Como escrever um livro

Costumava ter um medo pavoroso da morte. Não de morrer, de fato, embora a gente sempre torça para que a nossa vez seja rápida e indolor, mas não era esse o caso. Tinha medo de morrer sem deixar nada de significativo para trás. Até que um dia li em algum lugar que, para se eternizar, a pessoa deveria plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro.

Plantei uma árvore em uma fazendinha no Chile em 2015. Jamais saberei te dizer como chegar até lá, se você me perguntar. Só consigo comprovar a veracidade do fato pelas vinte testemunhas oculares, que também plantaram suas árvores. Acho, então, que não me eternizei por aí. Sem ver se a árvore cresceu, sem cuidar dela, sem olhar para sua copa dando sombra e falar “fui eu que fiz”? Assim não vale. Continuei reles mortal.

Se você leu meu texto chamado Liesel, viu que ter um filho é outra coisa que ainda não rolou. Pode ser que role, mas, por ora, bati na trave e não me eternizei. Mortal, ainda.

Me restou, então, o tal do escrever o livro.

E por que não?

Eu tinha uma ideia com a qual brincava desde 2010, algumas páginas já escritas em algum lugar e, agora, sem árvore, sem filho e com uma boa janela de tempo para, de fato, escrever (as maravilhas do empreendedorismo), poderia retomá-la.

Foi isso que fiz. De janeiro pra cá vi minha ideia inicial tomar vida, com personagens que sabem o que querem e me contam, em uma narrativa que se inventa sozinha. Eu só escrevo.

Aliás, descobri que escrever livro é psicografia: eu não faço a menor ideia do que vai acontecer, até que os próprios personagens, que inicialmente existem só na minha cabeça, me digam. Sou apenas o instrumento de suas vontades.

Enquanto redijo esse artigo, tenho 170 páginas sobre meu assunto preferido no mundo: o amor impossível. Não, não o amor platônico; o impossível, mesmo. Aquele que você olha e fala:

            nah. Não existe a menor possibilidade de isso dar certo. É impossível.

Até que pare de ser impossível. <<< Esse é meu tipo de assunto preferido.

Diariamente faço meus exercícios: rabisco contos, poemas, letras de músicas que caberiam na melodia dos outros, mas nenhuma dessas coisas me dá tanta felicidade quanto inventar um amor impossível e ver onde ele vai parar.

Sério, eu não sei onde ele vai parar. Também estou curiosa.

Por isso, quero usar esse espaço para contar, aos colegas escritores, o que raios ando fazendo quando a Alice – minha personagem principal – conta sua vida pra mim. Um dia esse post será gigantesco, tão grande que corre o risco de nunca ser lido, o que o torna ainda mais intimista.

A internet tem agora essa frase do “se flopar nunca existiu”.

Eu tô feliz demais que esse post exista, mesmo que ninguém leia.

Aí você vem com uma pergunta pertinente

Uma daquelas que viriam em um documento descrita como “doravante denominada questão de gênero literário”:

E por que contar sobre como fazer um livro quando você mesma nem terminou o seu?

Sou responsável por meus atos, sem nenhuma ilusão do contrário, mas confesso que passei anos no limbo da procrastinação porque me sentia perdida sobre o que fazer com a ideia que eu tinha na cabeça, frustrada porque ninguém me ajudava a achar respostas.

Eu vou ser publicada? As pessoas vão gostar? Como escrever isso? Preciso desenvolver os personagens primeiro? Todos eles precisam ter uma personalidade? Mas eu não conheço todos eles ainda. Preciso ter todas as etapas já planejadas? Um esquema, tipo a monografia, em que você já sabe quais serão os capítulos? O título é importante? Céus, como escrever um livro?

Esses questionamentos me travaram por anos. Não estou brincando: comecei a esboçar a história em 2010, estou para finalizá-la em 2019. Quanto espaço de procrastinação existiu nesse intervalo? Foram dias, meses, anos sem sair do lugar.

Às vezes, odiava minha ideia. Todo mundo já fala disso.

Às vezes, minha personagem. Está sendo condescendente.

Na maior parte do tempo, temia pelo público. Só eu vou ler isso.

Demorei para entender que isso era mais que o suficiente. Que, se eu me divertisse inventando uma história – a história que eu queria ler, como me disse Austin Kleon –, ser minha única leitora já estaria de bom tamanho.

