O dia em que roubei de um japonês

Recentemente escrevi um artigo sobre o livro “Roube Como um Artista” (você pode ler – ou reler – o texto aqui). De todas as citações que destaquei, três me marcaram profundamente. São elas:

#1

“Fazemos arte porque gostamos de arte. Somos atraídos por certos tipos de trabalho porque as pessoas que fazem esses trabalhos nos inspiram. Toda ficção é, na verdade, fan fiction”.

#2

“No fim das contas, a mera imitação de seus heróis não é homenagem. Transformar o trabalho deles em algo seu, sim, é homenageá-los. Dando algo ao mundo que só você poderia conceber”.

#3

“Quanto mais aberto você for para compartilhar suas paixões, mais próximas as pessoas se sentirão do seu trabalho. Artistas não são mágicos. Não há punição por revelar seus segredos”.

O que estou prestes a mostrar é a cadência das três aspas acima, com certo alívio por entender que não sou ridícula nas minhas manias de escrever ficção sobre a ficção dos outros – e que, se estiver, isso não é da conta de ninguém.

Fazemos arte porque gostamos de arte

A história começa com um japonês que muito admiro e conheci ainda na infância. Seu nome é Akira, mas só obtive essa informação quando já era bem grandinha e socialmente “fora do tempo certo” de admitir que gostava das coisas que ele criou.

Akira é a mente brilhante por trás de Dragon Ball, a maior franquia de mangás do Japão – e, como o Japão é a terra do mangá, ouso dizer que essa é a maior franquia de mangás que o planeta já conheceu.

Coincidência ou não, a história de Dragon Ball é uma fan fiction inspirada no livro “A Jornada ao Oeste”, do escritor chinês Wu Chengen. A versão de Akira narra a vida de Goku, um menino de aproximadamente oito anos, extremamente forte, que vive sozinho no planeta Terra.

Um dia, por acaso, ele encontra Bulma, uma adolescente inteligente e aventureira, e juntos desbravam jornadas que são contadas até sua idade adulta.

Sou alucinada por Dragon Ball e Bulma é minha personagem preferida. Às vezes no silêncio da noite gosto de pensar que sua inteligência, espírito curioso e constante falta de modéstia são bem semelhantes a meus próprios atributos. ;p

Já adulta, Bulma se casa com um dos personagens mais controversos da trama: o antagonista Vegeta, cujo principal objetivo de vida é superar Goku. O casal, formado pelo grande vilão e a carismática musa, se tornou popular na saga, muito embora Akira não tenha escrito sequer uma linha sobre como se deu o improvável romance.

E é exatamente nessa lacuna que entra o meu roubo, e o de milhares de fãs, que se colocam a imaginar como e o que aconteceu para que essa história fosse possível em um universo como Dragon Ball.

Essas histórias paralelas, que o autor não contou, mas os fãs imaginam são as chamadas fan fictions. Falamos aqui no blog, recentemente, de uma bem popular, After, que também é uma fan fiction. Mas não de Dragon Ball, claro. De One Direction.

Algo ao mundo que só você poderia conceber

O estalo sobre o casal Bulmita (desculpe, estou me sentindo jovem) me ocorreu em um dos episódios da saga mais recente, Dragon Ball Super.

Em dado momento, Vegeta tem um “lapso de romantismo” – ao estilo dele, claro – ao se enfurecer com o Deus da Destruição, que tanto temia, após vê-lo agredir Bulma.

Quem conhece o anti-herói naturalmente mal humorado sabe que violência gratuita nunca foi motivo suficiente para amolecer seu coração de pedra. Mas e se o coração não fosse realmente de pedra?

Não tem como saber; afinal, Akira nunca nos contou o que levou Vegeta a ficar com Bulma.

Lá fui eu consumir todas as fan fics possíveis para tentar entender como tudo ocorreu, já que faltava essa parte na narrativa. Mas ainda não era o que eu queria. E, como diz o manifesto de Kleon, “escreva o livro que você quer ler”.

Contudo, não me bastava apenas escrever as cenas do espaço entre a primeira vez em que Vegeta e Bulma se viram e o episódio em que apareceram com um filho – o que é, basicamente, a descrição exata do tamanho da lacuna.

Se vejo semelhança entre a personagem e eu, por que não emprestar minha mente para que ela mesma conte sua versão da história?

Foi quando me dei conta que o que me divertiria, mesmo, era romancear Dragon Ball inteirinho, tendo Bulma como narradora. Do início ao fim, com a estrutura que Akira criou e alguns confeitos que, respeitosamente, eu poderia colocar.

Comecei a maratona pessoal de imaginar e escrever o que faltava do romance entre Bulma e Vegeta, desde o momento em que ela entra na história até o momento em que, na minha imaginação, irá sair dela.

