próprias informações, tirei um peso enorme das costas e consegui, finalmente, seguir com a vida.

Nossos problemas são todos iguais

Douglas é retratado como um exímio procrastinador.

Ele achava que receber pelas obras já era o suficiente: não era preciso escrevê-las, quanto menos dentro do prazo. Isso o fazia sofrer, principalmente quando a cobrança por ser criativo, por ligar as peças, por transformar sua narrativa maluquete em algo crível, era maior do que a própria vontade de colocar algo no papel.

Inclusive, dele tiro uma frase que me faz todo sentido:

nenhum escritor gosta tanto de escrever quanto de ter escrito”.

Para quem sonha em escrever, as passagens da vida de Adams são reconfortantes, pois mostram que nossos problemas de ofício eram os mesmos antes, são agora e serão depois. Escrever dói, exige muito, é um trabalho solitário e nem sempre vai nos trazer o retorno esperado.

Aqui vai um spoiler: por mais que tenha ficado milionário antes dos 30, Adams era terrivelmente assombrado pelo fato de que o livro que julgava mais importante ter escrito – e no qual investiu tempo e dinheiro – não recebeu nenhum retorno de público ou crítica.

Mas, para o leitor não-escritor, o alento vem do fato de que a vida do autor-ídolo não foi fácil, em nenhum aspecto. Ele tinha pais separados, sempre foi muito alto para sua idade, teve problemas de socialização na escola e se deu mal no amor romântico algumas vezes. Embora levasse a vida com bom humor, nem sempre esse viés o salvava da desilusão de viver sem grana ou sem criatividade.

Quando descobrimos qual é o real sentido do número 42 – esse eu não vou contar –, acabamos nos deixando levar por uma confortável sensação de ignorância sobre o sentido da vida, do universo e tudo mais. Aí, a famosa resposta do autor para essas questões não nos soa tão descabida. A realidade, no fim das contas, é que nunca aprendemos nada e continuamos sofrendo pelas mesmíssimas coisas. E tá tudo bem. Até Belchior sabia disso.

O universo, assim como o Mochileiro ou qualquer outra coisa que ande sobre a Terra, não foi feito para fazer sentido, e é um egoísmo tremendo a gente achar que pode ditá-lo.

Uma passagem que curto muito, e que me fez ver que estamos rodando em círculos, é um desabafo de Adams sobre os comediantes, feito no fim dos anos 1980.

Em primeira pessoa, conta sobre um comediante que fez uma piada sobre “se a caixa preta do avião é indestrutível, por que os cientistas, tão burros, não fazem o avião do mesmo material da caixa preta?!”. A verdade é óbvia: a caixa preta é feita de titânio e, se o avião fosse feito de titânio, não sairia do chão. Assim, a piada não só não tem graça como, também, não faz sentido.

Mas a reação da plateia – de rir porque, ora, os cientistas são realmente tão burros!, o indignou profundamente. O que ele diz é mais ou menos isso:

Hoje em dia todo o mundo é comediante, até mesmo as garotas do tempo e os locutores de continuidade. Damos risada de tudo. Não mais de forma inteligente, não com choque súbito, espanto ou revelação, somente de modo incansável e sem sentido… (…) o comediante e a plateia estavam conspirando juntos, complacentemente, para debochar de pessoas que sabiam mais do que eles sabiam. Isso me deu e ainda dá um frio na espinha”. (p. 347)

Quando passei por esse trecho, me lembrei imediatamente de todo conteúdo que temos na internet, hoje, que faz com que estúpidos sejam considerados muito inteligentes por uma massa de demais estúpidos, que deixam o pensamento crítico de lado para, simplesmente, pertencerem a algum grupo.

Nesse caso, o de estúpidos que não sabem que são estúpidos e se acham muito inteligentes.

Não é meu dever julgar as pessoas, mas, como ser humano, tenho o direito de concordar com meu camarada Douglas e sentir um frio na espinha a cada vez que um produtor de conteúdo, em qualquer plataforma, coloca em xeque alguém que sabe alguma coisa para que sua ignorância possa brilhar ao passar incólume por uma audiência desinformada. O pior é que, na maioria das vezes, essas pessoas se orgulham disso.

Sim, terra-planistas, estou falando com vocês. 😉

E com um bando de outras pessoas que precisam, urgentemente, parar de conspirar ao lado de pessoas que realmente não sabem. É sempre melhor estar do lado de quem sabe, pois, como aprendi com a biografia escrita por Roberts, pelo menos desse lado a gente tem alguma chance de descobrir coisas realmente muito bárbaras.

A linhagem criativa da narrativa Adamsiana

Adams é incrivelmente rico em sua linhagem criativa, o que nos dá a impressão de que ler sua obra é passear por inúmeros autores, atores, bandas de rock e histórias em quadrinhos que jamais pensaríamos ser possível.

O Guia do Mochileiro das Galáxias é uma sopa de letrinhas feitas das palavras dos ídolos de Adams, e ela dá certo.

Pra começar, ele tem como ídolo P.G. Woodehouse, romancista inglês cuja carreira durou mais de 70 anos, e que atraiu Douglas pela elegância de sua comédia. Ele também tem muita consonância, embora indireta, com Stephen King, que é citado duas vezes: a primeira para avisar que Adams ficou triste por perder como e-book mais baixado na primeira plataforma digital de livros da Apple, aos 45 do segundo tempo, justamente para King; a segunda, ao narrar uma batalha de bandas entre os dois autores.

