Outros jeitos de ler Rupi Kaur

Li o livro de Rupi Kaur em 40 minutos, antes de dormir. Sério. Não porque seja curto ou eu estivesse com pressa de acabar. “Outros jeitos de usar a boca” é um livro minimalista, mas envolvente o suficiente para que você não queira parar, assim, de repente.

Ou pelo menos foi essa a impressão que eu tive.

Sentei na cama às 2 da manhã, e o silêncio da madrugada pareceu tornar tudo ainda mais intenso. Rupi escreve de um jeito tão simples e forte que chega a doer.

Eu já acompanhava a escritora indiana pelo Instagram, e já gostava da sutileza dela nas entrelinhas. Mas não esperava que esse livro, em particular, fosse tão… cru.

Na verdade, eu acabei comprando depois de ler várias críticas ao conteúdo. Diziam que era perda de tempo. Que o livro não valia todo esse barulho (só no Brasil, em 2015, Rupi vendeu 1 milhão de cópias). Que ela era muito simples para ser considerada poetisa. Valeu, haters: tudo isso só aguçou a minha curiosidade, e eu quis tirar as minhas próprias conclusões.

Como disse, não esperava encontrar algo tão cru. No sentido que as primeiras páginas já encheram meus olhos d’água. Rupi vai do estupro e da violência familiar ao empoderamento feminino com força e delicadeza.

É um livro que dói – se você é mulher e sabe o que é ter o seu corpo violado.

É um livro que dói – se você já amou com todo o seu coração alguém que te fazia sentir e ser menos.

É um livro que dói – se você tem ou teve uma dura relação com o seu pai.

É um livro que dói – se você já julgou outras mulheres, vendo-as como inimigas, e se está em constante guerra com o seu corpo, com as suas curvas, com as suas capacidades.

Rupi consegue transmutar entre várias facetas: ora é doce, ora sensual. Ora é mãe, ora é filha. Ora é algoz, ora é vítima.

Talvez por me identificar com suas dores – de estupro e relacionamento abusivo -, talvez por ter me calado e sentido na pele o silêncio imposto apenas por ser mulher, é que eu tenha amado o livro. Sabe como é: nós amamos histórias que nos fazem sentir parte. E mesmo em parágrafos curtos, Rupi contou, por diversas vezes, histórias da minha vida.

Me identifico com ela porque decretei há alguns anos que a escrita era a minha forma de não morrer. E, lendo-a, percebi que para ela as palavras funcionam assim também.

Coisa de gente pra lá de sensível.

“Outros jeitos de usar a boca” é um livro rápido de ler, mas difícil de engolir. Talvez, se você não passou por nada do que ela descreve, a coisa te pareça óbvia demais ou até mesmo estúpida. Talvez.

Porque você provavelmente conhece alguma mulher que viveu momentos terríveis. E porque, de dores humanas e existenciais, eu diria, pretensiosa, que entendemos todos.

 

Sobre a autora

Paty Cozer é profissional de Letras que apostou tudo no universo freelancer para trabalhar de casa e morar perto da praia. Revisora de textos e produtora de conteúdo que se divide entre escrever, caçar framboesa e se apaixonar por Floripa.

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