Dica de leitura: As consequências do amor

Por Viviane Fontes

Foi por acaso que o livro As consequências do amor chegou às minhas mãos. Atravessando por um shopping de BH para cortar caminho, me deparei com uma feira de uma livraria e não resisti; entrei. Tenho dificuldades para “garimpar” livros e minhas compras sempre vem precedida por pesquisas antes de entrar numa livraria. Naquele dia, porém, tive mais paciência. A capa preta que mostrava apenas os olhos de uma mulher, envoltos em uma abaya, traje típico usado por mulheres na Arábia saudita, me chamou a atenção.

Não conhecia o autor, Sulaiman Addonia, que, a princípio, acreditei ser uma mulher. Mas minha curiosidade sobre a cultura muçulmana, em especial depois de ler os livros do afegão Khaled Hosseini, autor do livro O caçador de pipas, e O livreiro de Cabul, escrito por Asne Seierdstad, me despertou o desejo de entrar novamente em um mundo muito diferente do meu, que me provoca curiosidade, perplexidade, indignação, raiva, medo, esperança e muitos outros sentimentos ao imaginar que tanta brutalidade é real.

O livro As consequências do amor conta a história de Naser, um jovem eritreu que vive com o irmão mais novo e tio, como migrante na Arábia Saudita. Para viver no país, qualquer um que não seja saudita deve ter a permissão e patrocínio de um kafeel, um “padrinho” que tem plenos poderes sobre seu protegido. O kafeel tem a posse do passaporte de quem tem sua proteção e torna-se senhor absoluto da sua vida – podendo, inclusive, deportá-lo quando desejar.

Com apenas 15 anos, toda a ilusão de uma vida melhor, longe da guerra, começa a ruir quando o tio, que deveria zelar pela segurança e educação do sobrinho, começa a pensar apenas nos seus interesses e coloca Naser na primeira de muitas situações de abuso sexual. Para ter a garantia de permanecer no país o menino é enviado ao seu kafeel, que usa todo o seu poder para se satisfazer com seus protegidos.

A partir daí, Naser começa a entender como funcionam as relações de afeto em um país extremamente conservador, conduzido por homens de muito poder político e econômico, onde tudo é proibido sob a lei islâmica e as mulheres são escondidas e demonizadas. Ele foi abandonado pelo tio e ficou na mão de pessoas que se diziam amigas, mas que o violentaram.

É nas ruas de Al-Nuzla, na cidade de Jidá, que o jovem eritreu vê uma cidade em preto e branco. Trabalhando no lava jato de outro migrante, encontra na literatura, contrabandeada, a válvula de escape para sobreviver. Até que, um dia, um bilhete jogado aos seus pés muda completamente seu mundo.

Uma jovem mulher que inveja os homens pelo simples fato de que eles podem andar pelas ruas de Jidá se apaixona pelo rapaz. Sem saber que é sua amada, uma vez que todas usam a mesma roupa que as cobrem da cabeça aos pés, um dos bilhetes indica que a dona dos sapatos cor-de-rosa é a senhora do seu coração. Desde então, o mundo em preto e branco ganha cores e os bilhetes transformam sua rotina.

A possibilidade de viver um amor num ambiente tão hostil e censurado faz o casal criar alternativas inimagináveis. Os momentos de escapismo não impedem, porém, que a realidade continue castigando os jovens apaixonados.

Fiore, nome fictício que Naser dá à sua amada para preservá-la, vive isolada dentro de casa e vê o pai em uma busca incansável por um marido para ela. Ele, por sua vez está sob vigilância constante da polícia religiosa, uma vez que ignora o chamado para seguir a vida sob a tutela da religião. Encontra nas bebidas e drogas clandestinas, consumidas com os amigos, outra maneira de diminuir a dor causada pelo assédio e abuso sexual.

Ambos, consumidores apaixonados da literatura proibida no país, não entendem os motivos de dois jovens não poderem se amar livremente. São incapazes de aceitar a ideia da privação de viver uma vida plena e livre, onde possam fazer o que desejam, e questionam a ideia de restrições durante a vida para gozar do paraíso após a morte.

O mais bonito dessa história de amor é a cumplicidade de dois jovens que questionam a maneira de viver imposta por homens poderosos que abusam de crianças, pobres e mulheres.

Assim como Naser, Sulaiman, cuja mãe fugiu de uma guerra na Eritreia quando ele ainda era um bebê, descreve no livro as dificuldades de viver com tantas restrições. É possível identificar na obra todo o respeito e admiração do autor pelas mulheres, certamente por ter, na figura materna, a inspiração de uma mulher forte e guerreira.

O livro não é o melhor que li sobre a cultura e a vida das pessoas em países que têm o islamismo como base religiosa e política, mas vale a leitura. É a observação de um indivíduo que migrou para o país saudita fugindo de uma guerra e que hoje vive na Europa. O olhar masculino sobre as necessidades femininas com tanta ternura e empatia é o que mais me tocou. Espero que outros homens mundo afora também tenham a capacidade de enxergar e entender, de fato, os anseios de uma mulher.

 

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Sobre a autora

Viviane Fontes é graduada em comunicação e pós graduada em comunicação organizacional. Apaixonada por cinema, curiosa e metida a interpretar o comportamento humano, lê com sensibilidade e escreve com paixão.

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