Reflexão sobre religião e direitos civis*

Sou mineira. Natural de uma cidade histórica, muito conhecida por suas igrejas cheias de pompa e circunstância, que esbanjam riqueza — e beleza, sim, pois são patrimônios que chegam perto da melhor definição de “maravilhoso”.

Na cidade histórica tenho uma família católica. Passei minha juventude sob a asa do catecismo. Tenho todos os sacramentos até a crisma. Falta pra mim matrimônio e unção dos enfermos (porque deixei a ordem de lado, em todos os sentidos da palavra). Já fui catequista também, para crianças com seis anos de idade.

Da adolescência para a vida adulta, fiz algumas escolhas que alguns papas não aprovariam. Parei de frequentar a igreja propriamente dita. Entro em uma delas só em caso de casamento de amigos e percebo que essa instituição não representa nada à maioria dos noivos. Muitos só querem curtir a pompa e circunstância. Quando lá dentro, não costumava me furtar ao sinal da cruz e ao pai nosso. Não me esquecia de onde vim. Hoje, não mais acredito.

Outra escolha foi confessar tudo nas redes sociais, ao invés de fazer isso com um padre, em um cantinho da sacristia (sem ofensas). A única vez na minha vida que fiquei cara a cara com um homem de Deus dessa forma foi antes da minha Eucaristia. Depois, só confissões comunitárias — ou nada secretas, quando alguém me pedia uma opinião que acaba ofendendo aqui e acolá.

Fiz escolhas que não agradam à maioria dos católicos, então resolvi viver a religião da minha maneira, sendo ela nenhuma religião. Respeito todas, mas me sinto livre o suficiente para admitir que não me sinto representada por nada, nem ninguém, além de mim mesma.

Mas, em tempos como esses, é preciso relembrar algumas coisas que se aprende na escola dominical. O primeiro livrinho do catecismo me ensinou, por exemplo, que Jesus é nosso amigo. E ele não quer baderna, confusão ou gritaria. Ele quer um mundo de paz e amor. O que hoje é considerado baderna, confusão ou gritaria entre as pessoas de diferentes credos só acontece porque não vivemos em um mundo de paz e amor.

Também aprendi que Jesus foi crucificado por pessoas intolerantes, foi chamado de louco, chocou a sociedade do seu tempo, foi traído — e sabia disso, mas não julgou e nem condenou seu traidor –, morreu crucificado sob o governo de um homem que lavou suas mãos sob a sentença, pois essa tinha sido uma decisão do povo. Ressuscitou depois de três dias. Dizem por aí que ele está prestes a voltar de novo, mas não sei, não. Ao contrário dessa figura extremamente pacífica e tolerante, eu, no lugar dele, teria uma preguiça enorme de retornar e lidar com o mundo de hoje.

Mineira, de família tradicional e católica, que fez o catecismo e estaria a dois sacramentos do reino dos céus, se não o tivesse ignorado, o que eu levo dessa religião não é a missa de domingo, onde as pessoas se sentam durante uma hora, tomam a hóstia, abraçam seus irmãos e, depois, falam mal de todos eles pelas costas.

Não é, também, a bandeira de quem eu acho que tenha o direito de se casar ou não, pois Jesus disse: “a César o que é de César; a Deus o que é de Deus”. Isso significa que ao Estado deve ser dada toda a liberdade de decidir sobre a vida civil de seus cidadãos, pois aos olhos de Deus tudo o que é amor verdadeiro passará e será pleno.

Não levo a ideia de que há um velhinho me esperando para me julgar quando eu morrer, mas vivo cada dia sob o ideal de ser bondosa, perdoar, pedir perdão ao magoar, amar ao próximo como a mim mesma, honrar meus pais e família, não roubar, não matar e não levantar falso testemunho.

[Inclusive, se esse velhinho existir mesmo, a única conta que tenho que acertar com ele no juízo final é dizer muito seu nome em vão. Mesmo sem acreditar, falo “pelo amor de deus” pra tudo, inclusive, e principalmente, quando estou bêbada.]

O que levo da religião que aprendi, mesmo sem poder escolhê-la e sem vivê-la na atualidade, é que, ao não ser capaz de amar ao próximo, às vezes tomada pela raiva e pela descrença na humanidade (acontece muito ao ler o jornal do dia ou ver o noticiário da noite), eu ainda possa respeitar e entender que todos têm uma história. Que todos merecem meu perdão ao me magoar, mesmo sem eu pedir. Que todos merecem meu pedido de perdão quando eu fizer entristecer. Que eu esteja sempre atenta a tudo e a todos, pronta quando for chamada, ou tocada, a ajudar alguém.

De sangue, mesmo, eu só tenho um irmão. Mas de jornada, até a última vez que eu contei, são 6.999.999.999. E todos merecem as coisas boas que eu tenho a oferecer.

Hoje, o que eu tenho a oferecer é esse testemunho, a palavra de que você ainda pode perdoar, se sentiu-se ofendido, e ainda pode pedir perdão, se fez ofender. Não importa de que lado você está, em qualquer discussão, as regras são universais. Se não se sente capaz de amar seu próximo em plenitude, como pediu seu Senhor e Salvador, no seio da sua religião, tolere, respeite e, por mais ofendido que possa se sentir, perdoe.

Ao ler todas as manifestações de ódio e de carinho sobre a Parada Gay 2015, ano em que originalmente escrevi esse texto, o que vinha à minha mente era essa música de Antônio Marcos, que eu não ouvi na missa e nem no catecismo. Foi pelas estradas da vida, mesmo, dessas que você tem certeza que dão sempre no destino certo, mesmo quando as curvas são bem tortas.

Fica para a reflexão e interpretação de cada um – ainda mais porque, em 2019, ela ainda é muito atual e necessária:

“QUEM DÁ MAIS” (Antônio Marcos)

Eu quero me ver em 1996
Pois eu quero saber como vão ser as coisas por lá
Eu preciso me ver em 1996
E dizer sim ou não aos processos de vida de lá
Outro dia eu sonhei que estava numa arena gigante
Era eu o mais raro objeto vendido em leilão
Gargalhadas soavam por toda essa arena mercante
E eu era um palhaço sem graça vendido em leilão

E eu olhava tudo calado
E eu levava fé nessa mão
E eu ouvia os preços gritados
E eu calava o meu coração

Quem dá mais por um cara que ousou acreditar nos seus
Quem dá mais por um homem que insiste na palavra Deus
Quem dá mais por um louco que discorda do computador
Quem dá mais por um velho ultrapassado que ainda crê no amor

Fui vendido afinal como tudo no grande mercado
Mas meu medo acabou quando alguém me tocando falou:
Este povo um dia já foi por meu pai perdoado
E eu também fui vendido, pregado e nada mudou

*Esse texto foi originalmente escrito em 8 de junho de 2015 para minha conta no Medium.

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