Passei – e ainda passo – horas e horas colocando no papel a versão que mais deixa meu coração quentinho.

Não há punição por revelar seus segredos

Um dos motivos pelos quais é tão legal fazer essa fan fic é porque ela nunca foi feita com nenhum outro objetivo a não ser me entreter. Por isso, criei essa introdução para te situar, querido/a leitor/a, mas não me sinto na obrigação de explicar os caminhos e a linguagem que escolhi.

Desculpaê.

Imaginar que seria eu a única leitora me despiu de todos os julgamentos que poderia ter sobre essa redação, o que me deixa constantemente orgulhosa de seus resultados. Sempre que leio, me entretenho. Missão cumprida.

Dou um salto de coragem ao expor esse exercício de imaginação, correndo o risco de perder a mágica de continuar a história, já que às vezes a opinião dos outros tira da gente a alegria de produzir. Posso (e provavelmente irei) me arrepender disso no futuro, mas hoje arde a vontade de expor esse roubo na cara dura.

Para sentir que as páginas ainda são minhas, compartilho apenas o primeiro capítulo, que é a releitura romanceada do primeiro episódio de Dragon Ball clássico, chamado “O Segredo das Esferas do Dragão”.

Sugiro que você assista aqui ao episódio e depois leia o capítulo abaixo – que, conforme sentirá pelo título, é bem mais dramático do que o original.

Sou dessas. ;p

Capítulo 1 – O COMEÇO DO FIM

Eu tinha 16 anos e mais sonhos do que poderia contar nos dedos das mãos. Talvez até mesmo nos dedos das mãos e dos pés, juntos. Até então, achava que podia conquistar todos eles sozinha, mas esse pensamento perdeu o sentido no dia em que conheci aquele menino.

Era como se, a partir de então, eu nunca mais fosse estar só.

Ele era bem mais novo, tinha um cabelo preto e espetado demais para nossa época, mas uma pureza de coração que ultrapassava as barreiras do tempo. Me olhava de maneira atenciosa e observadora, como se eu fosse o primeiro ser humano que ele via na vida.

Pude sentir, mesmo com tão pouco contato, que ele realmente me via.

Sem maldade, sem intenções, sem medo.

Aquele menino atarracado, meio gordinho para sua pouca idade, era, de alguma forma, especial. Pra começar, se achava o homem mais forte do planeta – algo comum a uma criança, que nada sabe sobre o vasto universo que nos faz parecer formigas vagando pela imensidão.

O momento em que o vi pela primeira vez tinha tudo para se apagar facilmente da minha memória, como um sábado irrelevante: eu era uma garota ávida por aventuras que tinha esbarrado em um menino qualquer, em um lugar do qual já nem lembro mais o nome. Contudo, algo mudou no exato momento em que o moleque de cabelos pretos começou a falar, enquanto minha concentração estava na bússola que me levou até aquele ponto.

– Ei, você! O que está fazendo aqui? Não sabe que esse é um lugar muito perigoso para uma garota

– Perigoso por que? Você vai me atacar, por acaso? Olha o seu tamanho, moleque! Como se pudesse! Sai pra lá e não me incomoda, senão vou acabar com você!

– Nem adianta falar comigo desse jeito, porque sou muito forte e você não me assusta! Se eu quisesse te batia até você cair de cara no chão, porque sei lutar kung fu! Mas eu não vou fazer isso porque meu avô me ensinou a ser muito gentil com as meninas.

Como fui descobrir tempos depois, o avô dele o tinha ensinado muito mais do que ser gentil com as meninas: havia um legado de força, amor, bondade e cuidado com o próximo que ressoaria por toda sua vida – até quando ele mesmo se tornasse um avô a ensinar seus netos tudo aquilo que, em um dia longínquo de sua própria história, ele tinha aprendido.

No início, aquele menino não tinha nome, idade, berço, nada que eu julgasse interessante para uma provável amizade. Sou uma pessoa fechada, apesar de não ser tímida, e escolho bem os amigos que quero levar em minhas aventuras. Ele, por ser apenas um menino bobo que desconhecia tudo, não se encaixava na definição de alguém que realmente mereça meu tempo e minha atenção.

E, pela pouca idade, não podia nem ser meu namorado – título que toda menina de 16 anos sonha em dar para o garoto que toma seus pensamentos de assalto no meio da tarde, da aula ou da soneca.

– Seu avô é um homem sábio, você realmente tem que ser gentil com as meninas. E onde está seu avô

– Ele já morreu.

A conversa sobre o único parente que ele tinha conhecido me levou a entender um pouco mais de sua história – e, por fim, conclui que ele era um rapazinho muito esquisito. Chegou a confessar para mim que conversava com o avô através de uma espécie de totem que o velho tinha deixado, o que me soou completamente sem sentido.

