Os conselhos de Holly (ou como a morte influencia a escrita)

Tenho noção do quanto esse título é esquisito. Não a parte dos conselhos de Holly, a outra. ;p

Mas é que ando percebendo o quanto ele também é real. Se, por um lado, temos inúmeros escritores que parecem “desvendar” a morte para nós, através da ficção – e, para quem acredita, da não-ficção psicografada –, por outro há um interesse infindável sobre o assunto. Basta jogar numa roda de conversa que alguém morreu que as pessoas já querem saber como, quando, porque, mas porque tão jovem, e por aí vai.

Sou curiosa e adoro falar sobre a morte. Não no sentido “adoro quando alguém morre, é tão divertido”, mas no sentido “vamos todos morrer, mesmo”. A literatura me ajuda a alimentar essa curiosidade de muitas formas, com Stephen King, Edgar Allan Poe e até contadoras da histórias mais delicadas sobre a morte, como Cecília Ahern, autora de PS: Eu te Amo, e Jojo Moyes, com a sequência Como Eu Era Antes de Você.

Mas a internet é quem bate todos os recordes no quesito “tratamento rápido do assunto”. Basta um breve giro nas redes sociais para ver que pessoas morrendo todos os dias podem deixar o mais vasto campo de dados, inclusive sobre sua própria morte. Numa dessas, encontrei, no fim de 2017, uma carta escrita por uma jovem australiana que estava em fase terminal de câncer. A mensagem foi postada em sua página pessoal no Facebook, logo após sua morte.

Tá, mas e o que tudo isso tem a ver com a escrita?

os conselhos de HollyA morte de Holly Butcher, a australiana em questão, é apenas mais uma das inúmeras que ocorrem todos os dias – não se esqueça, vamos todos morrer, mesmo. Mas, antes de partir, ela deixou um recado de seu coração que mudou minha vida em alguns níveis.

Tudo o que penso em fazer, escrever, visitar ou até comer, penso nas palavras de Holly. A forma com que lido com minhas interações virtuais de 2017 pra cá tem muito das palavras de Holly, e meu modo de enxergar o que é estética, o que é vaidade e o que é aproveitar realmente a vida também foi levemente moldado pelos conselhos finais de uma menina que nunca vi.

Seu texto, que não é rebuscado, mas nu, completamente nu, daqueles que a gente sabe que foi escrito a lágrimas e dor, faz a gente refletir nosso papel nessa coisa toda e deixa alguns ensinamentos sobre a arte de fazer o que quer que seja com a importância que devemos dar a essa atividade.

Quando ministro um curso, palestra ou converso com os amigos, cito esse texto. Leio a carta de Holly. Quando preciso me lembrar do que realmente importa, releio, em silêncio, no quarto ou na cozinha.

Hoje compartilho com você a carta dela na íntegra. O original, em inglês, você lê aqui.

Os conselhos de Holly

É estranho perceber e aceitar sua mortalidade aos 26 anos de idade.

É apenas uma dessas coisas que você ignora.

Os dias passam e você espera que eles continuem chegando, até o inesperado acontecer.

Sempre me imaginei envelhecer, cheia de rugas, provavelmente causadas pela linda família (com muitas crianças) que eu planejava construir com o amor da minha vida. Quero tanto isso que dói.

Essa é a questão da vida: é frágil, preciosa e imprevisível, e cada dia é um presente, não um direito adquirido.

Tenho 27 anos agora, e não quero ir. Amo minha vida. Estou feliz, e devo isso aos meus entes queridos. Mas o controle foge de minhas mãos.

Não comecei essa “nota antes de eu morrer” para que a morte seja temida— gosto de sermos ignorantes quanto à sua inevitabilidade, exceto quando quero falar sobre isso e o assunto é tratado como um tópico ‘tabu’, que nunca acontecerá a nenhum de nós… nesse caso, fica um pouco difícil.

Só quero que as pessoas parem de se preocupar tanto com pequenos estresses sem sentido na vida e tentem lembrar que todos nós temos o mesmo destino depois de tudo, fazendo, assim, o que puderem para tornar seu tempo digno e ótimo. Sem besteiras.

