Dica de leitura: Astrofísica para apressados

Você sabe o que é o irídio?

Se tiver estudado a Tabela Periódica na escola, sim, mas talvez não se lembre dele com frequência. Fique tranquilo: a pergunta será respondida na página 106 de Astrofísica para apressados, escrito pelo astrofísico-celebridade Neil deGrasse Tyson e publicado no Brasil pela Planeta. Espero, honestamente, que essa não tenha sido apenas uma feliz coincidência.

O irídio é uma das coisas que explica porque nossos quintais não estão lotados de T-Rex. Mas o livro não é sobre irídios. Essa é apenas uma pequena parte dele, com o perdão do trocadilho. Astrofísica para apressados é, na realidade, uma tentativa de desconstruir qualquer crença limitante que tenhamos sobre nosso planeta e os outros, da nossa galáxia e de outras, a partir da explicação didática sobre coisas banais do cotidiano. Tão banais quando a origem do mundo, os raios ultravioletas e, bem, o impacto do irídio nas nossas vidas.

Tão banais, e tão estupendamente incríveis, quanto a vida em si.

Astrofísica para apressados é uma leitura leve e prazerosa do início ao fim. Neil deGrasse é generoso com os amantes da literatura de ficção, especialmente quando cita James Joyce (para explicar o nome da expressão ‘quark’), Shakespeare (“E, portanto, como a um estranho dê as boas-vindas./ Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, / Do que é sonhado em sua filosofia”. [Hamlet, Ato 1, Cena 5]) e a Bíblia (desculpe, ato falho).

É preciso estar de bom humor para essa aventura, pois o astrofísico não poupa ninguém: até o nascimento do Sol é retratado como uma ocorrência banal em uma galáxia banal. Portanto, se você é adepto da expressão “você sabe com quem está falando?”, talvez esse livro não seja recomendado.

Neil faz questão de nos mostrar, com a ciência, que somos um amontoado de carbono com sentimentos. Quando coloco isso em mente, penso em duas coisas separadamente: a primeira é que, justamente por podermos raciocinar e saber que somos um amontoado de carbono, temos o privilégio – e o dever – de viver por esses sentimentos. Não é como se fôssemos muitíssimo especiais, mas, ao mesmo tempo, não é como se a gente não importasse. A vida humana importa.

E é aí que entra meu segundo pensamento: a vida humana importa quanto todas as outras formas de vida que existem nesse planeta ou fora dele.

Em Sob o mesmo céu, filme muito divertido com Emma Stone e Bradley Cooper, é explicado porque o céu não pertence a nenhum país. O espaço aéreo é sempre atribuído a alguma nacionalidade para voos comerciais e militares – espaço aéreo brasileiro, espaço aéreo norte-americano –, mas nenhum país pode colocar armas no céu para fins de desenvolvimento individual ou conquista de novos territórios por razões políticas.

Acredito no mesmo princípio para o chão da Terra: enquanto não entendermos que somos um amontoado de carbono com sentimentos e, apesar disso, somos  isso, e não tratarmos melhor o planeta em que vivemos e todas as suas formas de vida, não evoluiremos como conjunto.

Viveremos pensando – pelo menos os que refletem sobre isso – o quanto não somos dignos de estar por aqui. E, se Stephen Hawking estiver certo, o quanto nosso tempo como espécie deveria mesmo estar acabando.

Fantasmas existem

Me incomoda a discussão sobre a origem do mundo – criacionismo x big bang –por achar o questionamento muito vago para nossa espécie.

Por que discutir se um senhor respeitoso resolveu trabalhar um pouquinho por sete dias e inventar tudo isso ou se foi uma grande explosão que de fato gerou a vida na Terra? Ora, ter essa resposta seria ótimo, mas tem muito mais a se descobrir no lugar de onde essa resposta vai sair. Existe muito mais dentro desse questionamento que não sabemos – e que é muito mais interessante do que, simplesmente, colocar uma data e uma responsabilidade para quem nos colocou no mundo.

Como deGrasse afirma,

o que sabemos é que a matéria que aprendemos a amar no universo – aquilo que faz estrelas, planetas e vida – é apenas uma leve cobertura no bolo cósmico, boias modestas flutuando em um vasto oceano cósmico de algo que não se parece com nada”. (p. 71)

Tomando a metáfora e simplificando o exemplo, eu diria que a origem na vida da Terra se deu no dia 28 de janeiro de 1987. Você escolheria outra data. Nossos motivos também divergiriam. Tá, mas o que vem além disso? Além do começo? O que não nos contaram sobre tudo o que acontece debaixo do nosso nariz? Só conhece a verdade quem ousa olhar pra cima e decifrar as estrelas.

