Dica de Leitura: O Último Reino

Por Viviane Fontes

O que fazer quando você ainda é uma criança de apenas nove anos e vê seu mundo mudar radicalmente? 

Num instante você está em casa com a família, protegido, alimentado, sendo educado e preparado para viver uma vida sossegada. No outro, perde tudo isso com a chegada de invasores que matam seu pai, seu irmão e te sequestram. Essa é a história de Uhtred, que começa no ano 866 d.C. no reino da Nortúmbria, Inglaterra.

O que parecia o fim era apenas o começo. 

Ao perder o irmão mais velho Uhtred, de 17 anos, Osbert se torna o único filho do ealdman Uhtred, por isso herdou o nome do irmão e do pai, que morrera em batalha contra os invasores dinamarqueses pouco depois. Nesse mesmo confronto, quando achava que teria o mesmo destino, o menino resolve lutar contra o grande guerreiro Ragnar, que fez dele, a princípio, seu escravo.

Vivendo sob a tutela de Ragnar, o pequeno Uhtred descobre que, apesar de perder o pai, o irmão, as terras onde vivia e todas as referências, existe um lado bom nos dinamarqueses. A convivência com o povo que vem de terras inférteis, e por isso invadem outros territórios, mostra ao menino que existem outras culturas e formas de viver a vida, bem diferentes da que ele conhecia.

Ele aprendeu que existem deuses poderosos como Odin e Thor, bem diferente do Deus cristão que o amigo e padre Beocca, com quem se encontraria ainda muitas vezes, tentava miseravelmente convencê-lo a seguir desde os tempos de Bebbanburg, sua casa na Nortúmbria. Aprendia também, apenas observando, as estratégias para se vencer uma batalha. 

Outra fonte de ensinamento, enquanto estava com os dinamarqueses, eram as histórias e conselhos do velho Ravn, pai de de Ragnar. Cego, tinha no pequeno Uhtred a pessoas ideal para descrever tudo que acontecia por onde passava.

Nos encontros com líderes nórdicos, o garoto contava ao velho, em detalhes, tudo o que via: como eram os lugares, onde estava cada pessoa, o que vestiam, suas expressões. Era assim que Ravn interpretava os fatos e mostrava ao jovem os erros e acertos que poderiam levar um exército ao sucesso e ao fracasso numa luta.

Enquanto crescia, se via perdido existencialmente. #QuemNunca? Afinal, ele é um inglês ou um dinamarquês? Ser livre com Ragnar ou se tornar um devoto cristão inglês? Lutar pela Inglaterra ou pelos dinamarqueses?

Com o tempo, Uhtred percebe que admira mais os dinamarqueses que guerreavam aos ingleses que rezavam e esperavam que seu Deus os ajudassem a derrotar os invasores que tomavam suas terras derramando muito sangue, queimando igrejas, matando monges e freiras, estuprando mulheres e escravizando os mais fracos. E entende porque os dinamarqueses conquistavam territórios com tanta facilidade. 

Assim, Uhtred imagina que nunca lutaria pela Inglaterra e decide ser um dinamarquês. Sob a vigilância e instrução do pai adotivo Ragnar, aos doze anos aprende a lutar e a caçar. E, mesmo sendo tratado, e visto ainda por muitos como filho de Ragnar, este deixava bem claro que Uhtred jamais substituiria seus filhos Ragnar, o Jovem, e Rorik.

Pouco depois, vem a primeira batalha e a primeira morte causada por suas mãos; um pouco desajeitada, mas com sucesso. Na mesma época, conhece uma grande companheira, a também inglesa Brida, que, como ele, adorava os invasores. Esse é o período em que descobre que o tio, irmão de seu pai, ainda desejando sua morte, havia mandado alguém para executá-lo. 

O menino Uhtred cresce e, pela segunda vez, perde a família. Aprende a se virar sozinho, vive sob a desconfiança de ingleses e de nórdicos, mas desenvolve habilidades para se manter vivo. Vira num jovem alto, forte e inteligente. Descobre que, mesmo com o título de nobre da Nortúmbria, não conseguiria ter aliados, seguidores, respeito e fortuna se não fizesse seu nome como guerreiro. 

É assim, jurando serviço ao rei Alfredo, líder do único reino ainda de pé diante dos avanços dos inimigos, que coloca em prática tudo que aprendera até então e começa sua saga como um guerreiro.

O primeiro livro das crônicas saxônicas conta a transformação do menino em homem. Violência, sexo e religião estão sempre em pauta durante o relato. O discurso religioso e as reflexões filosóficas acerca do tema, tanto do ponto de vista dos cristãos quanto dos pagãos, são recorrentes. E valem os questionamentos. 

Mas é interessante, do ponto de vista do leitor, desapegar de qualquer convicção dogmática que tenha sobre o tema e tentar entender as relações do homens. As diferenças culturais, o contato com o místico, o sagrado e o profano no século IX, além de questionamentos que ainda são oportunos na nossa sociedade séculos depois. 

Uhtred relata com detalhes suas aventuras, as batalhas, verdadeiras carnificinas banhadas com muito sangue e terror. É possível sentir medo, angústia, ansiedade e claustrofobia, sensações narradas dos grandes confrontos que deixavam um rastro de pavor e morte.

Além de ser uma leitura que te faz querer virar a página e descobrir o desfecho da saga, o mais legal em O Último Reino é saber que a narração é baseada em fatos históricos, como cita o autor ao fim do livro. Como em todo romance de sua autoria, Bernard Cornwell usa da licença poética para conduzir a narrativa através dos relatos de Uhtred. 

O Último Reino é o primeiro de uma série de dez livros escritos por Cornwell, que, juntos, contam a história de uma terra dividida em vários reinos saxões que viriam a se tornar a Inglaterra. Nele, acompanhamos o desenvolvimento de Uhtred, passando de menino a homem, e suas relações com invasores e ingleses.

O rei Alfredo, O Grande, foi o responsável pelo início dessa unificação do país. Um homem extremamente religioso, de saúde débil e grande estrategista, um personagem real como outros, inclusive alguns líderes dinamarqueses. 

Em breve, espero, as resenhas dos outros nove livros estarão por aqui. E, se você gosta de literatura, entretenimento e história, se jogar nessa narrativa é garantia de muito prazer. Mas, se quer ainda mais, boa notícia: as Crônicas Saxônicas viraram série e já tem três temporadas na Netflix. 

Se você se interessou por essa saga, saiba disso: destino é tudo!

 

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Sobre a autora

Viviane Fontes é graduada em comunicação e pós graduada em comunicação organizacional. Apaixonada por cinema, curiosa e metida a interpretar o comportamento humano, lê com sensibilidade e escreve com paixão.

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