A redenção completa veio com Stephen King, em Sobre a Escrita. Quando disse que ele salvou minha vida, não estava exagerando. Ler essa obra foi minha carta de permissão para que eu fizesse o que quisesse fazer. No fim, ele diz que

A escrita não é para fazer dinheiro, ficar famoso, transar ou fazer amigos. No fim das contas, a escrita é para enriquecer a vida daqueles que leem seu trabalho, e também para enriquecer sua vida. A escrita serve para despertar, melhorar e superar. Para ficar feliz, ok? Ficar feliz.

Não estou dizendo que a ajudinha de alguns leitores legais dirimiu todas as minhas dúvidas, mas no último ano tirei das costas um peso que carreguei por quase nove. Eu olhava para os lados e não tinha ninguém pra me ajudar – e olha que perguntei pra muita gente, sempre que as pessoas estavam ao meu alcance: professores, escritores, editores… eu pedia uma luzinha no fim do túnel e ninguém, absolutamente ninguém, estava disposto a ligar sua lanterna.

Hoje, enquanto me divirto e fico feliz com o que produzo, consciente de que devo merecer meus leitores, fazendo um trabalho de qualidade, mas já realizada por criar um mundo novo, com vidas novas e uma história que cabe direitinho dentro do meu assunto preferido, percebo que não quero ser a pessoa que ajuda a outra a procrastinar.

Qual é, as pessoas tem medo de ter as ideias roubadas ou o que? De serem ultrapassadas pela direita por alguém com tanto talento quanto elas, ou mais, com uma ideia atrativa?

Entendo que é melhor não entregar o ouro todo de uma vez, em tempos de plágio descarado e reprodução rápida daquilo que você imagina, mas dar uma mão é bem diferente de fazer isso. É, simplesmente, jogar uma corda para quem está perdida/o no fundo do poço e dizer “calma que eu te ajudo”.

Austin Kleon, Ernest Hemingway e Stephen King foram três pessoas que jogaram essa cordinha pra mim, de 2017 pra cá. Por gratidão a eles quero continuar aprendendo como se faz e, sempre que possível, jogando a corda pra mais gente.

Por isso, se uma pessoa, em sete bilhões ou mais, ou menos, conseguir não ter medo da tela em branco por causa das coisas que vou compartilhar nesse post, vou me considerar bem-sucedida.

Meu livro pode nunca ficar famoso nem nada, mas imagine se esse texto aqui for o ponto de partida para o novo sucesso da nossa geração? De uma forma ou de outra, terei vencido a morte. Não é isso que todo mundo quer, afinal?

Passo 1: a ideia

Vamos deixar uma coisa bem clara agora, pode ser? Não existe um Depósito de Ideias, uma Central de Histórias nem uma Ilha de Best-Seller Enterrados; as ideias para boas histórias parecem vir, quase literalmente, de lugar nenhum, navegando até você direto do vazio do céu: duas ideias que, até então, não tinham qualquer relação, se juntam e viram algo novo sob o sol. Seu trabalho não é encontrar essas ideias, mas reconhecê-las quando aparecem”. (Stephen King – Sobre a escrita)

Minha ideia surgiu em 2010 enquanto eu andava pela rua com os fones de ouvido no talo, tocando Ela disse adeus, dos Paralamas do Sucesso. Levada pela história que Herbert Viana me contava, comecei a imaginar um “e se”. E se ele estiver falando de uma mulher assim, assim e assado?

À época eu começava a abraçar forte o feminismo e a música começa com uns versos em inglês que dizem let her move on with life / let her have some fun. Pra mim, fez sentido. Comecei a imaginar uma mulher que dizia adeus, meio que contra sua vontade, mas que ainda iria encontrar a diversão que fica acocorada, bem quietinha, esperando para ser descoberta logo após o período de dor.

Essa era minha ideia central, mas eu não tinha mais nada. Quem viveria essa história? Como a pessoa seria? Que tipo de dor ela tinha pra contar – e que tipo de diversão ela encontraria na sua vida?

As respostas eu fui descobrindo ao longo dos nove últimos anos e acho que, até eu finalizar o livro, continuarei a descobrir. Talvez até depois de tê-lo pronto. Mas o ponto, aqui, é que a minha ideia para o que pode ser um grande fiasco ou um best-seller – só o tempo dirá – surgiu, literalmente, do nada. Se a música não tivesse tocado, se tivesse tocado e eu não tivesse viajado na maionese, se eu nem tivesse saído naquele dia… tudo poderia estar adormecido, às vezes para sempre.