Deixo meus pensamentos pois tive muito tempo para refletir sobre a vida nos últimos meses. A maior parte deles me ocorre no meio da noite, quando coisas aleatórias estão na minha cabeça.

Se, nessas ocasiões de reflexão, você pensa em coisas ridículas (algo que notei tanto nos últimos meses), lembre-se de alguém que está realmente enfrentando um problema. Seja grato pelo seu problema ser menor e você poder superá-lo. É bom reconhecer que algo é irritante, mas tente não bater nessa tecla de maneira contínua e afetar negativamente os dias de outras pessoas.

Uma vez que faz isso, dê um grande suspiro de ar fresco, preencha seus pulmões e veja como o céu está azul e quão verdes são as árvores. É tão bonito! Pense em quão sortudo você é por fazer exatamente isso: respirar.

Você pode ter ficado preso no trânsito hoje, ou teve um sono ruim porque seus lindos bebês o mantiveram acordado, ou seu cabeleireiro cortou o cabelo muito curto. Suas novas unhas falsas podem ter quebrado, seus seios são muito pequenos ou você tem celulite em sua bunda, e sua barriga está bamboleando…

Deixe que toda essa merda se vá. Eu juro que você não vai pensar nessas coisas quando for sua vez de partir.

Tudo isso é muito insignificante quando você olha a vida como um todo.

Estou assistindo meu corpo se despedaçar diante de meus olhos, e não há nada que eu possa fazer sobre isso. Tudo o que desejo por agora é poder ter apenas mais um aniversário ou Natal com minha família, ou apenas mais um dia com meu parceiro e cachorro.

Apenas mais um.

Ouço pessoas reclamando sobre o quão terrível é seu trabalho ou sobre o quão difícil é se exercitar. Seja grato por ser fisicamente capaz de fazer essas coisas. Trabalho e exercício podem parecer coisas triviais, até que seu corpo não permita que você faça qualquer uma delas.

Tentei viver uma vida saudável, de fato; essa foi, provavelmente, a minha grande paixão. Aprecie sua boa saúde e seu corpo em funcionamento, mesmo que não seja do “tamanho ideal”. Cuide e abrace o quão incrível seu corpo é. Mova-o e alimente-o com alimentos frescos. Não se aborreça com o peso.

Lembre-se de que há mais aspectos para uma boa saúde do que o corpo físico. Trabalhe em encontrar sua felicidade mental, emocional e espiritual também. Dessa forma, você pode perceber o quão insignificante e sem importância é ter este corpo de mídia social perfeito e estupidamente retratado.

Aliás, sobre isso, exclua qualquer conta que apareça em seus feeds de notícias que lhe confira qualquer sensação de se sentir uma merda. Amigo ou não. Seja implacável para o seu próprio bem-estar.

Seja grato por cada dia que você não tenha dor e até mesmo os dias em que você não está bem com uma gripe, uma dor de costas ou um tornozelo torcido.

Aceite que é uma merda, mas seja grato porque nada disso é fatal e irá embora.

Reclamem menos, pessoas! E ajudem-se mais.

Dê, dê, dê.

É verdade que você ganha mais felicidade fazendo coisas para os outros do que se fizer por si mesmo. Eu queria fazer isso mais.

Desde que fiquei doente, conheci pessoas incrivelmente doadoras e gentis e fui a receptora das palavras mais amorosas e do apoio da minha família, amigos e estranhos, mais do que eu poderia dar em troca. Nunca vou esquecer isso e sempre serei grata a todas essas pessoas.

É uma coisa estranha ter dinheiro para gastar no final… quando você está morrendo. Não é hora de sair e comprar coisas materiais, como um vestido novo. Isso faz você pensar o quão bobo é achar que vale a pena gastar tanto dinheiro em roupas novas e “coisas” em nossas vidas.

Compre a seu amigo algo gentil, ao invés de outro vestido, produto de beleza ou joias para o próximo casamento.

