Como o acaso determina nossas vidas

Imagine uma pessoa que não entende nada de matemática. Que teve que se esforçar para passar de ano nessa matéria a partir da quinta série. Que levou um susto quando a física entrou na roda – e levou um bom tempo para se recuperar das notas horríveis que vetores e cordas traziam consigo.

Uma pessoa que que tentou aprender, fez aula particular, ficou algumas vezes de recuperação mas que, no fim das contas, concluiu o colegial e entrou para uma faculdade que lhe desse cenários que estivessem o mais longe possível da matemática.

Esse cara sou eu.

Agora imagine essa mesma pessoa aos 20 e poucos anos, lendo, vendo programas, olhando as estrelas e se apaixonando perdidamente pelos números – embora não consiga entendê-los quando eles se juntam a algumas letras, sinais de multiplicação e igualdade.

Imagine essa mesma pessoa adorando ler sobre física e trocando as crenças limitantes que manifestações religiosas e culturais lhe impuseram ao longo da vida por explicações lógicas e maravilhosas que, com a bagagem da vida adulta, e um interesse bem maior por aquelas questões que um dia aprendeu na escola, faziam com que o entendimento fosse, finalmente, possível.

Essa também sou eu.

Enquanto me aproximei mais do raciocínio lógico e menos das crenças, nos últimos anos, estive pensando. Um desses pensamentos é o de que a gente gasta muito tempo da adolescência não aprendendo as coisas incríveis que o mundo tem a oferecer, talvez por preguiça, talvez porque o sistema de ensino não premiasse a nossa curiosidade – ou não a fizesse florescer.

Tentei, por tantos anos, alcançar a média escolar, que não me dei conta de que aquilo que eu aprendia me explicava tudo. Eu podia perguntar qualquer coisa ao professor: “como funciona um ímã? Por que o avião não cai? Como saber que jamais ganharei na loteria?”, mas não fiz nada disso, preocupada em entender que forças iguais em lados opostos se anulam porque eu precisava passar de ano.

Sem essa responsabilidade nas costas, os interesses ficam mais claros. A menina que não gostava de matemática, de física, de química e de biologia no ensino médio é a mesma que, hoje, se encontra tão curiosa sobre esses assuntos que tenta aplicar tudo o que lê e aprende, agora, à sua existência. A ponto de, ao esperar pela resposta do médico na sala de espera de um consultório, já não temer nenhum diagnóstico, porque entende que tudo é aleatório e, ao mesmo tempo, tudo é explicável.

A resenha de hoje é do livro O andar do bêbado – Como o acaso determina nossas vidas, de Leonard Mlodinow. Publicado em 2008, caiu nas minhas mãos em 2010. Comecei a lê-o em uma viagem de ônibus para o Rio de Janeiro, mas nunca terminei, até que retomei a leitura do zero em novembro de 2018. Oito anos depois, passei a entender um montão de coisas importantes para a vida real a partir desse livro, que não tem quase nenhuma equação.

Mlodinow explica com didática e exemplos muito divertidos uma área da física que é polêmica e que muitos de nós simplesmente ignora: a probabilidade. Para a ciência, os eventos aleatórios contam boas histórias e geram dados que podem nos ajudar a entender o presente. Contudo, jamais prever o futuro.

Essa é a primeira lição de O andar do bêbado, cujo termo significa, justamente, como a física enxerga as sequências de eventos na vida nas pessoas, nos elementos da natureza e até na movimentação das galáxias: o futuro é imprevisível, e ponto. Qualquer coisa que vá de encontro a isso está errado.

Aleatoriedade x Intervenção divina

Você já deve ter passado por alguma situação em que as pessoas tenham dito: era pra acontecer. “Tão novo, coitado, foi engolido por um tubarão dentro de um aquário, mas, você sabe, ninguém morre antes da hora”.

O andar do bêbado é um livro que destrói esse complexo da intervenção divina – e, aqui, não estamos falando só de religião, mas de qualquer outra crença em que algo já definiu qual será o destino e que, portanto, esse destino pode ser lido. Nessa leitura, essas intervenções dão lugar aos conceitos em que podemos acreditar, porque fazem bem mais sentido.

Falo com tranquilidade que saber como o acaso determina nossas vidas foi uma das coisas mais importantes que já me ocorreram. Como somos animais afeitos a acreditar em coincidências, lá vai a minha: no momento em que lia O andar do bêbado, passei por uma situação em que muitas pessoas me disseram, com toda sinceridade de sua alma, que “tudo tem seu momento”, tentando me confortar em um dia ruim. Com a obra, muito didática e incrivelmente divertida, a gente finalmente aprende a verdade sobre essa frase, que é quase um ditado popular: tudo o que ocorre, ocorre no momento exato, porque o universo é tão randômico que não há razão para acreditar que o evento teria outro momento para acontecer.

