Minha vida sem Tolkien

Se estivesse vivo, J.R.R. Tolkien – ou John Ronald Reuel, para os íntimos – seria um fenômeno da natureza, com 127 anos. O senhor de idade poderia não ser tão simpático, ou paciente, embora tivesse uma certa facilidade em fazer amigos, mas, certamente, seria uma máquina de inventar histórias, línguas e mundos.

Nem todos os anos seriam o suficiente para a grandiosa imaginação de John. Sou uma fã.

Mas, já que estamos no começo dessa trajetória juntos, devo confessar uma coisa pelo bem de nossa duradoura amizade: nunca consegui terminar um livro de Tolkien.

Tentei ler O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel em 2001 e não consegui passar da página 121. Às vezes, penso que era nova demais para me engajar em uma aventura tão detalhista; às vezes, acho que fui incompetente ao interpretar a narrativa e seus tantos personagens.

Essas cem primeiras páginas, contudo, foram cruciais para mudar meu modo de consumir livros de fantasia. Peguei SdA logo antes de ler o primeiro volume de Harry Potter e consegui enxergar Frodo, Sam e Gandalf bem antes de vê-los no cinema. Assisti a todos os filmes já produzidos a partir das obras de John, e me diverti absurdamente com cada um deles.

Não conseguiria, jamais, assistir a Game of Thrones (que, ops, também não li) ou a qualquer outra adaptação de fantasia sem aquelas primeiras 121 páginas sobre um par de pés peludos tentando se responsabilizar por um anel.

Falar sobre o aniversário e a obra de J.R.R. Tolkien me traz, repentinamente, um senso de urgência de que é preciso retomar essa aventura. De onde estou sentada, consigo ver toda a coleção na prateleira, com O Silmarillion ainda dentro de um plástico transparente.

Será que agora já tenho idade, maturidade e aparato teórico suficiente para entender todos os personagens, que se entrelaçam em uma teia de que me parecia impossível decifrar, mesmo na era da hiperconectividade?

Bom, acho que isso é o mínimo que se espera de alguém que, desde sempre, quis tatuar um cântico de Bilbo Bolseiro em alguma parte espaçosa do corpo.

Que vem depois?

Em algum lugar naquelas 121 páginas iniciais havia uma toada que fiz questão de decorar, por me parecer muito pertinente.

Ela dizia:

A estrada em frente vai seguindo

Deixando a porta onde começa

Agora longe já vai indo

Devo seguir, nada me impeça

Em seu encalço vão meus pés

Até a junção com a velha estrada

De muitas sendas, através

Que vem depois? Não sei mais nada

Lá se vão 18 anos desde que esse pedacinho de literatura fantástica foi lido pela primeira vez e, sempre que dedico alguns segundos para lê-lo com atenção, me emociono.

Mas ele traz um detalhe: está em português, e John Ronald Reuel foi educado na língua inglesa – ecertamente não fez essas rimas na minha língua-mãe. Foi só em 2017, para falar da importância desse “poeminha” na minha vida em uma apresentação gringa, que me atentei para a existência de uma versão em inglês.

Descobri que ela também tem várias versões originais (J.R.R. não era muito fã de obviedades): existe a de O Hobbit – que, cronologicamente, é uma história anterior às aventuras de Frodo – e a de Senhor dos Anéis. A de SdA é:

The Road goes ever on and on

Down from the door where it began

Now far ahead the Road has gone,

And I must follow, if I can

Pursuing it with eager feet

Until it joins some larger way

Where many paths and errands meet

And wither then? I cannot say.

Bato palmas para o tradutor que fez com que a versão em português fosse crível, tocante e condizente com o que Tolkien fez, mas é inegável que os arrepios que a versão “100% J.R.R.” nos dá são tão intensos quanto a tradução que conseguimos.

Através de constatações tão óbvias como essa, entendo que a obra de Tolkien, mesmo sem ser lida, conseguiu moldar minha imaginação para que eu tivesse a capacidade de me comover com tudo aquilo que não existe.

Isso é imprescindível a um leitor de ficção, principalmente ficção fantástica. Ouso dizer que, sem ter tido o mínimo contato com o mundo criado por Tolkien, um leitor desse gênero jamais terá a experiência completa.

Não podemos nos esquecer, no caminho, que o mesmo homem que inventou os hobbits, contextualizou os elfos, deu poderes aos anões e dignificou os homens em busca de poder, fez uma língua inteira, com palavras, fonemas, significados e códigos, que hoje milhares de pessoas se dedicam a estudar.

E, em linhas gerais, também sugeriu a boa parte do mundo conhecer a Nova Zelândia no século XXI. 😉

Stephen King, no livro “Sobre a Escrita”, discorre sobre a possibilidade de criar panos de fundo de ficção, uma dica valiosa para quem quer usar a imaginação para suprir os anseios imaginativos dos outros:

“Mesmo depois de mil páginas, não queremos deixar o mundo que o autor criou para nós, ou as pessoas verossímeis que vivem lá. (…) A trilogia de O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, é um exemplo perfeito. Mil páginas de hobbits não foram suficientes para três gerações pós-Segunda Guerra Mundial de fãs de fantasia; mesmo quando incluímos aquele epílogo tosco e lerdo chamado O Silmarillion, ainda não é o suficiente. Daí vem Terry Brooks, Piers Anthony, Robert Jordan, os coelhos aventureiros de A Longa Jornada e centenas de outros. Os escritores desses livros criam hobbits porque ainda os amam e querem mais; estão tentando trazer Frodo e Sam de volta dos Portos Cinzentos porque Tolkien já não está aqui para fazer isso por eles”. (p. 120)

 

E é isso aí.

Se Tolkien estivesse vivo, seria um fenômeno da natureza, com 127 anos. Sua ausência nos faz responsáveis por continuar fazendo Frodo viajar, Bilbo escrever e Gollum nos irritar com charadas. Cada palavra que ele escreveu é um ponto de partida para todas as outras que podemos tecer, fazendo com que sua história continue a evoluir.

Nesse aniversário de John, declaro que preciso ir além das 121 páginas e descobrir se há algo mais para querer tatuar além do cântico de Bilbo.

Minha vida sem Tolkien, até aqui, foi ótima. Mas talvez, com ele, possa ser bem mais legal.

 

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2 Comentários
  1. avatar image
    Débora Diniz at 5 de janeiro de 2019 Responder

    O seu texto provavelmente sempre será o mais próximo que chegarei da obra de Tolkien. Essas coisas fantásticas demais não me prendem de jeito nenhum. Dei uma chance à Hobbit (filme) e fiquei do mesmo tamanho. Não sei se é um problema de compreensão do tema ou de gosto mesmo. Me questiono sempre. Thank you for writing.

    1. avatar image
      Lais Menini at 6 de janeiro de 2019 Responder

      Thank you for reading. 🙂
      Talvez seja gosto, timing… existem milhões de fatores. Quando você estiver disposta, te sugiro ver o primeiro filme de O Senhor dos Anéis. Se curtir, vê os outros. O primeiro filme é bem legal!

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