Reflexões e livros sobre terrorismo

Acordei buscando materiais sobre o 11 de setembro. O assunto me é caro, minha monografia foi sobre ele e acredito que fazer reflexões e ler livros sobre terrorismo é uma forma de entender mais sobre o que se deve combater. De tabela, encontrei o filme 22 de Julho, dirigido por Paul Greengrass, diretor de Voo United 93.

22 de julho narra o atentado ocorrido nesse dia, em 2011, na Noruega. O extremista Anders Breivik comandou a explosão de uma van perto a um prédio do governo, liderado à época pelo Partido Trabalhista. Na sequência, abriu fogo na ilha de Utoya, onde centenas de adolescentes faziam um acampamento político.

Embora bem interessante, não vim falar do filme, disponível na Netflix, e sim da sensação que ele me gerou. Infelizmente, tive a impressão de que o Brasil está nutrindo motivos que endossam a intolerância desse ato.

A violência, com a qual convivemos desde que os portugueses pisaram aqui, é um problema sistêmico que deve ser combatido. Aliás, o tema “violência” cai, inexoravelmente, no tema “políticas públicas”. É preciso rever todo o sistema carcerário, para que possa recuperar detentos de fato e por direito, e cuidar das polícias, valorizando-as como se deve, inclusive financeiramente.

Pelas razões mais desumanas possíveis, violência é um assunto muito familiar aos brasileiros. Mas há uma linha que separa o pavor da violência cotidiana do terrorismo. Atravessá-la é o que me preocupa.

Diferenças entre violência e terrorismo

A violência cotidiana, as injustiças, massacres como a chacina da Candelária, a Boate Kiss, Mariana e Brumadinho, os 80 tiros em um carro, o menino João Hélio, a menina Ágatha e uma vereadora executada são apenas alguns exemplos da violência que assola nossa alma cidadã todos os dias. Crimes das mais variadas naturezas nos deixam perplexos e chocados (ou, pelo menos, deveriam) pelo desapreço de tais atos pela vida. 

Fato. 

Mas, através desses acontecimentos, que nos geram horror profundo (ou, pelo menos, deveriam), cresce na população (ou, pelo menos, deveria) a ânsia por valores sociais. Questões como justiça, união, solidariedade e consciência de classe vêm na esteira de cada acontecimento fatídico. Nunca esperamos que aconteçam, claro, mas, como sociedade, não perdemos a coragem de nos indignar diante de dolorosos fatos.

Assim, no meu leigo entender, a partir dos livros sobre terrorismo que já consultei, a violência cotidiana, que pode e deve ser combatida, não cessa de renovar na gente o senso de indignação. Gosto de pensar que é esse bolo na garganta que nos livra da completa barbárie. Que, enquanto tivermos esperança, nas instituições ou uns nos outros, há futuro a vislumbrar.

O terrorismo, por sua vez, não cabe no status de tragédia. Não é um crime qualquer: é uma ameaça política, uma intimidação da sociedade. Seu principal objetivo é, como o nome diz, instaurar o pânico generalizado. Como? Através de atos capazes de trazer à luz a fragilidade dos bons frente ao extermínio de seus pares. 

Portanto, quando uma cidade, comunidade, país, continente ou planeta sofre um atentado terrorista, não há espaço para esperança. É quase impossível percebê-lo à distância, e não há muito a fazer quando o bafo do terror já sopra nosso cangote.

Refletir sobre terrorismo? Melhor fazer isso agora

Na Noruega, por exemplo, é tão absurdo que alguém tenha uma arma e possa atirar nos outros que, como vemos no filme 22 de julho, os adolescentes ficam meio perdidos quando os colegas os alertam para correr. “Tem alguém atirando!”, eles dizem, e muitos jovens não entendem. Acham que é brincadeira ou, na pior das hipóteses, um treinamento.

Inclusive, ao fim do filme, Anders diz a seu advogado que não se arrepende do que fez – e faria tudo de novo, se pudesse. Ele acredita, de verdade, que está certo, lutando pelo bem da Noruega ao tirar os “marxistas e refugiados” do caminho.

Ele também diz que não há como acabar com os extremistas, pois a sociedade sequer os enxerga.