  1. Ninguém se importa se você usar a mesma roupa duas vezes;
  2. É bom presentear.

Leve amigos para uma refeição ou, melhor ainda, cozinhe-os uma refeição. Encha a pessoa de café. Dê ou compre-lhes uma planta, uma massagem ou uma vela e diga-lhes que você os ama enquanto dá esses presentes a eles.

Valorize o tempo de outras pessoas. Não deixe ninguém esperando só porque você está cagado com a hora. Prepare-se mais cedo, se você é uma dessas pessoas que se atrasa, e aprecie que seus amigos desejam compartilhar seu tempo com você, e não se sentarem sozinhos, esperando por um companheiro.

Você também ganhará respeito! Amém, irmã.

Este ano a nossa família concordou em não dar presentes de Natal e, apesar de a árvore ficar um pouco triste e vazia, foi bom porque as pessoas não tiveram a pressão de fazer compras. O esforço foi destinado a um cartão bem escrito para o outro.

Imagine minha família tentando me comprar um presente, sabendo que provavelmente usaria ela mesma… estranho! Pode parecer bobo, mas esses cartões significam mais para mim do que qualquer compra de impulso poderia significar.

Lembre-se, também, que foi mais fácil fazer isso em nossa casa porque não temos crianças pequenas. De qualquer forma, a moral da história é que presentes não são necessários para um Natal significativo. Vamos em frente.

Use seu dinheiro com experiências… ou, pelo menos, não perca experiências porque gastou todo o seu dinheiro em merda material.

Faça esforço em viajar para a praia, aquela viagem que você está sempre adiando. Mergulhe os pés na água e enfie os dedos dos pés na areia. Molhe o rosto com água salgada.

Entre na natureza.

Tente aproveitar momentos ao invés de capturá-los através da tela do seu telefone. A vida não é destinada a ser vivida através de uma tela, nem é sobre como obter a foto perfeita… aproveite o maldito momento, pessoa! Pare de tentar capturá-lo para todos os outros.

Levante-se cedo às vezes e ouça os pássaros enquanto observa as belas cores que o sol faz quando ele sobe.

Ouça música… realmente ouça. A música é terapia. Música velha é melhor.

Faça carinho no seu cão. Eu sentirei falta disso.

Fale com seus amigos. Eles estão bem? Desligue seu telefone.

Viaje se for o seu desejo, não viaje se não for.

Trabalhe para viver, não viva para trabalhar.

Sério, faça o que faz seu coração sentir-se feliz.

Coma o bolo. Zero culpa.

Diga não às coisas que você realmente não quer fazer.

Não se sinta pressionado a fazer o que as outras pessoas podem pensar que é uma vida significativa… você pode querer uma vida medíocre e isso é muito bom.

Diga aos seus entes queridos que você os ama sempre que você tiver a chance, e ame-os com tudo o que você tem.

Além disso, lembre-se: se algo está fazendo você se sentir miserável, você tem o poder de mudá-lo — no trabalho, no amor, no que for. Tenha a coragem de mudar. Você não sabe quanto tempo você tem nesta Terra, então não perca esse tempo se sentindo miserável. Eu sei que isso é dito o tempo todo, mas não pode ser mais verdade.

De qualquer forma, esses são só conselhos de vida de uma jovem garota. Pegue-os ou deixe-os, não me importo!

Ah, e uma última coisa: se puder, faça uma boa ação pela humanidade (e por mim) e comece regularmente a doar sangue. Isso fará você se sentir bem, com o bônus adicional de salvar vidas. Eu sinto que é algo tão negligenciado, considerando que cada doação pode salvar 3 vidas! Esse é um enorme impacto que cada pessoa pode fazer e o processo é realmente muito simples.

A doação de sangue (mais sacos do que eu poderia acompanhar a contagem) ajudou a manter-me viva por um ano extra — um ano do qual serei eternamente grata por ter conseguido gastá-lo aqui na Terra com minha família, amigos e cachorro. Um ano em que tive alguns dos melhores momentos da minha vida.

… até nos encontrarmos outra vez,

beijinhos,

Hol

1 Comentários
  1. avatar image
    Eliane at 12 de fevereiro de 2019 Responder

    É tão clara, que eu prefiro esperar por ela, sem pensar que dia, quando e como ela virá.

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