O dilema da mesa analógica

Trabalho em casa.

No meu escritório tem uma mesinha de 40cm x 50cm. Sei disso porque acabei de medir. Nela, repousa um MacBook Pro 2012, um teclado, um mouse e um aparador de mouse que serve como descanso de copo.

No canto direito, um porta-lápis onde se lê “OMG, I’M SO RETRO!” cheio de lápis, canetas, Neosaldinas e bottoms do Snoopy.

Acabo de descrever a estação de trabalho com a qual faço maior parte de minha renda mensal. Mas, de acordo com Austin Kleon, autor de Roube Como um Artista, não é nessa mesa que vou fazer arte.

No livro, cujas impressões coloquei nesse texto aqui, Kleon mostra que o empecilho entre a mesa e meu cérebro artístico é o computador. O trecho é esse:

O computador é muito bom para editar suas ideias, e é muito bom para deixá-las prontas para publicar e lançá-las ao mundo, mas não é muito bom para gerar ideias. Há várias oportunidades para pressionar a tecla delete. O computador estimula o perfeccionista perturbado em nós – começamos a editar ideias antes de tê-las. O cartunista Tom Gaud diz que fica longe do computador até ter feito a maior parte da elaboração das suas tiras porque, assim que o computador entra em cena, ‘as coisas já se encontram no rumo inevitável da finalização, enquanto no meu caderno de esboço as possibilidades são infinitas’”.

Portanto, indica que pessoas inspiradas tenham duas estações de trabalho: a digital, que é onde vamos passar nossas ideias para o computador, e a analógica, livre de aparatos digitais (incluindo o celular e relógios), onde a ideia será concebida e trabalhada.

Perceba que, para ele, a segunda mesa é a que justifica o uso da primeira. Isso fez muito sentido pra mim.

Comecei a utilizar a mesa de jantar como mesa analógica, por falta de recursos e espaço para uma nova aquisição – não sem me perguntar se a mesa faria diferença mesmo ou se eu estava pensando em “modo placebo”.

Do tipo:

“você apenas quer desculpas para não fazer o que deve ser feito no seu computador”.

O impasse entre utilizar uma mesa analógica para criar melhor e essa ser apenas uma desculpa esfarrapada para a procrastinação durou dias.

Até que, como um anjo caído do céu, o livro Sobre a Escrita, de Stephen King, veio parar em minha vida.

(Aqui vai um parêntese: ainda não escrevi sobre ele porque tento digerir tudo que consumi em suas páginas. Quando for escrever sobre isso, quero estar à altura. E em uma mesa analógica.)

Em seu discurso sobre o ofício da escrita, King cita uma de suas primeiras mesas, artesanal, gigantesca, milimetricamente localizada no meio do cômodo para lhe servir de estação de trabalho.

Diz que, por anos, sonhou “com uma peça de carvalho maciço que dominasse uma sala”. Um dia, conseguiu – e se livrou dela rapidamente. Eis o trecho mais interessante de seu “ensaio sobre a mesa” em três parágrafos:

Começa assim: coloque sua mesa em um canto e, todas as vezes em que se sentar para escrever, lembre-se da razão de ela não estar no meio da sala. A vida não é um suporte à arte. É exatamente o contrário”. (p.91)

Isso significa que, além de precisar ter uma mesa analógica, ela não pode ser tão importante e marcante?

Puxa, esses caras não facilitam.

A mesa dos sonhos 

Depois de bater cabeça por vários dias sobre a mesa do escritor, comecei a desenhar, na imaginação, minha mesa analógica. Antes de King, também sonhava com algo grandioso; depois, reduzi bastante minhas expectativas quanto ao material e tamanho.

Na minha cabeça, a mesa analógica é de madeira e retrô, mas não no estilo; velha, mesmo. A cadeira é giratória e confortável, discreta, nada como aquelas de executivos, cujo descanso para cabeça quase vai até o teto.

Minha mesa ideal tem duas gavetas. Em uma, guardo meus cadernos e blocos. Na outra, livros de estudo ou inspiração. No tampo, tenho uma pequena luminária, uma máquina de escrever velha (porém em perfeito estado de funcionamento) e um porta-lápis com poucos itens.

São: dois lápis, uma caneta azul, quatro ou cinco Stabilo coloridas e uma caneta linda, tipo pena, de tinta preta, dessas das quais eu (ainda) não faço a menor ideia de como utilizar. Pensando bem, talvez essa fique em um estojo, dentro da gaveta. Veremos.

Ah, não posso me esquecer que, na gaveta dos blocos, também guardarei envelopes. Só de pensar em mesa analógica me vem saudosas borboletas na barriga relembrando a felicidade de esperar pelo carteiro feito uma desocupada.

Se você quiser receber cartinhas quando essa mesa existir, deixe o endereço nos comentários (ou escreva privadamente; nesses tempos tecnológicos, é bom se resguardar).

Caderno x Notebook

Quer dizer depois desse textão que você vai passar a escrever todos os posts desse blog no caderno?

Não.

Desculpe-me, Kleon.

