Os perigos do plágio

Pegar o que não é seu e atribuir seu nome a isso é um atestado de incapacidade que pode dar cadeia.

Em 2005, no segundo semestre da faculdade de Jornalismo, o professor passou um trabalho desafiador: construir um jornal de bairro usando as técnicas que havíamos aprendido até então.

Meu grupo era formado por quatro pessoas. Chamarei uma delas de Joaninha.

Um dia antes de entregarmos o trabalho, reunimos todo o material por e-mail. Eis que à noite, no intervalo, um membro de grupo confidencia:

– Laís, vamos ter que reescrever a parte da Joaninha no trabalho.

– Por que?

– Porque a dela foi toda copiada de uma revista. É plágio.

Apesar de já ter ouvido a palavra antes, essa foi a primeira vez em que entrei, diretamente, em contato com ela. Infelizmente, não seria a única.

Em 2017, orientei artigos científicos de MBA e pude constatar que o plágio universitário ainda vive. Contudo, poucas são as pessoas que se dão conta de que estão cometendo um crime, previsto na lei do Direito Autoral (artigo 184 do Código Penal).

Boa parte dos alunos acredita estar “pegando emprestado” alguns pensamentos originais para compor seu produto acadêmico. Alguns veem como pura ignorância, mas eu vejo como cara de pau.

Pegar o que não é seu e atribuir seu nome a isso é um atestado de incapacidade que dá cadeia. A pena para o artigo 184 pode ir de três meses a um ano de detenção.

A punição do Estado, contudo, é o menor dos perigos do plágio. Na minha opinião, o real problema é não aprender nada com a oportunidade que lhe foi dada.

Minha mãe tem uma frase que diz: “você aprende pelo amor ou pela dor”, O plágio é uma forma de aprender pela dor.

Na história que começa esse artigo, a amiga que detectou o plágio, e reescreveu a matéria, tem uma boa carreira em comunicação. Joaninha jamais trabalhou com jornalismo.

Se você me perguntar, não acredito em coincidências.

O plágio na literatura

O livro “Roube Como um Artista”, de Austin Kleon, encoraja autores – e, porque não, estudantes – a roubar referências para dar vida às próprias criações.

Contudo, como vimos nesse texto aqui, roubar inspiração de quem nos alimenta intelectualmente é bem diferente de plagiar suas obras. Para Kleon, “roubar” é o ato de se apossar de elementos pré-existentes para lapidá-los em busca de algo inédito.

Já o plágio é só plágio, mesmo.

Basta dar um Google para constatar a existência de diversas polêmicas envolvendo escritores famosos, como J.K. Rowling (Harry Potter), Dan Brown (O Código da Vinci) e Paulo Coelho sobre esse assunto. Não cheguei a fazer leituras comparativas entre os “originais” e os “plágios”, mas é preciso ter parcimônia quando usamos o segundo termo.

Veja bem: não quero defender ninguém que tenha cometido crimes, mas diferenciar a inspiração de uma cópia é relativamente fácil. A cópia talvez não seja escrita ipsis literis, mas basta ser atento ao que se lê para ver que ela está lá, com todos os adornos de um plágio.

Uma história que me incomoda muito diz respeito ao filme As Aventuras de Pi, de 2012. Tanto que nunca cheguei a vê-lo. O filme é baseado no livro Life of Pi, do canadense Yann Martel, ganhador do prêmio Booker de 2002.

Acontece que, à época, jornalistas contataram o escritor brasileiro Moacir Scliar, falecido em 2011, para dizer que a obra vencedora se parecia muito com seu livro Max e os Felinos, de 1981. Martel havia dito que se inspirou no brasileiro através de uma crítica de jornal, e não da leitura da história.

Segundo o próprio Scliar, Martel disse que “quis aproveitar uma boa ideia estragada por um mau escritor brasileiro” – e, assim, escreveu Life of Pi.

O autor gaúcho nunca quis processar o colega canadense, mas peguei aquele rancinho básico e nunca me interessei, de fato, pela obra baseada em outra obra.

(Porém, confesso que os ensinamentos de Austin Kleon e a leitura de toda a situação talvez tenham aberto alguma janela para essa possibilidade no futuro.)

Dicas para não cometer plágio

A primeira e mais banal delas é: não copie e cole dos outros para fingir que é seu. Só isso já vai te evitar muitos problemas.

As outras, que acredito servir tanto para estudantes quanto escritores, blogueiros, redatores, etc., são:

  1. Veja o material lido como fonte de pesquisa, e não como algo a ser reutilizado. Você tem a chance de beber dessa fonte para criar algo novo;
  2. Sempre que a ideia original soar melhor do que sua própria, não se esqueça de dar os créditos a quem a concebeu;
  3. Toda ideia que não é sua deve estar em seus textos entre aspas. Isso é muito importante, principalmente quando não há a intenção de plágio. Nem todos os leitores do seu produto final vão saber o que é seu e o que não é, portanto, é melhor situá-los.
  4. Em uma banca universitária, por exemplo, não existe a desculpa do “esqueci de colocar aspas”. Qualquer rastro de plágio pode servir como argumento para a cassação de diplomas;
  5. Ao fazer um trabalho ou texto, leve para o caderno ou computador seus valores pessoais. Se sentir que plagiar é errado, e que nenhum sucesso no mundo vale o peso na consciência, você está no caminho certo. Continue a seguir por ele;
  6. Acredito no erro honesto, no “plágio acidental”, aquele em que nos esquecemos de quem disse tal coisa que escrevemos no trabalho ou texto. Contudo, boas intenções não validam erros. Se você realmente não se lembra quem é o dono de um pensamento original, e jogar no Google não for o suficiente, deixe de lado a linha tortuosa de raciocínio;
  7. Reescrevê-la com suas palavras, criando um material inédito, também funciona.

Espero que essas dicas te ajudem e abram seu coração para a importância da não-violação de direitos autorais.

Só quem ralou para escrever, desenhar, roteirizar, pintar, editar, enfim, criar algo, sabe o trabalho que teve. Esse esforço deve ser respeitado e preservado. Além disso, tirar vantagem sobre o que outros fazem é desonesto, para dizer o mínimo.

Se você não vê problemas nisso, torço para que tenha outros grandes problemas pela frente.

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