Storytelling e o ciclo de expectativas

storytelling e o ciclo de expectativas

Desde o instante em que você começa a praticar o storytelling (jeito gourmet de falar “contar uma história”), o público começa a esperar coisas. Se puder trabalhar com essas expectativas, as pessoas permanecerão com você durante toda a sua narrativa.

Vamos imaginar uma história que começa com alguém cortando cenouras.

O público, agora, espera saber quem está cortando cenouras, onde ela está e como chegou até lá. O leitor está fazendo suposições, pensando no futuro e preenchendo as lacunas da sua história.

Fato que o público ama quando suas suposições estão alinhadas com o que o storyteller está dizendo. Se quiser preencher essa expectativa, deixe-o dizer: “eu sabia!”. Contudo, a maneira como você ajuda o público, nesse caso, é sendo óbvio, não original, com a progressão da sua história. 

Ser óbvio está dentro do círculo da confiança, o reino da possibilidade. Óbvio é plausível. Ser original estraga a história e ameaça seu relacionamento com o público. 

Não confunda ser original com criar uma história original. Aqui, estamos falando de ideias originais, no sentido de inéditas, que não estão conectadas à sua história até agora.

Aviso: Uma ideia original pode resultar em risos quando o público fica surpreso e se vê perdido.

Cortar cenouras pode levar a um relacionamento óbvio, como alguém em sua casa, prestes a fazer a janta. Ou, talvez, você pode encontrar alunos na escola de culinária ou voluntários fazendo sopa em uma cozinha popular. Esses seriam cenários óbvios.

O território original dessa história? Imagine bombeiros em um prédio em chamas, ou domadores de leões no circo. Essas pessoas realmente precisam cortar cenouras? 

Você pode até encontrar um argumento para isso, mas terá que trabalhar duro para justificá-lo. Nesse caminho, vai se arriscar a esquecer as cenouras ou, até, a perder a atenção do seu público. 

Por isso, se as cenouras não são importantes para o desenrolar da narrativa, você não deve apresentá-las, em primeiro lugar.

No storytelling, cada ação, e não apenas as suas palavras, resulta em mais expectativas. Por isso, é crucial verificar, a cada ponto de avanço, se você está sendo óbvio, no sentido de plausível e confiável. Se existem sentimentos, cenários ou elementos, certifique-se de que tudo isso se baseia no que está no círculo da sua história e que cada coisa leva a algo.

Não conte nada que o seu leitor não precisa saber

Em Sobre a Escrita, Stephen King dá, como uma das primeiras lições, a dica: corte 10% do seu texto, no mínimo, quando estiver fazendo a revisão final. Isso é necessário porque, ao narrar, o próprio autor se perde em palavras, cenários ou elementos que não serão utilizados para a ideia final.

Cada vez que essas palavras “sobram” no storytelling, o escritor corre o maior risco de seu trabalho: perder a atenção de quem lê.

O que o mestre do terror nos diz, em sua obra sobre fazer obras, é que possamos manter a coerência a partir dos elementos que queremos dar ao público:

“A história é coerente? Se for, o que vai transformar coerência em música? Quais são os elementos recorrentes? Eles se entrelaçam e formam um tema? Em outras palavras, eu me pergunto: ‘do que se trata, Stevie?’ Também me pergunto: ‘O que posso fazer para tornar estas questões fundamentais ainda mais claras?’ O que quero, acima de tudo, é ressonância, algo que vai permanecer por mais algum tempo na mente (e no coração) do Leitor Constante depois que ele fechar o livro e colocá-lo de volta na estante”. (p. 183)

Assim, uma narrativa que começa com o corte de cenouras pode tomar qualquer rumo, desde que esse rumo faça total sentido para quem está seguindo a trajetória do sujeito principal. Uma boa história não é aquela que entrega o final que a pessoa quer, mas aquela que entrega tanto o caminho como a linha de chegada em que o leitor possa acreditar.

A principal expectativa que permeia um storytelling é ser surpreendido positivamente. Ou, no mínimo, chegar até o fim da história com uma sensação boa. E é essa expectativa que o ato de contar uma história deve suprir. De resto, tudo se ajeita.

*Esse artigo é uma versão traduzida do original, postado por Cory Mogk, aqui. O subtítulo sobre Stephen King é acréscimo da tradutora.

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