O que é a jornada do herói?

Você já teve a sensação de ler a mesma história várias e várias vezes, mudando apenas os personagens? Talvez essa impressão seja fundamentada por uma teoria chamada “jornada do herói”.

Quem a desenvolveu foi o antropólogo Joseph Campbell, que notou uma rota narrativa comum para diversos mitos – dentre eles Buda, Moisés e Jesus Cristo. Em seus estudos, percebeu que tramas mais recentes também seguiam uma mesma estrutura, composta por doze etapas.

A jornada do herói, também chamada monomito, é utilizada, nem sempre de maneira consciente, por escritores que querem organizar suas histórias. Por isso, a conceituação de Campbell é creditada academicamente e ensinada nas aulas de roteiro, storytelling e literatura em geral.

Até mesmo cientistas políticos e estudiosos de marketing se debruçam sobre a teoria para criar narrativas críveis sobre pessoas reais que precisam convencer pelas surpresas da sua história. Qualquer semelhança com as campanhas eleitorais não é mera coincidência.

Fato curioso sobre o que vamos falar a seguir: Campbell tinha como um de seus amigos ninguém menos que George Lucas, criador de Star Wars. Para essa narrativa épica – e extremamente lucrativa -, Lucas recorreu aos conhecimentos do amigo, que influenciou bastante para que a saga tivesse traços da jornada do herói. Campbell sugeriu, por exemplo, que Obi-Wan Kenobi morresse (não é spoiler se já tem mais de 10 anos) para que esse papel de mentor e mentorado entre o personagem e Luke Skywalker fizesse mais sentido ainda na estrutura do herói.

Os passos do monomito

Os doze estágios do herói, para Campbell, são:

1 – O mundo comum, onde o herói vive sua vida sem muitas novidades;

2 – O chamado da aventura, que é quando o problema ou desafio se apresenta oficialmente ao personagem;

3 – A recusa ao chamado, já que a vida está boa do jeito que está, e o herói não vê motivo forte o suficiente para se meter em um novo caminho;

4 – A ajuda sobrenatural, também chamada de encontro com o mentor, onde alguém ou algo de suma importância ao herói chama sua atenção para a urgência da decisão positiva;

5 – O cruzamento do primeiro portal, onde o herói abandona o mundo comum para se lançar no mundo especial (aventura) ou mágico;

6 – A barriga da baleia, que é quando o herói enfrenta os primeiros desafios e se vê frente a inimigos e aliados, aprendendo as regras da aventura ou do mundo em questão;

7 – A aproximação, quando o herói vence esse primeiro desafio;

8 – A provação traumática, que é o obstáculo ou crise de maior impacto na vida do herói dentro da história. Essa provação difícil pode ser questão de vida ou morte;

9 – A recompensa, que é o prêmio ganho por enfrentar a dura provação. Geralmente, vem através do vencimento dos medos e da descoberta de novas forças;

10 – O caminho de volta, que é o retorno do herói para seu mundo, sua vida normal;

11 – A ressurreição do herói, em um novo teste de enfrentamento da morte e de utilização de tudo o que foi aprendido na etapa da recompensa;

12 – O retorno com o elixir, que nada mais é do que o retorno definitivo com a recompensa, ferramenta que vai ajudar a todos no mundo em que o herói vivia antes de sair para sua aventura.

De acordo com Campbell, ao passar por todas essas etapas, quase que necessariamente nessa ordem, tem-se uma narrativa completa.

O segredo, para os escritores, é descobrir qual é a melhor história a ser contada dentro dessa estrutura. Muitas coisas podem levar o herói a se aventurar em uma jornada; mas fato é que, sem jornada, dificilmente criaremos um herói.

A Jornada do Herói na prática

Como foi dito ali em cima, muitas narrativas com as quais nos deparamos diariamente, da Bíblia a 50 Tons de Cinza, tem como estrutura a Jornada do Herói. Para checar se a obra em questão se encaixa, pegue o conto, livro, roteiro, campanha em questão e destrinche-o por entre os estágios de Campbell.

Para ilustrar uma tentativa dessas, vou encaixar na Jornada do Herói “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, de Douglas Adams, que narra a aventura do jovem inglês Arthur Dent.

Contudo, não vou contar até o fim para não estragar a surpresa de quem ainda não leu esse clássico (honestamente, não sei em que planeta você vive!).

De acordo com Campbell, até Norman Bates é um “herói” – porque “herói” não é só o que conhecemos de Marvel e DC.

Mundo comum: Arthur Dent é um homem comum na casa dos 20 e poucos anos, que não tem nada de extraordinário.

Chamado da aventura: um dia, enquanto está deitado em seu jardim para impedir que sua casa fosse demolida, tem seus pensamentos interrompidos por um amigo, Ford Prefect, que tem algo muito urgente a lhe falar: o planeta seria destruído.

Recusa ao chamado: Arthur Dent, obviamente, diz que não vai sair de onde está. A mensagem de Ford não faz sentido.

Ajuda sobrenatural: Ford Prefect confessa a Arthur Dent que é um alienígena vivendo há anos na Inglaterra, mas que agora não há mais tempo. O planeta seria destruído e a única chance que Arthur teria de se salvar é se ir embora com ele.

Cruzamento do primeiro portal: da janela de uma nave alienígena, Arthur Dent vê a Terra ser destruída.

A partir daqui, a jornada do herói do livro vira spoiler pra quem não a conhece, mas se torna bem clara para quem já está familiarizado com a história.

Douglas Adams não tinha essa estrutura decorada quando começou a escrever a história, o que mostra que a jornada do herói é, de fato, uma constante no universo literário.

 

Você consegue se lembrar de uma obra que seja facilmente destrinchada pelos doze passos do monomito? Se quiser fazer o exercício, vai perceber que a maior parte dos livros que você leu até hoje, ou dos filmes que viu, ou das séries que segue, são o looping da jornada do herói.

Entender esse conceito é imprescindível para escritores que querem emanar verdade em sua atividade, mas também é útil para os leitores. Afinal, é sempre bom saber os passos de uma jornada completa – e as características de um “herói” de verdade – antes de sair chamando qualquer pessoa por aí de mito. 😉

 

Quer aprender mais sobre jornada do herói?

Nada melhor que seguir o mestre. 🙂 Comprando a obra de Joseph Campbell pelo link abaixo você ajuda o Literama a ganhar um dinheirinho.

Deixe um comentário

Assine a newsletter!

Deixe seu e-mail e você receberá o Literama em sua caixa de entrada!