Se você tem uma ideia de história, por mais idiota ou randômica que possa parecer, não desista dela até ver onde ela vai te levar. Também não marque um horário na agenda para ter uma ideia, pois isso não vai funcionar. Também conhecida como “musa”, a ideia perfeita não vai aceitar seu convite para jantar na próxima terça, quando você estiver preparada/o para recebê-la.

Ela vai surgir de qualquer lugar, saída de qualquer playlist, ou bueiro, ou turbulência de avião, ou observação de uma figura caótica na fila de um banco. Ela mora nos encontros e desencontros que você terá pela vida – e isso significa que, talvez, você passe pelo universo sem desenvolvê-la, porque achou que não valeria a pena. Quantas ideias eu deixei passar e verei escritas nas mãos de outros autores?

A vida é assim.

E assim é a primeira observação (porque não existem regras) sobre como escrever um livro: não deixe de escrever porque até agora não apareceu nenhuma ideia boa. Aprenda a reconhecer as ideias que te trarão prazer em escrever, por mais que você ainda não conheça seus detalhes.

São detalhes e aparecerão no momento adequado, pode ficar tranquila/o.

Passo 2: escreva a história que você quer ler

Deixa eu te contar uma coisa que me travou por anos a fio: o medo de escrever algo que outras pessoas não gostariam de ler. Para que me dar ao trabalho de fazer um livro se eu fosse a única leitora, eu pensava? Aí, sempre que via um filme ou outro livro que tinha uma premissa parecida com a minha, eu recuava.

Não eram os meus personagens, não era o meu fio condutor, mas o gênero era igual e a história se desdobrava dentro da mesma forminha… então eu pensava inúmeras vezes antes de continuar, porque já tinham escrito algo que era terrivelmente parecido – familiar – com o que eu gostaria de escrever.

Até que um dia descobri que tudo o que tem pra ser dito já foi dito. Ponto. Minha ideia pode ser original, mas isso não significa que ela é inédita. Difícil assimilar, eu sei. O que quero dizer é que, por mais que existam coisas similares no mundo, e elas vão existir mesmo, pois meu pensamento é consequência de um repertório, só minha imaginação é capaz de produzir a história que está produzindo.

Isso, claro, se presumirmos que não estou plagiando – porque aí é outra história.

E essa história que está aqui na minha cabeça não foi feita para entreter mais ninguém, a não ser a mim mesma. Se alguém mais se interessar pelo mundo que criei, ótimo! Mas essa não é, ou não deveria ser, a questão principal. A questão principal é: eu me divirto enquanto estou escrevendo?

Se sim, ótimo.

É bom que a gente saiba que nem sempre o que vai divertir a gente vai dar dinheiro. Isso é importante, principalmente se tem alguém aí escrevendo para ficar rico. As coisas podem funcionar assim para uma parcela da população escritora, mas o risco é alto demais. Imagine: passar dias, meses ou anos escrevendo uma coisa que não te dá nenhum tesão porque pode ser isso que vai ter mais chances de vender?

Nada contra quem faz isso, mas meu tempo é muito precioso para eu não me divertir enquanto faço algo que, muitas vezes, é doloroso. Escrever é solitário demais, gente. Às vezes cansa, frustra, deixa a gente debaixo do chão. Você quer mesmo desperdiçar as partes boas da escrita só pra, sei lá, ganhar milhões de leitores ou um grande prêmio? Vá em frente. Só não espere que eu siga essa receita.

Morro pobre, mas feliz. Esse é meu lema.

E, aparentemente, o de Austin Kleon também é, porque ele diz que

O melhor conselho que tenho a dar não é que você escreva sobre o que conhece, é que escreva o que gosta. Escreva o tipo de história de que você mais gosta – escreva a história que você quer ler. O mesmo princípio se aplica à sua vida e carreira: sempre que estiver perdido sobre o que fazer em seguida, pergunte-se: ‘o que faria disso uma história melhor?’”

Stephen King vai ainda mais fundo, enfiando não o dedo, mas a mão inteira na ferida do “o que escrever”, ou “por que escrever?” – e quando li esse pedaço de texto abaixo dentro de seu livro mais lindo, não consegui conter as lágrimas:

A escrita não é para fazer dinheiro, ficar famoso, transar ou fazer amigos. No fim das contas, a escrita é para enriquecer a vida daqueles que leem seu trabalho, e também para enriquecer sua vida. A escrita serve para despertar, melhorar e superar. Para ficar feliz, ok? Ficar feliz. Parte deste livro – talvez grande demais – trata de como aprendi a escrever. Outra parte considerável trata de como escrever melhor. O restante – talvez a melhor parte – é uma carta de autorização: você pode, você deve e, se tomar coragem para começar, você vai. Escrever é mágico, é a água da vida, como qualquer outra arte criativa. A água é de graça. Então beba. Beba até ficar saciado”.

