Seja FODA: mesmo?

Essa é uma resenha um pouco diferente das que já fiz até aqui, porque ela não é favorável ao livro lido. Contudo, quero começar o texto já deixando claro o seguinte: eu não sou ninguém na fila do pão para te dizer o que você deve ou não deve ler.

Às vezes, um livro que me marcou profundamente pode nem te fazer cosquinhas, ou um que te deu a maior alegria não me comoveu nem um pouco. Acontece. Por isso, o que farei hoje não é te dar ou não uma dica de leitura, e sim apontar porque o livro Seja Foda, do Caio Carneiro, não me pareceu, nem um pouco, com um tutorial real/oficial de como ser foda.

Mesmo porque, verdade seja dita, depois de ler A Sutil Arte de Ligar o F*da-se, do qual falamos nesse texto, as coisas ficam meio complicadas para outras figuras da não-ficção que queiram colocar um palavrão no título.

Mas vamos lá.

O livro Seja Foda me pareceu querer nos motivar a perseguir os sonhos, não importa quais sejam os obstáculos, porque a persistência nos dá grandes chances de alcance. É escrito por um empreendedor que virou YouTuber de sucesso, ou o contrário, não sei ao certo, e começou sua carreira através de algo que identifiquei como marketing multinível (ele não cita marcas no livro).

Embora seja fã desse tipo de relato, essa não foi uma leitura que me emocionou. Na realidade, me tocou pouquíssimas vezes. Literalmente, duas. Achei o livro pouco envolvente, mal escrito e condescendente à exaustão. O autor se repete inúmeras vezes em uma mesma colocação, mas sem causar o efeito do impacto da repetição. Era, apenas, repetição.

Isso não era necessário, mesmo porque a responsabilidade da clareza em uma leitura reside em dois fatores: na linguagem do livro e no repertório do leitor. Como disse Mário Quintana,

quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro”.

A repetição de Caio fez parecer como se ele tivesse medo de se deparar com esse questionamento.

Mas, novamente, não estou em posição de julgar se o livro deve ou não ser lido. Sou fã de não-ficção, gosto de algumas peças de autoajuda e é por isso que resolvi colocar luz no que não gostei dentro dessa obra.

Um ponto crítico é que – quem me conhece sabe – rabisco todos os meus livros. A diagramação de Seja Foda o desfavoreceu muito nesse sentido, pois comecei a escrever nos – numerosos – pedaços de página em branco o que eu não estava gostando no livro, o que o tornou mais chato. Desculpa, livro. Talvez, se tivesse uma diagramação diferente, eu não teria tanto espaço para descontar no papel minha insatisfação com a leitura.

Ou seja, eu também escrevi esse livro

Obviamente, de maneira figurativa.

E, portanto, acho que a melhor forma de expor meus pensamentos sobre Seja Foda é colocando, aqui, o que eu escrevi nas páginas do livro.

Se você o tiver em sua estante, pode seguir minhas notas pelo número das páginas.

Se não, leia objetivando as anotações e tire suas conclusões ao final do texto.

 

Agradecimentos: não curti. Ele não agradeceu a ninguém nominalmente, me distanciando da pessoalidade que é de bom tom ser transmitida por um autor de não-ficção.

Página 22: (sobre a diferença entre pessoa empolgada e motivada): que monte de baboseira! Uma pessoa empolgada faz o mesmo que uma motivada. Gastou uma página inteira quase que para discutir etimologia. Começo a sentir que esse livro será inútil. Desculpa, livro.

Página 26: “O indicador universal de que você está indo para frente são os seus resultados” – isso é o máximo do óbvio que você poderia chegar? Ou ainda tem mais?

Página 28: a primeira frase repete o que ele disse na página anterior.

Página 31: WTF? Já falou isso, carai.

(Aqui cabe um parêntese: desculpe-me o linguajar, mas eu estava realmente frustrada nesse ponto da trajetória)

Página 32: 32 páginas de NADA, em que o autor tenta me convencer de que é a melhor pessoa para me ensinar a ser FODA. A diagramação é horrível, um monte de frases clichê e desespero para mostrar que sabe nos ajudar, mas ainda não falou como vai fazer isso.

Página 55: muito piegas esse autor. Me sinto como se estivesse tentando ser convencida de alguma inverdade que ele conta.

Página 69: ele ainda não conseguiu me convencer que empreender não é sobre o dinheiro. Continua parecendo um riquinho que resolveu fazer um livro porque se tornou popular na internet. Não consigo ver humildade, não há conexão. Ele ainda não me contou uma única verdade.

Página 73: ainda com muitas repetições (condescendência??), um pouco mal escrito. Parece transcrição de palestra, ou um livro feito na pressa. Acaba de me ocorrer que, se a diagramação não fosse tão ruim, eu não teria espaço para reclamar tanto. ;p

Página 77: “costumo dizer que é muito mais fácil ter um filho que ressuscitar um morto” – mas que porra é essa?!

Página 79: FINALMENTE! Uma verdade para me conectar! Ele conta da reunião fracassada e como tirou dela um exemplo de sucesso. Gostei de ver como ele encarou a situação e senti a dor de ele ter tido que olhar pelo lado positivo. Há luz no fim do túnel?

Página 90: repetição da página anterior.

Página 143: já falou isso! Tá perdendo a mão de novo!

Página 149: quando ele fala a verdade, eu me reconecto. Aconteceu, de novo, nessa página. É a segunda vez durante a leitura.