Uma das frases famosas de Einstein é: “Deus não joga dados com universo”. A interpretação que a maioria das pessoas dá a ela é que Einstein era um homem de fé que entendia que nada era por acaso. A resposta contextualizada, na realidade, seria que Einstein tinha tão pouca fé na probabilidade à luz da mecânica quântica que não acreditava na aleatoriedade da posição e movimento de partículas.

No livro, Mlodinow afirma o exato contrário: existe tanto da probabilidade em tantos eventos, incluindo os científicos, que a afirmação de Einstein se limita em si mesma. Para nós, reles mortais, uma boa explicação, juntando ciência e religião em uma tentativa honesta de interpretação de texto, a verdade poderia vir embrulhada para presente desse jeito: se existir, Deus tem mais a se preocupar do que com uma série de eventos aleatórios no curto período de existência de apenas uma de suas criações.

Trocando em miúdos, a ciência explica muito bem a vida, qualquer que seja sua manifestação. Lide com isso.

Alerta aos videntes: seus dias estão contados

Ei, essa não é uma previsão do futuro! É apenas uma constatação óbvia: os dados que temos hoje nos dão uma boa leitura do passado para identificar padrões de ocorrências futuras. A medicina trabalha muito com isso. Quando se fala, por exemplo, que em 2020 dois milhões de pessoas morrerão por problemas cardíacos, esse não é uma previsão de vidente, e sim uma constatação com base em estudos e dados do passado.

Falar que a dona Maricota vai morrer em 19 de setembro de 2022 após ter um AVC seria uma previsão extremamente específica do futuro. Isso, meus caros, é impossível. É por isso que, para quem desenvolve o pensamento lógico, olhar para as estrelas e entender que os astros vão falar como será seu dia e seu mês não é algo que faça sentido. Mas é uma característica humana acreditar que dá pra saber o que virá. É quase irresistível tentar saber o que nos espera na próxima esquina.

Não é novidade pra ninguém que o ser humano se acha perfeitamente capaz de prever o futuro – ou ver seus sinais em lugares meio insanos. Não vamos entrar em detalhes, mas a alegoria da bola de cristal explica bem o que a probabilidade quer combater: não dá para saber o que vai rolar amanhã porque existem uma série de eventos aleatórios para acontecer até amanhã.

Em determinada parte do livro, Mlodinow explica que

A existência de roletas é uma demonstração bastante boa de que não existem médiuns legítimos, pois em Monte Carolo, se apostarmos US$1 em um compartimento e a bolinha cair ali, a casa nos pagará US$35 (além do US$1 que apostamos). Se os médiuns realmente existissem, nós os veríamos em lugares assim, rindo, dançando e descendo a rua com carrinhos de mão cheios de dinheiro, e não na internet, com nomes do tipo Zelda Que Tudo Sabe e Tudo Vê, oferecendo conselhos amorosos 24 horas por dia, competindo com os outros 1,2 milhão de médiuns da internet (segundo o Google)”. (p. 95)

Você tem algum argumento que destrua essa lógica tão simples e, ao mesmo tempo, tão sofisticadamente correta?

Prever o futuro é algo que, do ponto de vista artístico, rende boas músicas e filmes; mas, do ponto de vista prático, tentar prever o futuro é um beco sem saída, com boas doses de frustração.

A mãozinha da física nas tomadas de decisão

Tá, eu sei, é difícil lutar contra a sensação de constante intuição, aquele nó na garganta e no peito que nos diz que algo está errado. Mais difícil ainda é aceitar o aleatório. Ansiamos, como espécie, encontrar a explicação lógica para tudo, mesmo quando não há uma explicação lógica. Não conhecer os processos da probabilidade torna tudo mais complicado.

O mais sábio a se fazer ao tomar decisões na vida – ir ou não de carro, sair ou não de casa, aceitar ou não um emprego – é basear as escolhas no princípio da incerteza: tudo pode dar certo, tudo pode dar errado. Quais são as chances para cada uma dessas possibilidades? Como Mlodinow explica em O andar do bêbado,

a capacidade de tomar decisões e fazer avaliações sábias diante da incerteza é uma habilidade rara. Porém, como qualquer habilidade, pode ser aperfeiçoada com a experiência”. (p. 14)

Na mesma sequência, o autor explica que é a incerteza que gera os acontecimentos, e que, nem por isso, precisamos nos reduzir a ela. Um exemplo que ele dá várias vezes ao longo do livro é o do mercado editorial: Mlodinow cita dezenas de casos em que autores hoje consagrados se viram rejeitados por uma editora, ou várias. A reflexão que ele nos traz é: às vezes, quem chega perto do sucesso e não o alcança é porque não tentou vezes o suficiente.

Probabilisticamente falando, vamos ser frustrados pelas nossas expectativas inúmeras vezes antes de sairmos vitoriosos. Veja o caso da loteria: quantas vezes você jogou e quantas ganhou? Tentar todas as semanas não significa que um dia você vai ganhar, mas não jogar é certeza absoluta de que você não vai ganhar.