E, não, não estou falando de horóscopo.

Olhar pra cima e decifrar as estrelas é, como cita um episódio de Cosmos, apresentado pelo astrofísico, um exercício de ver fantasmas. O céu está tão repleto de passado, com mortes violentas e traumáticas para tantas galáxias, que faz difícil acreditar que alguém possa, de fato, prever o futuro apenas olhando pra cima.

O céu nos permite sonhar, é claro, mas prever… aí já são outros 500.

Mas, sobre os fantasmas, quando deGrasse explica a morte de uma estrela – a chamada supernova –, é difícil resistir à relação poética que se forma entre a morte da estrela e a morte de alguém que a gente ame. Ele diz que

Quando estrelas de grande massa produzem e acumulam ferro em seus núcleos elas estão se aproximando da morte. Sem uma fonte de energia fértil, a estrela desaba sob seu próprio peso e instantaneamente retorna em uma estupenda explosão de supernova, brilhando mais que 1 bilhão de sóis por mais de uma semana”. (p. 105)

Pode colocar aí a velhice, a doença, a crença de que era uma pessoa boa demais para esse mundo. Tudo vai caber. A diferença – ainda na licença poética – da morte da estrela do céu e a morte da estrela na Terra é a que as daqui brilham por muito mais tempo que uma semana depois que deixam de existir.

Esse tipo de relação me comove porque, como o autor lembra mais pro finzinho do livro, não é sempre que temos tempo de contemplar que fazemos parte de um universo gigantesco, tipo absurdamente grande, e que somos milhares de vezes menor que a menor célula de uma formiga quando colocados em perspectiva com todas as outras coisas que existem.

Mas somos, também, parte disso tudo que tá aí – e é por isso que, às vezes, resistimos a enxergar o que é maior que a gente.

Somos poeira de estrelas.

Por isso, e tão somente por isso, me parece urgente à nossa geração parar de temer a morte e, ao invés de imaginar o mundo maravilhoso que vem após ela, nos ocuparmos em viver, agora, de maneira mais significativa.

Por falar em significado, no oitavo capítulo de Astrofísica para apressados, chego ao oásis. Ele se chama “Sobre ser redondo” e deveria ser lido por todos, inclusive por aqueles que não se interessem por um livro de física. Ele tem poucas páginas – são apenas 10, e uma delas cita até um versículo bíblico, veja você – e desfaz com primazia essa moda ridícula que algumas pessoas estão tentando fazer voltar sobre a Terra ser plana.

Inclusive, é sempre bom lembrar aos terraplanistas, que acreditam que o conceito esférico do nosso planeta é uma invenção da NASA, que Copérnico e Galileu já tinham projetado essa ideia muito antes de a NASA nascer. Nesse caso, se alguém viajou do futuro para os séculos da “ciência artesanal” só para avisar aos cientistas sobre o conceito da Terra redonda, fazendo desse o maior publipost da história de uma empresa de iniciativa tecnológica, esse alguém, claramente, merece todo nosso respeito.

Teoria do amor

O tempo verbal da próxima frase vai depender de quando você lerá esse texto.

Estou escrevendo um romance sobre uma professora de física do Ensino Médio que é deixada pelo noivo semanas antes do casamento e precisa, com uma ajudinha dos amigos – e da ciência – ressignificar o amor, inclusive o próprio. Se você chegar a lê-lo, vai ver que, enquanto as águas rolam por debaixo dessa ponte, a física é um coadjuvante de peso. Minha personagem principal tem tudo: inteligência, precisão, movimentos calculados. E, mesmo assim, não está no controle.

Me divirto muito escrevendo e espero que você possa se divertir lendo.

Por que escolhi que a protagonista do meu primeiro romance fosse uma professora de física? Uma das razões, das quais já falei no texto sobre O andar do bêbado, é porque a física tem senso de humor. Neil nos dá uma amostra dessa realidade quando cita um dos maiores físicos que já pisou nesse planeta:

(…) ao tomar conhecimento de um livro de 1931 intitulado One hundred authors against Einstein, ele respondeu dizendo que, se estivesse errado, apenas um deles bastaria”. (p. 83)

Outra razão pela qual eu escolhi a física como pano de fundo do meu primeiro romance é sua capacidade em nos explicar o que ocorre por aí, sem enrolação. De todas as matérias que a gente estuda na escola, a física era uma das que mais me derrubava, mas era, também, uma das que mais me trazia a segurança de ser verdade. As leis da física funcionam. Só não sabe disso quem teve preguiça de estudá-las, ou não conseguiu, de fato, compreendê-las.