E, nisso, ele tem razão.

Às vezes, não damos a devida importância, ou tratamos com a seriedade merecida, pessoas que estão no espectro mais marginal do extremismo político.

Acabamos “deixando passar”, como se o falatório – que muito se assemelha a uma metralhadora descompassada de besteiras – nunca fosse dar em nada. E, talvez, não dê, mesmo.

O melhor cenário seria essa pessoa lendo, se informando e praticando a tolerância ao diferente. Mas, se ele for tão utópico quanto vocês podem apontar, o cenário “menos pior” é esse: a pessoa que, ainda que deseje o extermínio, não cumpre sua vontade.

No meio de um monte de gente que fala coisas absurdas só porque quer passar recibo de idiota em voz alta pode existir alguém que, a qualquer 22 ou 15 ou 7 de qualquer mês, deixar de ser a ameaça invisível para que revelem a cruel face do terror.

Tão longe e tão perto

Já experimentamos esse gosto amargo algumas vezes, como no Massacre do Realengo (RJ, 2011), no Massacre de Janaúba (MG, 2017) e no Massacre de Suzano (SP, 2018). Nesses episódios, homens que acreditavam na legitimidade de seus motivos, não saíram gritando impropérios pelas ruas. Eles exterminaram pessoas e se mataram na sequência.

No caso da Noruega, Anders não se matou: se entregou à polícia, com uma agenda clara. Em sua mente – que foi descartada como insana pelos especialistas -, ele se achava o salvador do país. Chegou a dizer, na corte, que um dia seria agradecido pelo que fez.

Afinal, escrevi esse textão todo porque o filme, o fato e o cara me impactaram muito. Esse pacote de coisas me fez sentir aquela leve cambalhota no estômago, típica de quem se dá conta do problema mas, talvez, seja tarde demais para solucioná-lo. 

Penso que, hoje, ver algo similar a terrorismo por aqui é mais do que possível: é provável. 

Estudei o tema bem menos do que gostaria de dizer que fiz, mas, pelo pouco que conheço do assunto, sei reconhecer alguns de seus sinais. Assim, em verdade, vos digo:

se o Brasil não abrir rapidamente os olhos (e os braços) para a diferença a tolerância, inclusive e principalmente a religiosa, sexual e político-partidária, essas “coisas que só rolam nos EUA e na Europa” vão rapidamente se tornar um perigo em nossa esquina.

Que se registre: Belchior sempre fez sentido, mas nunca fez tanto sentido quanto agora.

Livros sobre terrorismo para levar a reflexão adiante

Para quem quiser dicas de livros sobre o terrorismo, obviamente não para cometê-lo (mesmo porque isso é assunto de Deep Web e não tô muito afim de ir lá conferir), mas para combatê-lo antes que ocorra, eis minhas sugestões:

(Obs: vou listar todos os que eu já li e me recordo de ter lido, mas, se você tiver a indicação de algum, me avisa nos comentários.)

Onze de Setembro (2002) – Noam Chomsky tem uma série de livros e ensaios sobre política que abordam o terrorismo e, neste, ele fala sobre como os EUA praticamente patrocinaram a escalada de ódio, violência e intolerância que levou ao atentado do ano anterior. É mais denso e bem teórico, mas vale a pena.

102 minutos (2005) – narrativa do 11 de setembro pelo ponto de vista dos sobreviventes. Com um texto eletrizante, baseado em fatos reais, acompanhamos os ocupantes do World Trade Center em sua luta pela vida.

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O Vulto das Torres (2007) – um retrato do mundo pós-Guerra Fria e documentos sobre o que levou a Al Qaeda a atentar duas vezes contra as Torres Gêmeas. Traz informações preciosas sobre como as autoridades dos EUA tinham conhecimento do perigo iminente.

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Os Bin Laden (2009) – a biografia da família de Osama mostra como um clã rico, que mandou os filhos para estudar na Inglaterra, criou um dos mais procurados extremistas do século XXI. Você vai se surpreender como o jovem progressista conseguiu se tornar um conservador odioso, com a mão da religião, em sua cruzada particular contra o ocidente.

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