A sutil arte de ligar o foda-se

Esse é, provavelmente, o título menos original sobre o livro de que se trata a resenha, mas não conseguiria, nem se tentasse, encontrar definição melhor para as coisas que aprendi com Mark Manson.

Eu devia saber, certo? Como traça de livraria, eu devia saber que um livro de capa alaranjada com um palavrão estava ali, bem posicionado, apenas para que eu o levasse. Eu devia ter resistido. Não fiz isso. Ainda bem. Não sei se seria uma pessoa completa sem essa leitura.

Pra começar, com A Sutil Arte de Ligar o F*da-se você vai descobrir, se não fez isso até agora, que não é uma pessoa especial. E, acredite, isso é uma coisa boa. A prioridade para ligar o foda-se bem ligado é a ideia libertadora de que, enquanto você não tem a obrigação de se sobressair, porque nada em você te diz que você tem, você não deve nada a ninguém.

Nem a si mesmo.

Isso não quer dizer, no entanto, que você precise, ou deva, passar pela vida sem vontade de conquistar coisas incríveis. Não. O fato de que você não é especial só te liberta da pressão enorme que os dias (e as tecnologias de hoje) causam de que é preciso ser além, ser mais, ser melhor que os outros o tempo todo.

Aliás, aqui vai um conselho de empresária do ramo do marketing digital: a grama dos vizinhos só parece mais verde nas redes sociais porque os filtros permitem essa ilusão de ótica.

Sigamos.

Portanto, ligar o foda-se é uma saída legítima, e muito eficaz, para sobreviver mais um dia sem estresse, em um mundo que quer te vender a ideia de que você é especial só para te tirar o conforto de ser exatamente quem você é. Os juros que você paga são as coisas que você compra para mostrar a quem você não gosta aquilo que você não tem vontade de ser.

Ah, sim, e se você acha que, na contramão de se sentir especial, você não faz nada de interessante, e tem um medo enorme que a sociedade descubra qual tamanho de fraude você veste, Mark tem umas notinhas bem interessantes sobre a síndrome do impostor ali pela página 71.

A vida é um jogo de cartas. E foda-se.

Um pouquinho mais pra frente, Mark vai te contar o que vou reforçar qualquer dia desses, em outra resenha, de outro livro: a vida é uma estrada em que desfilam as situações mais aleatórias possíveis. Como um jogo de cartas. Cada situação é, mais ou menos, uma carta que você tem na mão.

Ganha o jogo não quem sai na frente com a melhor mão, mas quem age melhor com as cartas que tem. Se não fosse assim, o pôquer não seria tão interessante.

As palavras exatas que ele usa são:

Todos nós recebemos cartas aleatórias no início do jogo, alguns, cartas melhores. E, embora seja fácil nos fixar no que está na mão e sentir que nos ferramos, na verdade o jogo está nas escolhas que fazemos com essas cartas, nos riscos que decidimos correr e nas consequências com as quais escolhemos viver. Quem, de maneira consistente, faz as melhores escolhas diante das situações que se apresentam acaba ganhando no pôquer, e na vida. Não necessariamente quem tem as melhores cartas”.

Se quiser por à prova essa ideia de Manson, pense em uma das brasileiras mais famosas dos últimos anos: Suzane Von Richthofen.

Suzane tinha cartas ótimas quando nasceu: rica, bonitona, cidadania alemã. Mas, no afã do jogo, deu o grito com uma mão péssima. Se o que a motivou a matar os pais foi a psicopatia, e não o dinheiro, as consequências que ela enfrenta são social e judicialmente indicáveis a seu objetivo. Coerentes, até.

Agora, se foi o dinheiro, se foi poder namorar com quem quisesse ou se livrar de pais opressores enquanto ainda era uma adolescente, bem, ela se ferrou bastante. Não só porque perdeu toda a grana que hoje teria para morar onde quisesse e namorar quem bem entendesse, mas porque a vida dela se resume a pagar por uma escolha que ela fez na adolescência, fase mundialmente conhecida como “época da vida em que não sabemos se somos pessoas ou samambaias”.

Por outro lado, muita gente que não tinha pais abastados, e não podia namorar quem quisesse, e não podia ir no boliche todo sábado, ou sequer conseguia frequentar uma boa escola nessa idade, superou todos os obstáculos, cresceu com elas e, hoje, são mais felizes, ricos ou, pelo menos, mais livres que Suzane.

Parece que o jogo da genética aleatória virou, não é mesmo?

Isso só é possível porque as cartas na mão não ditam o fim do jogo, elas só te fazem pensar as melhores estratégias. Se as estratégias não forem boas, não vai ter vitória; se forem certeiras, nada vai tirar o jogador da arena. E, como Manson diz anteriormente, só pode ganhar quem joga.

Outra passagem bem bacana do livro, que faz um link sobre se sentir especial e a vida em cartas, é o que Manson chama de “injustiça chique”, em que todo mundo está indignado e acha que merece o holofote, mesmo quando não há razão para isso.