Se você viu as resenhas dos livros desses caras aqui no Lite é provável que já tenha lido esses dois trechos e esteja se perguntando se eu me repeti sem querer ou se foi de propósito. Não deixarei que a dúvida te corroa: foi de propósito. E sabe por que? Porque é esse tipo de gente que quero seguir, é nessa turminha que quero estar.

Quero estar na mesma panelinha de Bukowski, que, quando confrontado sobre continuar trabalhando em algo que não gostava ou largar tudo pela poesia – área que demorou MUITO para lhe dar algum retorno –, disse:

tenho duas opções: ficar nos Correios e enlouquecer, ou dar uma de escritor e morrer de fome. Escolhi morrer de fome”.

Em resumo, segura a bomba: se você tem uma ideia e adora escrevê-la, ou chora porque tem que escrevê-la mas não sabe muito bem para onde ir, ou anseia a hora do dia em que tem que escrevê-la, porque sabe que essa é a melhor hora, você está no caminho certo. Se a história vai ser publicada, se as pessoas vão ler, essa é uma preocupação para outro momento.

Deixe para pensar nos outros quando sua história estiver diagramada, impressa e tiver capa. Até lá, danem-se os outros. Só você importa. Escreva o que você quer ler. Ponto.

Continua…

6 Comentários
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    Paty at 8 de março de 2019 Responder

    Ai meu Deus, você é incrível, mulher! Eu te leio em “dois tapas” porque a coisa flui tão bem nos seus textos que se eu fechar os olhos consigo te ver sentada aqui no sofá da sala me contando como foi o teu processo de escrever um livro (o começo, ao menos).

    Ainda não li esse livro do Stephen King, mas quero muito! Só pelos trechinhos que tu colocou aí parece divino. Eu também andei muito tempo travada e com esses pensamentos, mas aos poucos, vou libertando as paranoias, hahaha! Meus maiores momentos “aaaaahhhh, eu poderia escrever sobre isso!” acontecem enquanto tomo banho ou dentro do ônibus, curtindo o balanço. Bloquinhos everywhere, ou a ideia se vai. Creio que enquanto sentia medinho muita coisa boa passou pela minha cabeça e eu nem tchum. Águas passadas!

    Aguardo a continuação e pode ter certeza que onde você lançar o seu livro, eu vou estar lá pra comemorar e te esmagar.

    Beijo!

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      Lais Menini at 16 de março de 2019 Responder

      Paty, leia o quanto antes esse livro do King, depois venha escrever um tantão de coisa SUA aqui pro Literama, porque você é uma dessas pessoas que não pode deixar de escrever.

      Seus textos são o máximo!

      E vou adorar ser esmagada, espero que não demore muito pra esse livro sair! 😉

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    Victor Ferraz at 8 de março de 2019 Responder

    Muito bacana o post Lais, acho que na verdade a idéia todos nós temos o mais difícil e tirar ela de dentro da gente.

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      Lais Menini at 16 de março de 2019 Responder

      Difícil e por vezes dolorido, mas é tipo parto, eu acho: depois que nasce, não dói tanto, mas preocupa muito e exige muito. De qualquer forma, se nos divertirmos pelo caminho, tudo dará certo. 🙂

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    Julis at 14 de março de 2019 Responder

    Mulher, como eu te amo!!!

    Me vi sentada com você e uma Heineken e você me contando tudo isso com olhos brilhantes, animados e inquietos!
    Até eu fiquei com vontade de escrever agora, hábito que até deixei de lado por circunstâncias da vida.
    Me animei com seu livro antes mesmo de saber que ele existe, ansio pelo momento de colocá-lo nas mãos e devorar sem pausa para respirar. Certamente vai ser maravilhoso, como tudo que você escreve com um vocabulário bem escolhido, com sentimento e animação envolvidos e, muita poesia sempre.

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      Lais Menini at 16 de março de 2019 Responder

      Obrigada, Julis! Espero estar à altura de ter você como leitora!

      E, por favor, ESCREVA! Muito! Também estou ansiosa para ler seus rabiscos!

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