Dica de leitura: Conquistando o Inimigo

Sou uma mulher branca. Tenho cabelos cacheados que, durante a infância, ganharam a pecha de “pixaim”. Cabelo ruim. “Loira do cabelo Bombril”. Naquela época essas manifestações não tinham um “nome científico”, mas agora tem não só isso como, também, uma causa e efeito: é bullying de gente racista e idiota (com o perdão da redundância) que queria me afetar pela simplicidade da ofensa: seu cabelo é “igual de preto”.

É difícil tirar conclusões sobre uma menina de 9 anos, nos anos 1990, ouvindo essas coisas. O que ela faria, poderia ou o que gostaria de fazer para mudar essa história? Mas a mulher de 32 que redige esse texto se sente tão embaraçada quanto seus fios finos e abundantemente crespos. A mulher de 32 sente vergonha e não só de ter ouvido coisas como essas calada mas, também, e principalmente, por ser branca. De fazer parte de um grupo de extermínio que, se não matou pessoas com armas e facões (mas matou, e continua matando) o faz, diariamente, com a falta de respeito e de inteligência.

Sim, de inteligência.

O racismo não é só questão de mau-caratismo; é, também, de burrice. Não, não ignorância de “não sei, não sabia e não saberei como lidar”, de burrice, mesmo. Asneira. De seres humanos que, embora com aparência hominídea, andando com dois pés e mexendo duas mãos, rosto com dois olhos, duas orelhas, um nariz e uma boca, sem pelos (a menos que assim decida), não evoluiu muito o cérebro e a consciência.

Conquistando o Inimigo é um livro que narra a virada de jogo – no sentido literal da palavra – de Nelson Mandela para dar fim ao apartheid racial na África do Sul. Senão para destruir toda a burrice da qual falei ali em cima, pelo menos para fazer com que os brancos finalmente enxergassem a sua não-superioridade e tratassem os negros com a civilidade que lhes é, obviamente, de direito. É uma espécie de conto de fadas em que Nelson, depois de 27 anos preso, se torna um grande líder, conquista o posto de presidente do país e usa o rúgbi, esporte mais popular entre os brancos sul-africanos, para fazer uma ligação entre brancos e negros e selar a paz de maneira definitiva.

Mais do que contar a história da Copa do Mundo de Rúgbi, em si, o livro de John Carlin nos mostra exemplos clássicos da falta de aptidão branca para o óbvio. Um deles me chocou bastante e mostrou que eu sabia muito menos sobre o apartheid do que eu deveria, pois, como cidadã do mundo, é meu dever não deixar isso se repetir nunca mais.

A passagem conta que, durante o apartheid, as pessoas podiam pleitear “mudar de raça” para se casar com alguém da mesma casta ou, simplesmente, ser menos tratadas como páreas. É triste pensar que isso possa ter existido, ainda mais em um reino de privilégios brancos e tropicais como o meu, mas existiu – e os fins não justificariam os meios em nenhum momento da história do universo. O pior (se é que existe), vem em seguida: para definir quem poderia, de fato, mudar de raça, era feito o teste do lápis:

O teste do lápis era a forma mais cientificamente confiável de se dirimir a dúvida. Um lápis era enfiado no cabelo da pessoa: quanto mais preso à textura natural do cabelo ele ficasse, mais escura era a classificação”. (p. 108)

Esse é um retrato que faz a leitura de Conquistando o Inimigo ser pungente e urgente, principalmente para os brancos que me leem, para que possamos entender e passar para frente, de uma vez por todas, que as causas negras não são “mimimi de gente desocupada”, que “cotas são formas novas de preconceito” ou qualquer outra coisa do gênero, que mede o sofrimento alheio pela nossa régua.

Estou disposta a combater o racismo com a seguinte pergunta: “você sabe o que é o teste do lápis?”. Quem souber vai pensar duas vezes antes de falar merda, mesmo porque são coisas como essa que mostram que o racismo é pura e simples falta de inteligência, de pensamento lógico. Tudo o que o homem branco não quer é se passar por burro.

Do esporte…

Conquistando o Inimigo é uma semi-biografia de Mandela que versa sobre sua corrida presidencial, o alcance do posto e a conquista da Copa do Mundo de Rúgbi – evento que, finalmente, daria como terminado o capítulo de apartheid sul-africano. O líder dizia que “o esporte tem o poder de mudar o mundo, inspirar e unir pessoas que tem pouco em comum”, e eu concordo.

Gosto muito de futebol (confesso que já gostei mais), mas estou longe dos campos de futebol há tempos. Contudo, entendo o que ele diz sobre a junção de pessoas diferentes. Nas minhas experiências em estádios, foram raras as vezes em que senti que a torcida de um tipo não era feita de iguais durante os 90 minutos de jogo. Enxergo a torcida como uma comunidade de iguais lutando contra um adversário em comum que, naquele momento, é apenas um outro time. Não é uma doença, uma situação econômica, uma disputa entre partidos ou um conflito racial. No estádio, no momento do gol decisivo, o pobre abraça o rico, o preto abraça o branco, coxinhas e mortadelas se preparam para o banquete. Não há polarização política que separe as pessoas dentro de um estádio.

O esporte emociona e acolhe, pelo menos ali, dentro daquela comunidade de iguais (como essa comunidade trata outra comunidade é outra história, só estou usando a torcida para tecer o exemplo). E, no nosso país, a maioria dos heróis nacionais das Copas do Mundo é negra. Além de Pelé, só para citar os que eu vi jogar: Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Cafu, Neymar. Zico, Kaká, Leonardo, Diego, Branco e tantos outros estão, também, no panteão de heróis do futebol, mas nunca são lembrados em primeiro lugar.