Era como se a relíquia abrisse um portal para o além e que, por ela, fosse possível conversar com quem não estivesse mais aqui.

Na minha cabeça de adolescente, a verdade estava clara: o garoto era tão surtado quanto ingênuo. Talvez tenha sido por isso que seus pais o abandonaram, como ficou subentendido que aconteceu.

Poderia ter feito o mesmo e ter ido embora assim que ele começou com as baboseiras, mas a curiosidade em saber onde aquela imaginação fértil iria chegar prolongou nossa conversa. Quando dei por mim, tinha passado a tarde toda falando com aquele menino.

No fim do dia, acabei frente a frente com a relíquia que o avô deixara. Era realmente muito bonita, apesar de modesta, sem nenhum valor monetário aparente. Mas alguma coisa naquele totem tinha uma energia inestimável, como se um presente tão miúdo e singelo tivesse o poder de realizar grandes sonhos.

E eu, que tinha mais sonhos do que podia contar nos dedos das mãos e dos pés juntos, entendi, no momento em que olhei aquele presente, que o menino podia ter, afinal, alguma serventia.

Com roupas surradas, sandália sujinha e uma careta constante de fome, o guri apareceu na minha frente com potencial de ser um grande estorvo. Uma espécie de irmão mais novo para uma jovem que não tinha nenhum interesse em pajear crianças levadas.

Lembrando daquela tarde inusitada, vejo que o subestimei pela promessa que ele carregava em silêncio. Posso dizer, com uma saudade que aperta os músculos de minha face, que foi ele o grande causador dos meus momentos mais felizes.

Quando perguntei, no final daquele sábado, se ele gostava de aventuras envolvendo viagens, monstros, donzelas em perigo, dragões bravos e outros inimigos terríveis, seus olhos brilharam – e os meus também. Tinha coragem, o jovenzinho, e essa é uma característica de se admirar, ainda mais quando você é uma pessoa ávida por aventuras e pode ter achado, afinal, uma companhia para as suas.

Mal sabia eu que ele seria responsável pela maior delas: a aventura da minha vida.

Depois de tudo o que aconteceu, tantos amigos perdidos, tantos amores em vão, dor e escuridão em meio a alguns momentos de glória, as pessoas ainda me perguntam se eu mudaria alguma coisa, caso pudesse voltar atrás e fazer diferente.

A verdade, que elas não gostam muito de ouvir, é que eu não mudaria nada. Se voltasse no tempo – algo que eu posso fazer com relativa facilidade, para ser sincera – e tivesse a chance de desviar minha rota daquele menino insolente, metido a forte e de cabelos terrivelmente mal cortados, eu não faria isso.

Mesmo que soubesse de tudo o que aconteceria a seguir, ainda assim me aproximaria dele e teria exatamente as mesmas conversas – só que, dessa vez, com um pouco mais de ternura. Afinal, saberia do afeto que ele merecia desde o início.

E, ainda que entendesse plenamente as consequências daquele encontro fortuito numa tarde de sol, ainda que tivesse fresco na mente o lembrete de tudo o que perdi desde aquele dia, eu iria em sua direção, quantas vezes fosse preciso, para viver todas as nossas aventuras de novo. E de novo. E de novo.

Porque, por mais que tenha perdido – e, Deus, como perdi –, eu também ganhei muito, mais do que jamais pude desejar.

Pensando bem, tem um detalhe da nossa história que eu não faria nenhum drama em apagar, porque me irrita profundamente até hoje, quando me recordo da expressão na cara dele. O único momento que mudaria seria o de quando dissemos nossos nomes, um ao outro, pela primeira vez.

Gostei muito do som que o nome dele fazia. Quando eu o dizia, as sílabas deixavam um aroma doce no ar, exatamente como o que a gente sente quando diz o nome das pessoas que nos importam. Mas ele riu muito quando eu disse o meu próprio, e fiquei tão envergonhada com sua sinceridade infantil que desejei mentir, falando que o nome dele era bem pior que o meu.

– Como você se chama, garotinho?

– Eu me chamo Son Goku. Mas pode me chamar só de Goku, eu prefiro.

– Goku, então!

– E você, como se chama?

– Hahahahahaha! Bulma! Que nome engraçado! Seu nome é muito esquisito, sabia? Bulma… quem se chama Bulma?!

“Quer saber?! Eu te faço a mesma pergunta: quem se chama Goku? Goku! Que nome ridículo! Tão esquisito quanto seu cabelo, suas roupas, sua sandália e esse cabo de vassoura que você leva preso às costas como se fosse uma espada samurai. Menino idiota!”.

Se pudesse alterar algo do encontro que tive com aquele menino, escolheria apenas esse ponto irritante no nascimento de nossa improvável amizade.

E essa seria a única mentira que teria contado a ele em todos os anos de nossa longa jornada.

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