Dica de leitura: Os Crimes ABC

Aos 25 anos, me considerava uma escritora frustrada, que nunca escreveu nenhum livro simplesmente por achar que todo mundo já roubou minhas boas ideias de histórias – e as escreveu até mesmo antes de eu nascer. A coisa mudou um pouco de figura quando, finalmente, entendi que tudo o que precisa ser dito já foi dito, mas isso não significa que minhas ideias não possam ser apreciadas.

Contudo, no auge dos vinte e poucos, resolvi mudar a realidade e sentir que ainda poderia escrever algo que presta fazendo o que faço de melhor: lendo. Minha inspiração para a retomada da esperança literária em mim mesma foi Agatha Christie, a rainha do crime.

Até então, nunca tinha lido nenhum livro dela. Meu namorado na época, hoje marido, sugeriu que pegasse Os Crimes ABC. Segundo ele, a história iria me lembrar de Dexter, uma série da qual já gostei muito.

“Os Crimes ABC” é uma obra curta, com pouco mais de 200 páginas, publicado em 1936. Christie nos apresenta a um assassino que, antes de matar suas vítimas, manda cartas provocadoras a Hercule Poirot, aclamado detetive das obras da autora. Em cada aventura, Poirot consegue desvendar crimes com um senso lógico que faria Philip Emeagwali, dono do maior QI do mundo, ficar um pouco desconcertado.

Na obra em questão, cada assassinato traz como pista um guia inglês de trens, chamado ABC. A pista que o assassino dá ao detetive é que cada vítima está em uma cidade diferente, sendo que o primeiro nome de cada pessoa tem a mesma inicial do município onde foi morta. É a partir dessa migalha de pão que Poirot consegue montar as peças de um quebra-cabeças envolvente, em uma leitura que a gente não consegue largar até que saiba quem é o criminoso da vez.

O desfecho é surpreendente, mas a diversão começa bem antes do fim, em uma narrativa de suspense com pitadas de humor e sarcasmo que envolvem até o leitor mais cético. Simples, mas não simplório, a literatura de Christie chega a ser até didática, como se o livro fosse feito para adolescentes.

Ao longo de sua trajetória como autora, Agatha escreveu mais de oitenta obras de suspense policial. Ainda que a escritora britânica tenha falecido em 1976, as tiradas de seus personagens continuam atuais, quase cem anos após sua criação. De acordo com registros literários, Christie só não vendeu mais livros pelo mundo do que Shakespeare ou a Bíblia. You go, girl.

No fim das contas, Os Crimes ABC é um livro que serviu para me mostrar que ainda existem boas ideias a serem exploradas, mesmo em temas exaustivamente trabalhados (serial killer só não está mais batido do que o vampiro, nos dias de hoje). Também me abriu os olhos para a realidade: algumas mulheres comuns se tornam grandes mulheres quando escrevem bons livros.

Quisera eu que todos os meus contemporâneos tivessem lido Christie antes de achar que valia a pena escrever alguma coisa. O mundo teria sido um lugar melhor com a doce, e sempre enigmática, reflexão que nos traz os crimes desvendados por seu icônico detetive.

Sim, prepare-se para uma lição de vida – ou de moral – a cada obra christiana concluída. Entre os aprendizados dela, de Shakespeare ou da Bíblia, vocês devem imaginar com qual eu fico.

 

Vida longa à rainha do crime!

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