Página 151: dois erros de vírgula no mesmo parágrafo, e só marquei porque agora me irritou profundamente. Não sei qual editora é essa, mas ela precisa, urgentemente, de um revisor.

Página 161: o que ele diz nessa página não faz nenhum sentido. É contraditório em seus múltiplos conceitos. A falta de sucesso também depende de fatores externos.

Bom, essas foram as minhas impressões.

Como você pode ver, não foram as melhores possíveis. Mas, se vale de algo, consegui salvar seis páginas de destaques de texto. Ele fala, em algumas partes, sobre liderança e sobre encontrar o propósito, ambos  assuntos urgentes para quem realmente sonha empreender.

No mais, diferentemente de outros livros que explodem a minha cabeça, Seja Foda não mudou em nada minha vida. Isso não quer dizer, no entanto, que não possa mudar a sua.

Se você já leu, me conta, nos comentários, o que achou dela?

FODA x FINE

Apenas a título de curiosidade, resolvi comparar dois acrônimos que ouvi pela primeira vez nos últimos dois anos: FODA, por Caio Carneiro, e FINE, aparentemente por Aerosmith.

FODA significa

Feliz

Otimista

Determinado

Abundante

FINE significa

Fucked up (fodido)

Insecure (inseguro)

Neurotic (neurótico)

Emotional (emotivo)

Quando ouvi o acrônimo FINE, em uma conversa com um treinador de CEOs dos Estados Unidos (viu? Eu curto essas não-ficções para empreendedores, até na vida real), foi em um contexto que ressoou bem mais com o que senti, e sinto, ao fazer negócios nesse mundo cão.

Portanto, continuo sendo FINE, ao invés de FODA. E, por mim, tá tranquilo.

 

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9 Comentários
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    Lari at 31 de janeiro de 2019 Responder

    Ainda no início, quando você mencionou as repetições, pensei que o livro pudesse ter sido escrito como a transcrição de uma palestra. Como se colocando em palavras escritas, sem muita adequação, o jeito de falar característico do autor. Pelo visto, é isso mesmo…

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      Lais Menini at 31 de janeiro de 2019 Responder

      Foi a impressão que eu tive, Lari! Mas me incomodou profundamente a falta de cuidado até mesmo com regrinhas básicas de português. Faltou uma revisão criteriosa ali.

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    Lethícia at 19 de agosto de 2019 Responder

    Basicamente o mesmo pensamento que o meu ( ainda bem) alguns amigos me disseram: “- Esse livro é incrível” E pensei: poxa, deve ser bom mesmo. Mas n foi. Comecei a ler e achei muito chata as repetições e os clichês que ela relata inúmeras vezes. Parei, deixei ele na estante uns dias ( meses, na verdade) e resolvi dar uma segunda chance, comecei a ler, a ler, a ler e já achando chato… Fui passando as páginas e procurando algo que realme te despartasse,mas n deu. Desisti de ler, passei as páginas e só. Não ajudou muito, e nada que uma pessoa de bom senso não soubesse, um livro para empreendedor um tanto fraco. Não tem técnicas, não mostra um meio claro para quem realmente quer “despertar” Como empreendedor. É isto.

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    Lethícia at 19 de agosto de 2019 Responder

    Basicamente o mesmo pensamento que o meu ( ainda bem) alguns amigos me disseram: “- Esse livro é incrível” E pensei: poxa, deve ser bom mesmo. Mas n foi. Comecei a ler e achei muito chata as repetições e os clichês que ele relata inúmeras vezes. Parei, deixei ele na estante uns dias ( meses, na verdade) e resolvi dar uma segunda chance, comecei a ler, a ler, a ler e já achando chato… Fui passando as páginas e procurando algo que realme te despartasse,mas n deu. Desisti de ler, passei as páginas e só. Não ajudou muito, e nada que uma pessoa de bom senso não soubesse, um livro para empreendedor um tanto fraco. Não tem técnicas, não mostra um meio claro para quem realmente quer “despertar” Como empreendedor. É isto.

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      Lais Menini at 20 de agosto de 2019 Responder

      Pois é, Lethícia! O mesmo pensamento que tive. Comprei para ver o que era e não indico.

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    Julie Schiavo at 28 de outubro de 2019 Responder

    Super concordo com o que você escreveu aqui, Lais. Como boa leitora de longa data, no dia que comprei esse livro eu cometi o pior dos crimes literários; acabei comprando por “julgar” previamente o livro pela capa! Sim. Um tremendo de um erro, visto que o título “Seja Foda” é bem sugestivo, a primeira vista, e que invoca algo que não acontece de fato. Mas fiquei feliz de encontrar aqui, de verdade, opiniões que estão de acordo com a minha.

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      Lais Menini at 29 de outubro de 2019 Responder

      Tamo junto, Julie!
      E você viu que saiu uma sequência, né?
      Compraremos? ;p

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    Igor Ferrari Streit at 11 de novembro de 2019 Responder

    Lais, senti a mesma coisa! um livro bobo, prolixo, repetitivo e um tanto quando pobre de conteúdo. Ainda bem que ganhei de presente e não joguei meu dinheiro fora com isso. Claramente estamos diante de uma geração empobrecida intelectualmente e com uma grande necessidade de preenchimento emocional através de publicações motivacionais e vídeos fúteis publicados no youtube. Enfim, não recomento este livro.

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