Os números são tão óbvios que é difícil não sentir arrependimento por não ter prestado mais atenção neles durante a época da escola.

Por que ler um livro de física?

Se você é afeito a entender primeiro porque fazer algo para depois descobrir como fazer, agradeça aos céus – ou ao WordPress, você quem sabe – pelos subtítulos. Vou explicar pra você porque é importante ler um livro de física como O andar do bêbado agora. No sentido de: nesse minuto.

A física é ótima, é engraçada, tem senso de humor. Coisa que falta a muitas ciências – e, principalmente, a alguns seres humanos, que, vez ou outra, reinventam as teorias da ciência por sua conta e risco. Certamente falta senso de humor à maioria das pessoas que não tem a ciência como principal fonte de confiança nos numerosos eventos que ocorrem, a cada um de nós, todos os dias.

Outra boa razão para ler um livro de física é entender, aos pouquinhos, o que realmente é o caos. A palavra é comumente utilizada para descrever bagunça completa, falta de organização nos eventos, ocorrências sem pistas de como vão acabar. Tudo isso é verdade. Mas tudo isso tem beleza, e a física nos mostra o quanto é importante encontrar a beleza no caos. Um spoiler: estamos sempre querendo evitá-lo, mas, sem ele, seria impossível encontrar as respostas corretas.

Tudo tende ao caos. Que sorte a nossa.

Quer mais uma razão para comprar O andar do bêbado nesse momento e seguir com a leitura até o final, ainda que algumas partes pareçam difíceis de compreender (acredite, isso vai ocorrer várias vezes) de compreender? Essa eu deixo para o próprio autor demonstrar:

O economista Merton Miller, ganhador do Prêmio Nobel, escreveu que ‘se há 10 mil pessoas olhando para as ações e tentando escolher as vencedoras, uma dessas 10 mil vai se dar bem, por puro acaso, e isso é tudo o que está acontecendo. É um jogo, é uma operação movida pelo acaso, e as pessoas acham que estão se movendo com um propósito, mas não estão’. Devemos tirar nossas próprias conclusões conforme as circunstâncias; porém, entendendo o funcionamento da aleatoriedade, pelo menos nossas conclusões não serão ingênuas”. (p. 193)

A gente precisa aceitar, urgentemente, que o acaso existe e ele vai determinar as nossas vidas. Se você está esperando um ônibus e um carro te atropelar na calçada, vão haver inúmeros fatores para que isso tenha ocorrido, mas você estar naquele momento, naquele lugar, foi um acaso. É simples desse jeito – e, ainda assim, não é fácil acreditar. Eu sei, o autor sabe, a própria física sabe. Mas, quanto menos ingênuas forem nossas constatações, maiores são as nossas chances de tirar um entendimento melhor das situações boas e ruins que vêm ao nosso encontro.

Por isso, é melhor acreditar no acaso, acima de qualquer outra coisa que tentem nos vender. Ao invés de tentar prever o que virá, aprender a reagir ao que virá é um dos benefícios que só tem quem entende o arcabouço determinístico do acaso. Ele vale para tudo, desde nossas noções mais básicas do que é ter sucesso até o princípio da leveza de entender que tudo vale o risco, pois o que determina o futuro não é o que está escrito ou o que foi dito por alguém que protocolou sua leitura de marte no dia 15 de março e, por conseguinte, afirma saber o que ocorrerá em 10 de outubro.

O futuro não pertence a ninguém, senão ao acaso.

Ainda que sua crença pessoal seja contrária à minha afirmação, não deixe de ler O andar do bêbado. Mesmo que você acredite que o futuro já foi determinado, a obra te ajudará a olhar com mais clareza para suas possibilidades. Te incentivará a não desistir, vai te mostrar algumas curiosidades bacanas e, com sorte, vai te fazer se arrepender de não ter estudado mais física e matemática no segundo ano.

Mlodinow termina o livro sugerindo que a gente planeje a vida de olhos abertos, aceitando as probabilidades advindas das nossas escolhas. Fala dos ensinamentos que teve com a mãe, que escapou da morte em um campo de concentração por puro acaso, e que lhe ensinou a reconhecer como eventos aleatórios contribuem para o sucesso e fracasso de todos nós. Ele diz que

acima de tudo, [minha mãe] ensinou-me a apreciar a ausência do azar, a ausência de eventos que poderiam ter nos derrubado e a ausência de doenças, da guerra, da fome e dos acidentes que não – ou ainda não – nos acometeram”. (p. 232)

Se, para você, saber que as probabilidades nos deixam mais otimistas com o futuro que desconhecemos não causa interesse e curiosidade, melhor não ler um livro de física.

Mas, se estiver afoito/a para entender o presente, dar boas risadas e contemplar a existência com muito mais aceitação e conhecimento, comece pelo O andar do bêbado e siga em frente.

 

Se você acha que não veio parar aqui por acaso…

… talvez Mlodnow prove que você se enganou. ;p

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