Como ser levado a sério como escritor?

Sempre que preciso preencher algum formulário que tenha o campo “profissão”, a resposta é automática: jornalista. Sou jornalista. Mas existe um grande intervalo entre a minha formação universitária – Comunicação Social com ênfase em Jornalismo – e o que eu realmente faço para viver, que é escrever.

Por enquanto, a minha escrita é comercial; publicitária. Trabalho fazendo posts como esse para dezenas de blogs de pessoas e empresas. É juntando palavras, técnicas e pesquisa que pago minhas contas. Nas horas vagas, escrevo para mim, seja aqui no Literama ou no meu primeiro livro.

Tenho muita vontade de dizer, nos formulários, em uma mesa de bar, para o motorista do Uber, sempre que me perguntam qual é a minha profissão, que sou escritora. Acho que, se me perguntassem qual é meu sonho de momento, eu diria que é esse: preencher “escritora” como campo de trabalho.

Contudo, para que esse sonho se realize, tenho alguns obstáculos a superar. O primeiro é tirar de cena o preconceito que acompanha a palavra “escritor”.

Fui treinada a entender, pela sociedade, pelo mercado editorial, que um “escritor sério” é aquele que ganha dinheiro com sua escrita. Ninguém duvida que Paulo Coelho seja um escritor. Ou John Green. Ou Danielle Steel. Por outro lado, pessoas não-famosas que se intitulam escritoras podem parecer pedantes, justamente porque o diálogo é mais ou menos esse:

– Você faz o que?

– Sou escritora!

– Que legal! Tem livro seu na livraria?

– Ainda não.

– …

Se a impressão não for de pedantismo, certamente será de pena. É incrível como as pessoas ainda acham que um escritor que não foi escolhido por uma editora, que ainda não conseguiu ser publicado e estar em uma livraria convencional, é um fracassado.

Não que todos os escritores rumem para ser ricos e famosos; mas, por outro lado, não é só a fama e o dinheiro que ditam o quão bem-sucedido é um escritor. E eu aprendi isso com um dos melhores exemplares da espécie.

Com a palavra, o rei

Sempre que tenho uma chance cito o livro Sobre a Escrita, de Stephen King, obra que me ajudou a enxergar que o título de escritor cabe mais à percepção de quem escreve do que das pessoas que o cercam. Mesmo porque, verdade seja dita, geralmente é nos nossos círculos íntimos que a gente costuma sentir menos apoio.

E isso não é um “luxo” reservado apenas aos escritores: músicos, desenhistas, professores, dançarinos e detentores de profissões menos tradicionais são inquiridos da seguinte forma:

– Tá, eu entendi que você gosta disso. Mas o que você faz de verdade? Digo, pra ganhar dinheiro?

Foto: Amazon/Seth MacFarlane

 

Nossos familiares e amigos se preocupam com nossa situação em um mundo capitalista, em que o valor do trabalho é revertido exclusivamente em dinheiro, e comumente se esquecem que fazer arte, seja com uma palavra, um desenho, uma atuação ou um microscópio, vai bem além do que a gente ganha. É mais sobre o que a gente dá.

A parte específica de Sobre a Escrita que  me incentivou a começar meu caminho como agente ativa da literatura foi essa:

A escrita não é para fazer dinheiro, ficar famoso, transar ou fazer amigos. No fim das contas, a escrita é para enriquecer a vida daqueles que leem seu trabalho, e também para enriquecer sua vida. A escrita serve para despertar, melhorar e superar. Para ficar feliz, ok? Ficar feliz. Parte deste livro – talvez grande demais – trata de como aprendi a escrever. Outra parte considerável trata de como escrever melhor. O restante – talvez a melhor parte – é uma carta de autorização: você pode, você deve e, se tomar coragem para começar, você vai. Escrever é mágico, é a água da vida, como qualquer outra arte criativa. A água é de graça. Então beba.

Beba até ficar saciado”.

Quando li essas palavras, uma coisa estranha aconteceu. Foi como se Stephen King me desse, pessoalmente, a autorização para ser escritora. Como se, a partir daquele momento, eu pudesse dizer que sou escritora nos formulários, nas conversas de Uber e na mesa de bar.

Mas, antes que eu começasse – e, que fique claro, eu ainda não comecei – a dizer isso, havia algo pendente a fazer.

Faltava eu me levar a sério

Sempre quis escrever um livro, mas tinha apenas 30 páginas rabiscadas em nove anos de tentativas. Dediquei a maior parte do meu tempo para a não-ficção não-literária, ou, em outras palavras, a escrita que me dava dinheiro.

Embora o feedback dos clientes seja positivo, embora os colegas reconheçam o meu trabalho, não posso dizer que figuro, pela ótica do mercado, entre as pessoas bem-sucedidas do marketing digital. Não faço sete dígitos em sete dias, não tenho uma metodologia inovadora para gerar resultados imediatos, não sou convidada para o palco de grandes eventos.

Já tentei. Falhei miseravelmente. E, estranhamente, nunca me senti mal por isso. Lendo a transcrição de uma palestra de J.K. Rowling percebi algo que veio a calhar acerca dessa indiferença:

Se de fato tivesse obtido sucesso em outra coisa qualquer, talvez jamais encontrasse a determinação para vencer na única arena a que eu acreditava verdadeiramente pertencer”.

Quando eu finalmente abracei a literatura como a arena em que acredito pertencer, ou seja, quando eu levei a sério as minhas ambições, as coisas mudaram.

Comecei a treinar compulsivamente, escrevendo todos os dias para mim mesma. Dividi meu tempo entre redação publicitária e redação literária de forma mais justa. Comecei a rabiscar o Literama. Escrevi mais de 300 páginas do meu livro. Comecei a disponibilizá-lo gratuitamente no Wattpad. Iniciei um projeto de roteiro para história em quadrinhos.

Hoje, se você me perguntar se eu ganho dinheiro fazendo literatura, preciso ser honesta e dizer: não, não ganho. Mas trabalho como escritora de ficção, porque transformei o hobby, uma vontade, um sonho distante, em atividades diárias.

Para isso, me afastei da televisão, das redes sociais e das discussões que não me trazem retorno imaginativo. Passei a ler com ainda mais afinco, inclusive materiais fora da minha zona de preferência. Me aproximei de colegas escritores com muita humildade, de peito aberto, buscando absorver cada vez mais conhecimento e criatividade.

Em contrapartida, sempre que alguém me pede alguma dica, uma ajuda, uma leitura de manuscrito, eu – que não sou ninguém na fila do pão – presto atenção à demanda com o maior prazer. Espero que, a cada nova atitude, novo capítulo escrito e nova rodada de exposição dos mundos que invento ao público geral, eu me aproxime um pouquinho mais de poder me chamar de escritora.

Conforme o tempo passa aprendo que, para ser levada a sério como escritora, preciso me enxergar como um exemplar da espécie e trabalhar para que meu esforço se imortalize em páginas. Tudo o que vier disso – o apoio, a fama, o dinheiro, o reconhecimento das pessoas à palavra “escritora” ou a agridoce liberdade do anonimato – será apenas consequência.

Deixe um comentário

Assine a newsletter!

Deixe seu e-mail e você receberá o Literama em sua caixa de entrada!