Como descobrir sua linhagem criativa

Foi lendo Austin Kleon (a essa altura do campeonato, você já percebeu que curti mesmo o livro dele) que descobri que, muito provavelmente, o que eu penso não vem da minha cabeça.

Assim, até vem; mas meus pensamentos são conduzidos pelas sugestões que outras pessoas me dão – geralmente, as que eu leio. Cada pensamento gerado vai criando outro pensamento, e outro, até que as ferramentas de que preciso para escrever um texto chegam à cena: os argumentos estão lá, as ideias foram maturadas… mas a origem de todas elas está em uma cabeça que não é a minha.

Complicado?

Vou tentar explicar tomando um exemplo pessoal, das últimas eleições brasileiras para presidente.

Durante o segundo turno tive o prazer de ler um artigo escrito por Fernando Haddad para a revista Piauí. Ele não tinha sido meu candidato no primeiro turno, mas se tornou escolha inconteste a partir desse artigo, que julgo ser uma obra-prima.

O texto se chama “Vivi o que li nos livros” e foi escrito em 2017. Nele, Haddad conta os gatilhos que levaram às manifestações de 2013 e dá um spoiler da crise dos caminhoneiros, que viria a eclodir em 2018. Todas essas informações são interessantes, por si só, mas o que mais me chamou a atenção não foi isso.

O que realmente me marcou nesse texto foi ver de onde Fernando Haddad tirou todo o conhecimento para mapear o que estava por vir – e como ele iria lidar com essa carga de informações. Ou seja, qual era sua linhagem criativa para a solução de problemas. Formado em Direito, mestre em Economia e doutor em Filosofia, Haddad leu muito para consolidar sua carreira acadêmica. E continuou lendo depois disso. Em uma entrevista durante o segundo turno, ao ser perguntado sobre um livro que lhe marcou, ele disse: Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, considerado pela crítica o melhor escritor brasileiro de todos os tempos.

A linhagem criativa de Haddad está bem na nossa cara, para ser vista por quem quiser percebê-la. E nos mostra que, para escrever, trabalhar ou solucionar problemas a nível nacional, criatividade é uma ferramenta imprescindível.

A linhagem criativa do escritor

Voltando a Austin Kleon, que citei no início do texto, é sempre bom saber de onde sai o que a gente pensa, acredita, fala.

Vivemos no século XXI, em um planeta onde a espécie humana existe há milhões de anos, o que deixa um pouco petulante a ideia de que tudo o que a gente imagina saiu da nossa cabeça.

Afinal, tudo o que tinha pra ser dito já foi dito; só estamos refiltrando as informações. Tornando-as adequadas ao nosso tempo.

A linhagem criativa, principalmente na arte da escrita, é o que nos dá repertório. É preciso ler para poder pensar.

Para os escritores, a musa inspiradora é a própria literatura. Nesse caso, é quase uma sentença de morte: o escritor não pode ser considerado escritor, de jeito nenhum, se não for leitor primeiro.

Para descobrir sua linhagem criativa, proponho um exercício. Você vai precisar de quatro folhas de papel e do nome de suas principais referências criativas – se você for escritor/a ou redator/a, elas devem ser prioritariamente literárias.

Na primeira folha, escreva o nome das suas principais referências.

Na segunda folha, escreva três características que você realmente admira em cada uma delas.

Na terceira folha, escreva três características de seu próprio estilo de texto.

Quando uma ou mais características do texto pessoal, percebidas pelo próprio autor, são similares às que ele atribui aos autores preferidos, mais próximo do autor esse “mentor” está.

A quarta folha vai servir para fazer a “árvore genealógica” dessa família criativa, com você na base, se desdobrando em suas duas referências, que vão se desdobrar em duas outras referências – sejam elas as referências reais de seus autores ou de outros autores que influenciam, de certa forma, o estilo dos dois primeiros.

Por exemplo: se você acha que eu escrevo de uma maneira que te inspira a escrever, sabe quem eu admiro na escrita – te contei no texto sobre meus autores preferidos. Pegue um deles e descubra, em pesquisas, de quem esse autor gosta, e assim por diante.

De repente, você vai ver que sua melhor ideia começa em J.K. Rowling, mas tem origem lááááá em Shakespeare. Olha que chique! 😉

Descobrir a linhagem criativa dá trabalho, mas também enche a gente de orgulho. E, também, de alívio: a gente passa a enxergar como humano quem achamos ser deus, por ver que essa pessoa também endeusa alguém além de si próprio.

Nenhum criativo é criativo sozinho.

Além de te promover esses sentimentos, o objetivo do exercício é mostrar, através da metodologia iniciada por Austin Kleon, que todo artista/escritor tem uma linhagem criativa, e que ela conta muito. Podemos, por exemplo, fazer parte da mesma linhagem de James Joyce, Agatha Christie ou Ernest Hemingway e nem nos darmos conta disso.

Ter a linhagem criativa bem delineada traz mais motivação – e responsabilidade – para a escrita.

Pare e pense naquilo que mais gosta de ler, nos conteúdos que consome em sites e blogs, nas coisas que prendem sua atenção. Olhe toda essa informação nos olhos e pergunte a ela porque ela é assim. De onde ela vem.

E, afinal, porque você está pensando no que você está pensando.

A resposta pode estar na linhagem criativa que você desenhou para si, nos artistas que te movem mesmo sem te conhecerem e naqueles que os moveram antes mesmo de você nascer.

Isso não é incrível?

 

Para saber mais sobre o assunto…

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