Douglas também tem forte influência do ator John Cleese, um dos Python e inspiração para que Douglas perseguisse a carreira de ator e o nutriu criativamente como roteirista. Em sua longa carreira de sucesso,Cleese participou da saga Harry Potter, que Adams não chegou a ver no cinema, mas do qual foi fã incondicional enquanto leitor.

Por falar nisso, Roberts narra a emoção juvenil de Douglas ao conhecer JK Rowling, no fim da década de 1990, pois achava incrível o que a britânica tinha feito. Quando o encontro aconteceu, ela confessou ao escritor revisar várias vezes a própria obra, já que várias coisas que pensou ser críveis em Harry Potter já haviam sido feitas pelo Mochileiro. Nesse caso, vejo uma linhagem criativa inversa, onde uma inspiração encontra idolatria no inspirado.

[Aqui cabe um parêntese: depois de ver a indicação da leitura de Harry Potter em Sobre a escrita, de Stephen King, e ler esse trecho na Incrível e espetacular vida, de Jem Roberts, tive revisitada minha necessidade de reler Harry Potter. Cresci tendo certeza que Rowling largou mão do quarto livro pra frente, e perdi meu interesse. E, depois de dois monstros dizendo – indiretamente – que isso não ocorreu, as chances são de que eu esteja redondamente enganada.]

O mundo sem Douglas Adams

Estava na academia no momento em que li o trecho sobre a morte de Douglas Adams, que ocorreu em uma academia, e chorei. Não de medo, nem por luto, mas porque realmente me pareceu uma morte injusta, despropositada. Algumas páginas depois, entendi que toda morte é injusta e despropositada, porque o universo é… bem, o universo é 42. Assim, faz todo sentido.

O que não faz muito sentido é ver esse mundo em que vivemos hoje, de computadores, tecnologia, hiperconexão, e aceitar que Adams não está aqui para aprovar, discursar ou fazer piada sobre todas essas coisas. Como Jem afirma,

é fácil pensar que estamos vivendo no mundo para o qual Adams passou tanto tempo nos preparando e que ele não está aqui para apreciá-lo”.

A sensação é de que tudo o que temos, hoje, saiu da história que Adams narrou nos anos 1970.

Os problemas continuam os mesmos, a burocracia continua a mesma, as pessoas continuam as mesmas, mas, ainda assim, algo mudou profundamente. Só não estamos ainda preparados para saber o que é. Para compreender essa mudança, como disse Agamben, precisaríamos voltar a um presente no qual nunca estivemos. Isso só seria possível se nosso nome fosse Arthur Dent.

Quando lemos a biografia de Douglas Adams, vemos ressonância, como leitores ou autores, em diversas passagens de sua trajetória. Considero essa história uma não-ficção de autoajuda, por decretar o óbvio ululante: Douglas poderia ser um caso anônimo de fracasso, se o acaso não tivesse agido em sua vida e mudasse as regras do jogo.

 

Douglas teve o que a maioria dos gurus falam pra gente ter, que é uma rede de apoio criativa, positiva e disposta a nos ajudar quando tudo o mais parece não dar certo. Se não tivesse se cercado de uma galera tão presente, Douglas não teria feito muito mais do que tentar algumas coisas sem sucesso.

Então, ouça aqueles que te dizem que sempre devemos andar com quem nos fortalece intelectual e emocionalmente. Se deu certo para o homem, pode dar pra você também.

Por fim, deixo duas passagens do livro que me marcaram bastante, caso você queira aprender com Adams a olhar as coisas por outra perspectiva.

A primeira delas é que o futuro é inventável por aqueles que tem imaginação o suficiente para vislumbrá-lo – e nunca esteve tão inventável quanto agora.

Temos todos os recursos disponíveis para fazer o que quisermos com o que o mundo possa vir a ser, então devemos cuidar bem desse pálido ponto azul que chamamos de Terra (direitos autorais de Carl Sagan) e manter a mente positiva sobre o que vamos inventar para os próximos anos.

Como Adams diz, é muito importante que vejamos os próximos passos com otimismo, porque eles vão influenciar no modo como enxergamos as coisas e fazemos acontecer.

A segunda é uma mensagem de conselho para ele mesmo, como escritor, que Jem Roberts achou, em forma de anotação, nas suas pesquisas. Em um pedaço de papel, Adams diz que:

Escrever não é tão ruim quando você supera a preocupação. Esqueça a preocupação, apenas siga em frente. Não fique com vergonha das partes ruins. Não se estresse com elas. Dê tempo a si mesmo, você pode voltar e reescrevê-las à luz do que você descobrir sobre a história mais tarde. É melhor ter páginas e páginas de texto para trabalhar e peneirar e talvez encontrar uma forma inesperada que você pode então apurar e utilizar de uma boa maneira, do que ter um único parágrafo ou frase retrabalhado maniacamente… Mas escrever pode ser bom. É você que ataca a escrita, não a deixe atacá-lo. Você pode ter prazer com essa atividade. E pode certamente se tornar muito bem sucedido com ela…!”

Depois de conhecer a fundo a história do criador do Guia do Mochileiro das Galáxias, tive certeza que não poderia sair desse mundo sem contar que EU ENTENDI: entendi o sentido da vida, do universo e de tudo o mais. Entendi o 42. Entendi a frustração do escritor. Entendi que essa jornada nem sempre é o que a gente gostaria que ela fosse, mas que isso não a torna menos legal do que ela realmente é.

Eu entendi, Douglas, e, para nossa alegria, sei perfeitamente onde está minha toalha.

Obrigada por tudo. 🙂

 

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