Como funciona o Jogo do Contente?

Breve análise de Poliana, de Eleanor H. Porter

Poliana é uma obra clássica da infância/adolescência. Pergunte à sua mãe, talvez até à sua avó, e elas podem confirmar a leitura dessa obra de Eleanor H. Porter em algum momento da vida. Publicado pela primeira vez em 1913, Poliana é a história da protagonista que consegue ver um lado bom em tudo o que acontece… até que um obstáculo pessoal desafie seu Jogo do Contente.

Mas, afinal, o que é esse tal de Jogo do Contente?

Segundo Poliana, o Jogo do Contente foi inventado por seu falecido pai para que ela encontrasse diariamente motivos para sorrir. Uma das raras exceções, para a menina, é um funeral – já que “não há nada em um funeral que possa deixar alguém contente”. Com esse pensamento ela enfrenta as dificuldades da vida e provoca os adultos a seguir pelo mesmo caminho, sem nutrir mágoas ou tristezas profundas.

É quando vai morar com Tia Polly, em uma cidade desconhecida, que Poliana acaba tocando toda a comunidade com seu otimismo e boa perspectiva sobre a vida. Aparentemente, não há tempo ruim para a menina, que joga o Jogo do Contente em todas as ocasiões em que ele se faz necessário.

O quarto dela é muito escuro, muito isolado? Taí uma chamada para a aventura.

Tia Polly está mal humorada? Um novo pôr do sol a fará sorrir.

E assim por diante.

É quando ela conquista a todos com essa forma de pensar que algo drástico ocorre – mais do que a morte dos pais, mais do que ter de viver com uma tia que não gosta muito dela. Aí, é a vez da comunidade jogar, por ela e para ela, o jogo do contente.

Respirar não é viver

Poliana toma para si a missão não declarada de ajudar Tia Polly a se livrar das mágoas do passado e se entender como uma mulher jovem, bonita e com um futuro lindo pela frente.

Tia Polly, por sua vez, tem inúmeras restrições sobre a menina. Não é sobre o custo de criá-la (dinheiro não é problema), nem sobre a criança ser uma garota-problema, o que não é o caso. Ela apenas nunca quis ter filhos e não se conforma que a “irmã idiota” tenha morrido e deixado essa incumbência para ela.

O passado de Tia Polly é repleto de falhas de comunicação, inclusive com a própria irmã, amores não correspondidos e frustrações diversas. Quando Poliana chega, fazendo esforço para mudar essa realidade, a mulher não se sente confortável. Se afasta. 

Uma das abordagens mais interessantes do livro é mostrar que os adultos pouco têm a ensinar para as crianças sobre a vida; se algo assim acontece, são as crianças que acabam por educar os adultos. É com a sutileza de seus atos inocentes, e suas palavras boas, que Poliana fura o coração de pedra da tia e abre seus olhos para a própria existência.

Um dos meus trechos preferidos da obra é uma “bronca” que Poliana dá em Tia Polly durante a reprimenda de um jogo do contente:

“Eu falo de viver, de fazer as coisas que lhe dão vontade: brincar ao ar livre, ler (para mim mesma, é claro), escalar colinas, conversar com o senhor Tom no jardim, e com a Nancy, e descobrir tudo sobre as casas e as pessoas e todas as coisas e lugares das ruas maravilhosas pelas quais passei ontem. É isso que eu chamo de viver, tia Polly. Respirar apenas não é viver!”. 

E é bem verdade, né? Respirar não é viver. Viver é fazer aquilo que a gente gosta, é ter um dia bom, é falar com quem a gente ama e tudo o mais. Alguns momentos não serão tão bons – e essa realidade chega até para a contente protagonista -, mas até eles podem se tornar fonte de pura vida, se soubermos olhá-los por esse viés.

Com que frequência você joga o jogo do contente?

Essa é a grande reflexão da obra de Eleanor H. Porter. Ela diverte, emociona, sensibiliza a gente, mas, quando o livro é fechado, essa pergunta fica martelando por um tempo: eu jogo o Jogo do Contente demais? Jogo de menos?

Não cabe a mim problematizar o excesso de otimismo da protagonista, que gerou ao longo dos anos a expressão “você é muito Poliana” no sentido de ser inocente demais e não ver as coisas em sua realidade. Não acho que o livro Poliana seja só sobre Poliana; vejo a obra como um esforço coletivo para a vida em comunidade e o entendimento dos limites de cada um.

Poliana é “apenas” a facilitadora de experiências que guiam esse processo de enxergar além e procurar o lado bom. E não é isso que a gente tenta fazer, dia após dia?

Para mim, a resposta à pergunta que o livro traz é o equilíbrio. Se a gente faz o jogo do contente demais, com exceções quase imperceptíveis, uma frustração se potencializa, uma tragédia pesa muito fundo, como aconteceu com a menina-título.

Se o Jogo do Contente não faz parte da nossa vida de nenhuma forma, se abraçamos o pessimismo com a desculpa de que estamos sendo realistas, não só nos veremos como “profetas do acontecido” como não saberemos aproveitar os momentos de alegria e viver os momentos de dor como eles merecem.

O jogo do contente pode ser um hábito desenvolvido aos poucos, nas pequenas coisas. Precisamos mais do que nunca desses pequenos prazeres e alegrias, já que a condição atual do mundo cerceou muito das nossas liberdades.

Ter que ficar em casa na pandemia, por exemplo, pode ser visto como uma oportunidade diária de melhorar o lugar onde você vive. Gostar desse lugar, apesar das circunstâncias, é jogar o jogo do contente. Acreditar que vamos sair dessa como pessoas melhores é jogar o jogo do contente. 

E esperançar, diferentemente de “só” ter esperança, não faz mal algum, né?

Antes de sair…

me conte aqui se você já leu Poliana ou se ainda está atrasada nessa leitura clássica (se for o caso, compre aqui o livro e comece agora!). Siga o Literama no Instagram para outros papos literários e deixe nos comentários suas dicas para otimizar o jogo do contente. 

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