Dica de leitura: Garota Exemplar

Leio para me surpreender. Claro, algumas histórias leio já sabendo o final. O Mágico de Oz, por exemplo, é uma dessas leituras que tento sempre fazer, mesmo já sabendo o final. Mas, se você leu meu texto sobre o livro, já sabe que, ainda assim, sempre me surpreendo com o que descubro, a cada nova leitura da mesma história, antes de o final chegar.

Não repito muitos livros – isso é raro –, mesmo porque, se escolho o livro certo, tenho esse elemento surpresa à mão já na primeira tentativa. Essa expectativa me levou a colocar Garota Exemplar na lista de desejados e, falo com tranquilidade, não fui desapontada quando chegou a vez desse livro.

Leio para me surpreender, e Gillian Flynn conseguiu fazer exatamente isso em 443 páginas. Me surpreendi do início ao fim. Fiquei plugada no 220 o tempo todo, devorando as páginas, ávida para saber o final. Embora tenha quatro ou cinco ideias sobre como ele poderia ser, achei a escolha da autora excelente.

O filme também é muito bom.

Se você ainda não leu o livro, aqui está a dica sem spoilers

Garota Exemplar é a história do sumiço de Amy Dunne no dia de seu aniversário de casamento. Como em todos os casos de esposa e/ou marido que some, a primeira pessoa que os policiais tentam enquadrar como principal suspeito, ou inocentar de vez, é o cônjuge. Na obra, não foi diferente: quem reporta o sumiço de Amy é o marido, Nick.

E a polícia da pequena cidade onde moram começa a desconfiar que ele tenha mais a ver com esse sumiço do que mostra.

Na narrativa, enquanto Nick transita entre a passiva-agressividade de sua própria personalidade, deixando o/a leitor/a confuso/a sobre sua inocência ou culpa, Gillian nos mostra trechos do diário de Amy, que, para todos os efeitos, é mesmo – e literalmente – uma garota exemplar. Antes do sumiço ela registrou o primeiro encontro, o namoro e o casamento com Nick.

Todos os detalhes estão lá. E a gente ainda fica na dúvida se o marido é inocente ou culpado.

Isso é ótimo, pois a primeira parte do livro nos prepara, ou, pelo menos, tenta, para o que vem a seguir. Ao se embrenhar pelos trechos do diário de Amy, e toda a confusão que Nick faz enquanto se torna o principal suspeito do que a polícia começa a tratar como um assassinato, lembre-se do que dizia Gregory House (se você não viu a série House, está na hora, hein?): todo mundo mente.

A questão é saber até onde cada parte do casal está mentindo – e até que ponto estão dispostos a ir para sustentar essa escolha.

Pode acreditar: são quase 500 páginas que você vai ler muito rápido, pois o livro quase não te dá fôlego. As coisas mudam o tempo todo, coisas surpreendentes acontecem e, em determinada parte da trajetória, você não vai conseguir decidir de que lado está. Isso eu te garanto.

Se não leu Garota Exemplar ainda, é isso o que tenho a te oferecer. Saia desse post, arranje o livro e prepare-se para não ter vida social pelos próximos quatro dias.

O que vem a seguir é só spoiler.

Se você leu Garota Exemplar, eis meus insights

Impossível fechar o livro e, realmente, escolher um lado. Pelo menos pra mim. Digo, o que Amy fez, incluindo o assassinato de Desi, não deixa dúvidas de que estamos lidando com uma mente psicopata. Não tento, por nenhum minuto, defender o que ela fez.

Mas não podemos passar a mão na cabeça de Nick como se ele não tivesse culpa de nada. Ora, se por um lado estamos lidando com uma psicopata, por outro temos o alicerce perfeito para que a psicose atinja seu ponto ideal (se Cinthia chegar a ler esse texto, ela certamente irá ver meu erro aqui. Mas não sou psicóloga, apenas leitora, então vamos fingir que está tudo certo).

Temos uma mulher que faz tudo o que pode para continuar sempre em evidência, ser a mais importante – atitude, inclusive, incentivada pelos pais malucos, que escancaram a persona da filha ideal em best-sellers infantojuvenis – e um homem que está disposto a validar esse comportamento, não importa o que aconteça.

Nick sabe que Amy fez tudo o que fez para atingi-lo, e que o grand finale da esposa foi fingir sequestro e matar um homem (talvez o único que tenha realmente desenvolvido a obsessão que Amy tentou imprimir aos colegas/amigos/amores que não a queriam mais), e resolve ficar com ela.

Por que? Porque ela está grávida. De um filho que realmente era dele, mas que ele não fez. Novamente, por que? Para que a criança não crescesse com um pai tão ausente quanto o dele.

E que, por mais babaca que tenha sido durante toda a vida, foi o único que conseguiu ler Amy em sua verdadeira essência. Ou seja: para Nick, o homem que sempre errou não teria como acertar dessa vez. A velha história de Pedrinho e o lobo: não se pode contar mentiras porque, quando for verdade, ninguém vai acreditar.

Quando comecei a ler a parte em que Amy trama a vingança porque descobre que Nick a traiu, achei um exagero alarmante. Que mulher faz tudo isso para se vingar do marido?, pensei. Ainda bem que Gillian Flynn nos retrata uma psicopata, uma maluca. E Nick, por mais banana que possa parecer às vezes, é outro maluco à sua moda.

Acho que, no fim das contas, fico do lado de Margot: a pessoa que assiste ao show de horrores sem poder tomar atitude porque os protagonistas simplesmente amam aquele show. Quando terminei de ler, foi a angústia dela, da irmã, que me consumiu.

Fiquei vários dias pensando sobre como somos a Margot, olhando à nossa volta relacionamentos tóxicos e/ou fadados ao fracasso, sem poder mover uma palha para consertar a situação.

Garota exemplar: livro x filme

No mesmo dia em que terminei de ler Garota Exemplar, vi o filme. Muito bom, divertido, nos deixa tão acesos quanto o livro. Assisti ao lado de duas pessoas que não tinham lido e elas se divertiram bastante.

Mas, como ocorre na maioria das vezes, o filme, obviamente, suprime muito da narrativa. É um filme excelente, mas ler a relação de Amy e Nick é ainda mais divertido que vê-la na tela. Ainda que Gillian Flynn tenha adaptado sua história ao roteiro, senti que faltaram partes essenciais para que o espectador conseguisse ficar tão embasbacado com o final quanto o leitor.

Porque, no filme, fica claro que Amy é mais desequilibrada do que Nick, e, como você pode ver pela minha opinião final, daria a essa competição de loucura um belo selo de empate.

Portanto, leia o livro, veja o filme e deleite-se. Juntos, eles vão te surpreender.

E para que a gente lê, afinal, senão para ser surpreendido?

 

Mana(o), sério!

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