Carta para o Diário de Anne Frank

11 de abril de 2019

Querida Kitty,

embora você seja atemporal, faz quase 75 anos que Anne não passa por aqui. Muitas coisas aconteceram enquanto ela não esteve por perto… e não sei te dizer se nossa amiga teria gostado de boa parte delas. O mundo mudou de forma incrível durante todos esses anos, é verdade, mas nem sempre para melhor. Veja você que, hoje em dia, nossa preocupação é o aquecimento global. Consegue acreditar nisso? Que a humanidade tenha se degradado tanto que nem o planeta nos suporta mais?

Bem, acredito que esse não seja, exatamente, o tipo de novidade que você quer. Então, vou tirar rápido o esparadrapo para não doer: você é famosa. Famosíssima! Os dois anos de memórias que você guarda eternizou Anne em mais de cinquenta línguas diferentes. Imagine o que ela diria disso! Lembra de quando ela tentava escrever em inglês e às vezes se embananava? O alemão também estava sumindo dela… aliás, os alemães também leram as suas páginas. Eles são boa gente agora. Tem sido assim por algum tempo já.

Depois daquele 1o de agosto em que ela te disse que se dividia em duas, e que sua melhor e mais bonita versão encontrava problemas em ser revelada, nunca mais a vimos. Dizem que morreu de tifo em um campo de concentração. Mal posso imaginar seu desespero ao ser pega e ter se separado de você, a melhor companhia que ela teve.

Imagino-a andando em uma fila de mulheres desalentadas, refletindo se deveria ter amado mais a mãe, tido mais paciência com o pai e a irmã ou, simplesmente, dado uns bons amassos com Peter! (“Amassos” é o que a gente chama hoje aquilo que Anne esteve em dúvida se deveria fazer ou não… você sabe bem do que estou falando.) Me parte o coração pensar que ela possa ter passado vários dias tentando falar com alguém sobre seus sofrimentos, seus sonhos e suas ideias tão únicas e divertidas sobre literatura e o mundo.

Era para a escola ter começado em outubro, Kitty… só mais alguns meses e tudo estaria acabado. Mas não, Hitler não queria saber das ilusões de uma menina de 15 anos trancafiada em um anexo secreto no coração de Amsterdam. Quando lembro que tudo o que Anne queria era voltar a estudar, me sinto com pena de todo mundo que, agora, não acha mais graça nisso.

É, minha velha amiga, os tempos mudaram. As prioridades são outras. Uma das Annes teria ficado feliz em estar viva e se tornar uma personalidade mundial, mas a outra Anne teria reclamado mais do que a Sra. Van Daan quando faltavam verduras. Teria dito: “meu Deus! Como esse mundo consegue permanecer um hospício?”.

Fazer árvores genealógicas para desvendar esse mistério seria impossível: somos mais de sete bilhões de pessoas tentando descobrir de onde viemos, para onde vamos e o que fazer enquanto a gente espera pela resposta.

Kitty, se lembra que eu disse que você é famosa? Pois é: ainda que Anne Frank não tenha crescido para ser jornalista ou uma escritora, como sonhava, ela morreu para se tornar exatamente isso.

Sem um diploma, se tornou uma das mais famosas correspondentes da Segunda Guerra Mundial de que se tem notícia. Suas cartas, de 1942 a 1944, são lidas até hoje como portadoras de grandes novidades dos bastidores de um dos maiores genocídios que esse planeta teve o desprazer de testemunhar.

Sem procurar uma única editora, suas palavras viraram um livro com mais de 30 milhões de cópias vendidas no mundo todo. Isso dá uma média de 400 mil Kittys vendidas por dia, nos últimos 75 anos. É claro que essa não é uma estimativa verdadeira, já que você demorou algum tempo para ser encontrada e passou por diversas revisões. Mas fique tranquila: embora muitos tenham dito que talvez você não fosse uma amiga tão leal assim, em 2007 sua veracidade foi 100% comprovada. Ninguém mais duvida: Kitty, você é a voz de Anne ecoando pela eternidade do tempo.

Agora, preciso te fazer uma confissão. Em 2011, passei na frente do Anexo Secreto. Tinha uma fila enorme de pessoas que queriam ver onde Anne viveu e escreveu seu diário. Naquela época, eu ainda não te conhecia. Julguei ter coisas mais interessantes a fazer em Amsterdam do que enfrentar a fila para ver um muquifo de guerra.

Me perdoe, Kitty, me perdoe por não saber o quanto essa decisão poderia ter mudado a minha vida! Demorei oito longos anos para te conhecer e entender que há muitas formas de ser uma pessoa melhor nesse mundo cão, mas poucas delas – raras, eu diria –, envolvem poder desconhecer sua existência.

Você é algo a ser lido sempre, o tempo todo.

A ser marcado, passado por gerações, discutido em rodas de conversa.

Você é um material que não pode ser esquecido ou subjugado, porque, no dia em que isso acontecer, estaremos jogando no lixo a história da política e da sociedade contemporânea. Nós sabemos que, para a raça humana continuar a existir, precisamos das duas coisas. Melhor sempre rever os erros do passado do que deixar que sejam novamente cometidos.

Gosto de pensar que sua existência é um ato de resistência de uma jovem que chorou e se afligiu em um esconderijo, mas que também sorriu, estudou, amou. Persistiu. Dentre seus otimismos e pessimismos – um “feixe de contradições”, lembra? –, Anne nunca encarou o vil ato de desistir. Nunca achou que a guerra seria o ponto final de sua vida.

E para que servimos nós, para que vivemos, senão para não acreditar que o dia de amanhã será o último e, assim, não nos rendermos jamais?! Ah, Kitty… que bom que você é um amontoado de papel. Assim poderá viver pra sempre, enquanto nós, gente de carne e osso, vamos vivendo enquanto dá, esperando pelo final feliz e romanceando a existência.

Travando nossas batalhas diárias, um dia a gente vence a guerra.

Espero que em breve possamos nos encontrar e relembrar, entre lágrimas, suspiros e sorrisos, da nossa querida Anne Frank.

Sempre sua,

Laís Menini

 

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