Portanto, agradeço a todos que tentam me explicar suas versões dos fatos com as mais variadas narrativas milagrosas, mas eu fico com a física. Se a gente se esforçar só um pouquinho conseguirá entender o que ela está nos falando através de estudos milenares, que não dependeram de – ou resistiram a – governos, cleros e pessoas ignorantes que tentam se provar inteligentes.

Resumindo a ópera, se eu fosse me sentar em um banco de cursinho ou sala de universidade para entender física, é grande a probabilidade de transformar essa experiência em fiasco. Há coisas que seguirei não entendendo e não sabendo calcular, talvez por não me esforçar o suficiente, talvez por estarem, de fato, além do meu repertório básico para a geração do entendimento.

É por isso que sou tão grata a pessoas como Neil DeGrasse Tyson, autor de Astrofísica para apressados, assim como sou a Carl Sagan, cujos livros ainda pretendo resenhar um por um por aqui, e Bill Nye, que tem um programa muito divertido sobre ciências na Netflix. Eles falam comigo de igual para igual. Eles me dizem que eu posso escrever uma professora de física incrível – ou, melhor, crível – sem precisar, para isso, ser uma física.

Em outras palavras, homens e mulheres como eles transformam, em tempo real, meu universo em multiverso, pois posso inventar várias vidas a partir de conhecimentos que não me competem. Posso zelar pelas minhas criações e fazê-las importantes para, quem sabe, outra pessoa que não seja eu.

Astrofísica para sonhadores

Contemplar as estrelas tem um preço – e deGrasse sabe disso quando afirma que só quem tem o luxo do tempo não destinado à simples sobrevivência consegue ver beleza no que existe do lado de fora do planeta. Sabe, também, que as pessoas são suscetíveis a acreditar em algo – um deus, talvez? – sempre alerta, cuidando do universo.

Astrofísica para apressados não quer destruir religiões ou botar abaixo a fé de um sujeito; só quer ter certeza de que a pessoa pelo menos acredite que essa força poderosa é criativa, e não apenas no sentido da arte, mas, também, e principalmente, no da ciência.

Então, por que ler coisas como essas? Por que estudar física e outros tipos de ciência? A resposta, para mim, vem no finzinho do livro, em uma frase muito simples e tocante (desculpe o spoiler):

A perspectiva cósmica nos lembra que no espaço, onde não há ar, uma bandeira não tremula – um indício de que talvez agitar bandeiras e explorar o espaço não combinem”. (p. 178)

Em afirmações como essa entendemos que o espaço pertence a todos nós, que somos parte integrante desse conjunto e não podemos ser vendidos separadamente. Os apaixonados olham para as estrelas com romantismo; os crentes, como a expressão de suas divindades. Os marinheiros olham o céu como resposta, os saudosos com esperança de que, um dia, estarão vagando com seus entes queridos pelos caminhos da Via Láctea.

Tudo isso, em tese, é verdade. Como o céu não é de ninguém, não podem haver regras para sua interpretação.

Por mais que meu senso de ironia me traia, e o ceticismo de meus personagens me comprove, a física não serve, e jamais servirá, para destruir a fé das pessoas. Ela pretende, apenas, ser uma possibilidade em nossas vidas. Algo para nos salvar do medo quando achamos não saber as respostas, porque, de algum modo, sabemos as respostas. Mas de que valem, mesmo, as respostas?

A física está aí para nos explicar verdades ocultas e nos manter curiosos, procurando sempre a próxima pergunta que fará, para nós, algum sentido.

Somos amontoados de carbonos com sentimentos – e essa resposta já me parece suficiente para seguirmos tirando o melhor proveito que nosso curto espaço de tempo nessa galáxia pode nos dar.

Mais, muito mais do que uma aula de física, Astrofísica para apressados é um livro de contemplação da nossa pequenez e, ainda assim, do entusiasmo de saber que podemos fazer grandes coisas nesse “pálido ponto azul” em que vivemos, do jeitinho que Sagan nos ensinou.

Foto tirada pela sonda Voyager 1 em 14 de fevereiro de 1990, que mostra a Terra em um raio de sol

 

Serião, compra esse livro ~nesse minuto~

E faça isso pelo link abaixo para ajudar o Literama a ganhar um dinheirinho e conseguir comprar um bottom da Planetary Society.

Deixe um comentário

Assine a newsletter!

Deixe seu e-mail e você receberá o Literama em sua caixa de entrada!