Tessa Young, a cena do lago e a descoberta de si

Por Cinthia Demaria, jornalista e psicanalista

Ao perguntarmos “qual é a cena de After que vem primeiro à cabeça?”, a do lago sempre estará lá como possível resposta para a maioria das pessoas, por vários motivos. Além de ter sido (realmente) o primeiro encontro de #Hessa, a cena dá o tom para toda a narrativa de Anna Todd. Considero que é a partir daí que o leitor se vê capturado a adentrar na leitura, para ver o que virá depois do despertar sexual de Tessa. A pulsão aparece pela primeira vez desvelada e então nos amarramos à Hardin junto a ela.

Anna nos convence, aí, que o que vem a seguir é uma história de amor, de enigma e de desejo.

Considero este capítulo o clímax do primeiro livro, mesmo que depois hajam vários desencontros e voltas. É na cena do lago que decidimos ouvir Tessa falar mais sobre o seu primeiro parceiro sexual para entender qual será o desenrolar disso para a sua própria história.

Quando decide ir ao tal “local misterioso”, Tessa permite-se adentrar em vários mundos e vê o desabrochar da sua personalidade em poucos instantes. Enquanto vai, automaticamente abdica de várias outras escolhas que já havia feito na vida. A caminho do encontro conhecemos uma nova Tessa, que começa a se libertar de antigos hábitos: sai com um “desconhecido”, faz algo que a mãe e o namorado reprovariam, abre mão de uma agenda que possivelmente estaria ocupada com estudos e deixa para trás aquela garota que chegou à faculdade há poucos dias. Ao entrar no carro com Hardin não é apenas ele que ela vai encontrar: é ela mesma. Ela vai ao encontro de si, do seu desejo.

Essa é a cena do lago para Tessa: é a cena em que ela se conhece.

Freud explica Tessa

Tessa vive o que Freud chama do emblemático reaparecimento do estado de consciência do complexo de Édipo e o desligamento dos pais para o encontro de um objeto amoroso real externo.

O despertar da puberdade de Tessa é encontrada em Hardin, não em Noah. Portanto, o que faz o relacionamento com o primeiro namorado falhar não tem a ver com ele ser melhor ou pior que o outro, mas o que cada um desperta nela. O papel sexual, para Tessa, foi despertado por Hardin.

Podemos assim dizer que a escolha amorosa não é consciente. Há fatores externos determinantes, mas, mais uma vez, amamos no outro aquilo que ele desperta em nós, por uma questão narcísica humana.

Para Tessa, o lago é a descoberta de si, de que poderia fazer escolhas diferentes das da mãe e a do próprio corpo, do gozo sexual e do prazer oculto do não saber do outro. Como foi abordado no primeiro texto desta coluna, o que mantém Tessa no relacionamento é a pergunta “quem é Hardin Scott?” e, eu acrescentaria, “e o que ele quer de mim?”.

Defendo a ideia de que nomear o relacionamento #Hessa como abusivo, pura e simplesmente, é manter uma ideia (talvez até machista) de que quem o define é apenas Hardin. E não é. Há muita escolha e descoberta em jogo que faz Tessa gozar desta posição – não sem sofrimento, mas com um ponto pela descoberta que a mantém e a amadurece, encorajando-a até a impor o seu basta.

A cena do lago é, para mim, a descoberta de Tessa, a garota que passa a se encontrar. Conhecemos um Hardin que se confunde com essa ideia neste mesmo momento, pois percebe que amar a si próprio não seria o suficiente para mantê-la por perto. É nessa oscilação de encontros e desencontros entre si e em relação ao outro que vai fazer da história uma aventura irresistivelmente viciante.

 

(Re)comece pelo começo

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Sobre a autora

Jornalista por profissão há dez anos e psicóloga há quase três. Pesquisadora da área de Psicanálise e Cultura Digital, atua na clínica com jovens e adolescentes. No seu aniversário de 31 anos ganhou o livro After de uns amigos psicanalistas. Em um mês já tinha lido a série completa. E agora é só o Depois.

2 Comentários
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    Juliana at 8 de março de 2019 Responder

    Boa tarde, Cinthia. Tudo bem?

    Eu já li suas análises sobre After e muitas outras de diversas autoras a respeito da série de livros. Já tinha visto a capa do livro, mas nunca cheguei a ler. Até o momento que vi a notícia sobre o filme, então me despertou o interesse. Li o primeiro livro rapidamente, a leitura da Ana é gostosa e bem fluída.

    Mas, ao chegar no final do primeiro livro, fiquei surpresa não pela “ação” do Hardin e sim, pelas as provas apresentadas para provar tal ato. Comecei o segundo livro e parei, porque me senti bem incomodada com todas as idas e vindas.

    Na verdade, talvez seja o momento, vejo algumas semelhanças com um relacionamento próximo de uma amiga e que eu não aprovo muito, porque sei de tudo que acontece.

    Gostaria de achar alguém para conversar a respeito desses incômodos e tudo mais, não outra jovem leitora. Então, eu encontrei sua análise e vi que é jornalista e psicóloga, achei isso incrível e talvez a pessoa certa para conversar.

    Eu sinto esses incômodos e as vezes, me sinto mal lendo algumas cenas. Mas, também não consigo desistir totalmente da história. Tenho que admitir que é bem envolvente.

    Obrigada pela análise,

    Beijos…

    1. avatar image
      Cinthia at 8 de março de 2019 Responder

      Olá Juliana!

      Obrigada pelo feedback.
      Confesso que é a primeira crítica fundamentada que leio sobre as pessoas que não curtem After.

      É importante argumentar sobre isso e levantar essas questões que de fato inconcomodam na leitura, para trazê-las para a “vida real”.

      Muito legal você compartilhar isso.
      E sim, me coloco inteiramente à disposição para conversar sobre quaisquer assuntos da obra.

      Se quiser me escrever, sinta-se à vontade: cikademaria@gmail.com

      Um abraço!

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