O maior de todos, de todos os tempos, é negro.

Na África do Sul, a situação era completamente inversa: o Springboks, time nacional de rúgbi, era composto por brancos. A equipe era tudo o que os negros odiavam, a ponto de torcerem para qualquer outro país que disputasse rúgbi com o time da casa. Por isso, parece impossível que Mandela tenha usado o rúgbi para unir a África do Sul e dar uma lição ao mundo sobre o racismo, mas foi exatamente isso o que ele fez.

Contudo, ele não fez isso do nada, como uma boa ideia que surge quando a pessoa está no banho e diz “ok, vamos fazer isso”. Mandela soube observar sua audiência, o efeito que causava sobre ela e o que o país precisava que ele fizesse, tanto em termos práticos de liderança política quanto como o mártir de sua causa. Em Conquistando o Inimigo vemos que, para conseguir sucesso no intento, as duas frentes de Mandela – o negro e o presidente – precisavam estar em perfeito equilíbrio.

Mas, ei, estamos falando de Nelson Mandela. Depois de ler a história inteira, tendo a crer que qualquer outra pessoa teria se dado mal ao tentar.

… à política

Sediar a Copa do Mundo de Rúgbi em uma nação dividida pelo ódio entre raças não era tarefa fácil. Exigiria, além da boa vontade dos envolvidos, boa compreensão do que é a política.

John Carlin nos fala que

A política é a arte de persuadir as pessoas, de conquistá-las. Todos os políticos são sedutores profissionais. Eles fazem da adulação um modo de ganhar a vida. E, se forem espertos e bons nisso, se tiverem o talento para tocar o coração do povo, serão bem sucedidos”. (p. 14)

Mandela era isso e sabia como controlar suas pulsões para ser cada vez maior. Um político, para se tornar um líder, precisa compreender seus poderes de persuasão e conquista e usá-los a seu favor, conquistando a massa, e não apenas parcelas dela.

A polarização, portanto, não é a saída para a boa política; ela só torna as coisas mais complicadas. Saindo um pouco da curva, mas a título de reflexão, a leitura de Conquistando o Inimigo dá quase um grande spoiler do que o Brasil pode se tornar daqui a alguns anos se não voltar rapidamente para os trilhos.

Por falar nisso, você acha que existe polarização na sua família por causa de um grupo de WhatsApp? Se liga nessa história:

Ninguém personificava melhor o racha entre os brancos sul-africanos que os gêmeos Viljoen. A história de Braam e Constand Viljoen não é igual à de Caim e Abel nem à do Filho Pródigo, mas apresenta elementos das duas. Impossíveis de distinguir fisicamente, os irmãos seguiram caminhos radicalmente diferentes no final da adolescência e por quase 40 anos não se falaram. Quando por fim se reaproximaram, o destino deu uma mãozinha. Se os irmãos não tivessem feito as pazes, a África do Sul teria entrado em guerra”. (p. 106)

Isso não é figurativo, é literal. Mas não vou dar spoilers. O desenrolar dos irmãos Viljoen é uma das melhores coisas que leremos nesse conto de fadas protagonizado por Mandela.

Nelson ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1993, mas poderia ter ganhado por vários anos. Ele fez por merecer a aura de idoneidade e sabedoria de sua carreira política. Era

Destemido, perspicaz e gostava de ficar bem próximo do povo. Passou muitos anos na prisão e, talvez, a necessidade de aproximação fosse um contraponto ao seu total isolamento por quase 30 anos.

Era um homem que sabia que o seu lugar era no topo e, para isso, media com calma o teor de todas as suas ações. Quando houve uma oportunidade de sair da prisão, se recusou dizendo que “não vou assumir nenhum compromisso enquanto eu e vocês, o povo, não estivermos livres. A sua liberdade e a minha não podem ser separadas”.

É preciso ter nervos de aço e comprometimento profundo à causa para pensar nos outros para além de si mesmo.

Enfim, Conquistando o Inimigo é uma leitura para entender a África do Sul durante e pós-apartheid, é claro, mas não nos deixa no escuro ao criar a narrativa que nos faz refletir sobre qualquer outra situação política, de maneira geral. O livro pinta o líder, o homem e o mito, personas que se misturam à procura do bem comum, e mostra que, porventura, a tríade de pessoas em uma pode alcançar o que almeja.

É um livro para ver e aceitar o papel dos brancos e das brancas em uma sociedade fundada pelas vozes, religiões e cores da África. Para que entendamos que a diferença da pele é natural e que ir contra a natureza das coisas deveria ser nada menos do que constrangedor. Sendo assim, o racista é um inapto a tomar decisões inteligentes.

A obra de John Carlin nos enche de esperança de que, se algo tão bom quanto os resultados da Copa do Mundo de Rúgbi aconteceu no mundo real, e não na ficção, esse tipo de coisa pode acontecer de novo. Só nos resta fazer nosso papel e torcer sempre, e a cada dia mais, por novas sucessões de bons eventos para toda a humanidade.

 

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2 Comentários
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    Lari Reis at 8 de maio de 2019 Responder

    Amei a resenha e o livro já está em minha lista de leitura!

    Quando você escreveu “estamos falando de Nelson Mandela. Depois de ler a história inteira, tendo a crer que qualquer outra pessoa teria se dado mal ao tentar” eu tinha, literalmente, acabado de pensar nisso.

    1. avatar image
      Lais Menini at 18 de junho de 2019 Responder

      O livro mostra muito como e porquê ele conseguiu o que conseguiu… o cara era de fato diferenciado! Serve de exemplo pra sempre. 🙂

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