O branco que acha que sofre racismo reverso porque agora “o negro quer tudo, pode tudo, tem tudo, e eu fico aqui sem saber pra onde ir”, ou o homem heterossexual que acha que “feminismo é mimimi, não existe um movimento que me representa”, ou o rico que ficou revoltado porque teve que mandar dez mordomos embora em 2016 e resolveu votar em um empresário qualquer com pinta de salvador da pátria são exemplos dessa injustiça chique.

Se você fizer parte, ou sentir que já fez, de quaisquer grupos chiquemente injustiçados, vai querer se dar um soco no olho quando passar por essa parte, tamanha a vergonha do eureca. Mas continue a leitura, ela vale a pena.

O segredo é não se encontrar

A Sutil Arte de Ligar o F*da-se é, por definição, uma obra de não-ficção do gênero autoajuda. Concordo com essa definição, pois ela me pareceu uma sessão de terapia de 72 horas, que foi o tempo que levei para consumir e digerir o livro. Contudo, não espere, nem por um segundo, ter as respostas para a vida, o universo e tudo o mais com essa leitura.

Mesmo porque o livro certo para isso é outro, e chama-se O Guia do Mochileiro das Galáxias.

Aliás, um dos conselhos que Mark Manson dá em sua obra ressoa com algo que Douglas Adams disse anos antes de “foda-se” ser uma palavra normal, tipo bexiga. Manson diz o seguinte:

Quer saber? Não se encontre. Nunca conheça quem você é. Porque é isso que faz você se empenhar e viver em estado de constante descoberta. Essa postura vai forçá-lo a ser humilde nos julgamentos e na aceitação das diferenças”.

Já Adams sugere que

Se algum dia eu me encontrar, vou me dar uma surra tão grande que nem vou saber o que foi que me aconteceu”.

Página 160 do primeiro livro. Vai fundo.

Sim, essa sou eu fazendo resenha de um livro e te indicando outro como bônus. Mas pode acreditar que, nessa seara de ligar o foda-se e coisas do tipo, Mark Manson não recusaria uma ajudinha de Ford Prefect.

Por falar nisso, para quem gosta de boa literatura, seja de ficção ou não-ficção, como é o caso, A Sutil Arte é um deleite. Começa contando a história de Charles Bukowski, um fracassado de marca maior, e passa até por Shakespeare – que, bem, é Shakespeare. Nosso garoto William é um caso de sucesso que já dura 500 anos.

Ele também fala de música, com alguns casos envolvendo bandas famosas (sim, os Beatles estão inclusos), de Física – não só naquela parte sobre aleatoriedade – e de militares japoneses morando no Brasil.

Manson nos dá uma boa ideia da diferença entre ligar o foda-se e ser indiferente com exemplos tão interessantes que você não poderia cronometrar a rapidez com que vai mastigar suas páginas. Quando der por si, vai estar lendo sobre como a morte é um bom lembrete de viver bem e, se terminar a leitura em meio a outras pessoas, certamente dará um efusivo abraço em seus camaradas.

Por que ler esse livro?

Devo te confessar uma coisa: tenho a impressão de que alguns livros me chamam a atenção para serem lidos no meu momento exato de vida.

Embora o segundo parágrafo desse texto dê a entender que fiz uma compra de impulso, eu vi a capa alaranjada de A Sutil Arte de Ligar o F*da-se me chamando por meses em uma livraria. Não foi um, nem dois, nem quatro. Estou falando de uns quinze meses. Demorei esse tempão e, quando finalmente o li, passei por uma verdadeira prova de fogo dias depois de finalizá-lo. A coisa toda me exigiu saber ligar o foda-se de verdade.

Era uma situação complicada, cujo desfecho poderia me levar a dois caminhos: aprender com o que rolou e, no mais, ligar o foda-se, ou achar que eu era especial o suficiente para não merecer passar por tanto sofrimento e, justamente por passar por tanto sofrimento, viver amargurada.

Te digo o seguinte: ler essa ou qualquer outra peça de autoajuda não vai ser efetivo quando você estiver passando por um obstáculo. Se há sangue correndo nas veias, há medo. Medo de perder o emprego, o amor, o sonho, de alguém que você ama morrer, de morrer. Há mais medo ainda quando qualquer uma dessas coisas acontece. Você não vai saber ligar o foda-se no exato momento do ocorrido, e ainda bem, pois isso mostra que você é um ser humano.

Imagine:

– Estou triste porque minha mãe morreu no mesmo dia em que meu marido me deixou e descobri que meu gato tem Alzhimer. Mas, pensei “foda-se” e fui ali tomar um sorvete.

Não vai rolar.

O negócio é o que fazer depois, quando o maior medo se materializa e você ainda está aí, de pé. Inconscientemente pronto para encarar um novo dia, mas sem, exatamente, saber como fazê-lo.

É exatamente que a mágica acontece e você fica feliz por ter lido algo como o livro do Mark Manson. Como disse antes, ele não vai te dar a resposta certa, mas vai te fazer entender que, talvez, você não precise de nenhuma.

E isso, meus caros, é o milagre da libertação.

Voe!, disse a moça, antes que eu mude de ideia.

 

Bora ligar o foda-se?

Se quiser a melhor entrega com o melhor preço, compre pelo livro abaixo. Se não quiser… bem… já sabe. 😉

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