Aprendi a digitar no computador por volta de 1998. Digito totalmente errado, usando apenas quatro dos dez dedos à disposição, e, segundo o Google, posso desenvolver problemas articulares por conta disso. Mas, hoje, é assim que escrevo minha média diária de doze mil palavras.

Com a leitura dos livros citados, aprendi com o primeiro (Kleon) que o problema é a facilidade que temos em não ver o quanto o botão do delete pode obstruir a nossa imaginação se clicado à exaustão e, por isso, as coisas meio que saem na pressa para serem finalizadas; com o segundo (King), aprendi a apertar a porra do delete.

E, com Douglas Adams, aprendi a resposta para o sentido da vida, do universo e tudo o mais.

 

Como só o conhecimento salva, vos afirmo: conheci o melhor dos dois mundos. Eis o que decidi a partir deles:

Minha mesa digital servirá a meus propósitos digitais: fazer meu trabalho de redatora na Chá de Conteúdo, revisar textos de outros redatores, escrever e-books e postagens para esse blog e outros meios de comunicação.

Tudo com o compromisso de só publicar quando o texto tiver sido reconsiderado pelo menos duas vezes. King encontra Kleon.

Na mesa analógica vou me deixar sonhar e imaginar meus produtos igualmente analógicos: livros (quero publicá-los fisicamente; é o único ponto em que eu e a natureza não concordamos), as primeiras faíscas de minhas ideias, cartas aos amigos e a mim mesma. Kleon encontra King.

Acredito, honestamente, que minha produtividade na analógica me ajudará a brilhar na digital – exatamente o que propõe Austin Kleon. Lais encontra Kleon e King concorda.

Uma dica analógica importante

Falo com tranquilidade: todo mundo que quer ser redator precisa andar com um caderninho e uma caneta dentro da bolsa, do bolso ou da mochila.

Se você ainda não tentou, faça o experimento: os pensamentos voam e são muito mais legais quando nossa tela em branco é feita de celulose, e não de pixels.

Quando escrevo à mão, obtenho resultados incríveis. No outro cenário, delete, enter e demais teclas realmente não ajudam, pois assumem a posição de juízes de um trabalho que ainda não foi concluído.

Meu querido e velho papel e caneta não julgam absolutamente nada até que eu tenha, finalmente, terminado de escrever.

E tem outra coisa: escrever em celular, tablet ou demais trocinhos com aplicativo de bloco de notas pode ser prático, mas nem sempre é funcional. A bateria do notebook acaba; do caderno, não.

O único “contra” do caderno em relação aos aparatos digitais é que ambos podem ser roubados. Para o segundo grupo existe a moleza do backup em nuvem.

Por isso, sempre faço um backup (digital ou analógico) das coisas que escrevo no “caderno do trânsito”. Assim, se for assaltada, perco muito pouco, ou quase nada, do que confessei em folhas.

Em resumo:

  • tenha uma mesa analógica;
  • não a coloque no meio da sala;
  • não se esqueça do caderno e lápis quando sair de casa.

Mais importante, não deixe que a falta de algum desses itens te impeça de produzir. Quando ouvir o chamado da mãe arte, faça o que tem que ser feito e não olhe para trás.

Senão, você corre o risco de, um dia, ter uma mesa, uma sala e um caderno e nenhuma inspiração para usar essas maravilhosas ferramentas.

 

Quer esse tipo de dilema na sua vida?

Comprando os livros citados nesse artigo pelo link abaixo você ajuda o Literama a ganhar um dinheirinho. 🙂

4 Comentários
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    Allan Fonseca at 18 de janeiro de 2019 Responder

    Laís, adorei o texto. Vou refletir mais sobre a questão digital e a analógica. Acho que vou usar menos o delete… ou criar uma fonte digital só de ideias.
    Agora receber um bilhete/carta/cartão analógico me dá a sensação de zelo e mais carinho. O fato de ver a escrita da pessoa me conforta mais e dá mais validade. Será que sou estranho????
    Aqui…. quando puder, quero receber uma cartinha sua.
    Obrigado pelo texto.
    Estou adorando o Literama!!!!!
    Um abração.

    1. avatar image
      Lais Menini at 18 de janeiro de 2019 Responder

      Allan, se você for estranho, eu sou estranha e meia! ;p
      Penso exatamente a mesma coisa: palavras artesanais carregam um pouco mais de significado.

      Vou adorar te mandar uma carta! Me envia seu endereço?
      Pode ser por e-mail: amoler@literama.com.br 🙂

  2. avatar image
    Juliana Ricci at 19 de janeiro de 2019 Responder

    Adorei tudo isso. Simplesmente adorei. Vou pensar muito sobre como ajudar minha criatividade a acordar com essas dicas. Tbm quero carta /cartão. Amo fazer isso. Tô com uns postais pra despachar inclusive, na próxima semana.
    Obs: moro fora do Brasil, se ficar caro pra mandar, não se preocupe. Pode ser só um email!!

    1. avatar image
      Lais Menini at 22 de janeiro de 2019 Responder

      Já estou trabalhando na sua cartinha! Se a entrega for no planeta Terra, conseguimos fazer. 😉

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