Eu li O Gambito da Rainha

No mesmo dia em que comecei a ver a série da Netflix, também comecei a ler o romance na versão Kindle, em inglês (na loja da Amazon não tinha a tradução em português). A primeira coisa que notei é que a adaptação de O Gambito da Rainha, de Walter Tevis, pela Netflix é muito fiel. 

A série corresponde em muitos fatores ao que o autor quis retratar no livro, com pequenos detalhes que, deixados de fora da narrativa televisiva, não fizeram assim tanta diferença.

O Gambito da Rainha já é a minissérie mais popular da história da Netflix, e o romance de Walter Tevis é considerado um clássico moderno. Ainda que na língua original, e com muitos jargões de xadrez, é um livro fácil e gostoso de ler, daqueles que prendem a gente. 

Ah, vale pontuar aqui que eu não jogo xadrez. Comecei recentemente a me arriscar por pura recreação, até mesmo antes de ver O Gambito da Rainha, e não faço a menor ideia de como se montam as jogadas que aparecem na série ou no livro. Ainda assim, a ignorância quanto à prática principal da narrativa não estraga a experiência de leitura. 

Ao contrário: pessoas leigas, como eu, podem aprender a apreciar com mais consciência esse esporte que pode chegar à impressionante marca de 170 quatrilhões de jogadas possíveis. Desde sempre visto como uma prática dos introvertidos desajustados, o xadrez é, na verdade – como a própria Beth Harmon diz, no livro e na série –, o mundo em um tabuleiro.

É um exercício intelectual de estratégia, compreensão e controle emocional, e a experiência de entretenimento com o assunto me faz pensar se não seria o caso do xadrez ser uma disciplina escolar, como português, matemática e ciências.

O Gambito da Rainha em livro

A sinopse do livro O Gambito da Rainha é exatamente a mesma da minissérie: Elizabeth Harmon perde a mãe e vai parar em um orfanato onde, por meio do zelador, Sr. Sheibel, se revela uma prodigiosa enxadrista. Ao observá-lo jogar sozinho, ela aprende por conta própria o movimento das peças. Assim que o homem a deixa jogar uma partida, ela começa a aprender com ele os movimentos básicos e avançados do jogo.

A partir dessa improvável amizade com o zelador do orfanato, Beth desenvolve seus talentos até se tornar um ícone do esporte e jogar entre os melhores do mundo, ganhando dinheiro e fazendo seu nome na história do xadrez. 

Contudo, há uma pedra em seu caminho: ainda no orfanato, na infância, ela desenvolve um vício por calmantes – e a relação entre estar sob o efeito do medicamento e jogar bem é muito forte em sua mente.

Na adolescência, ela adiciona o alcoolismo à sua lista de vícios, que começa a aumentar. Seus maiores adversários a instigam a ir com calma para que ela não sofra da “paranoia do enxadrista”, condição que fez um de seus grandes ídolos, Morphy, se aposentar aos 22 anos.

Cada vez mais próxima dessa marca de idade, Beth precisa se livrar das obsessões se quiser vencer os soviéticos e se tornar a maior campeã do mundo.

Diferenças entre o livro e a minissérie (com spoilers)

Embora a Netflix tenha produzido uma versão bem fiel, com uma direção de fotografia impecável e figurino de cair o queixo (já quero todas as roupas que Beth usa!), algumas diferenças permeiam o romance e a série. Elas não são o suficiente para “estragar” a versão em streaming; muito antes pelo contrário: quando lemos o livro, são essas sutis fugas de semelhança que garantem uma experiência “inédita”, por assim dizer.

Pra começar, no livro, Beth não está com a mãe no momento em que ela morre, como retratado na minissérie. No romance, ela também vai levar o fantasma de sua mãe biológica por todos os lados, mas essa perda brutal não é a única fonte de raiva que a torna uma jogadora tão característica e intuitiva.

Ainda no orfanato, por exemplo, além do vício em calmantes, ela desenvolve uma relação turbulenta com Jolene, que vai desde o “ensinamento” de guardar os medicamentos para mais tarde até tentativas de abuso sexual. Jolene também faz questão de chamá-la de “a garota mais feia do mundo”, coisa com que Beth concorda, e cada novo dia naquele ambiente é um refil de ressentimentos para a menina.

Eventualmente, elas se tornam amigas e a narrativa se desenrola como na série, com sutis diferenças de estilo e alguns acontecimentos que, na TV, não foram narrados. Normal: todo livro que é adaptado com censura livre “precisa” sofrer algumas alterações que atendam a toda a audiência.

Um exemplo inesquecível disso para mim é Dexter: quando li os livros, não me choquei ao perceber um psicopata sem sentimentos, a respeito de ninguém, porque psicopatas são assim. Já na TV era possível ver Dexter se preocupando, e até demonstrando algum afeto, com sua irmã, seus enteados e seu filho.

Nada de tão extremo ocorre em O Gambito da Rainha, óbvio, mas a verdade é que ver a série não estraga a experiência de ler o livro – ou vice-versa. Aliás, esse é o tipo de história para a qual eu adoraria ver uma continuidade televisiva, mesmo pelas mãos de outro autor. Não sei se é possível, mas fica aí a dica, Netflix. ;p 

E você, leu ou viu O Gambito da Rainha? Joga xadrez e curtiu as partidas narradas na história? Conte aqui nos comentários!

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