O livro como instrumento de cura

Trabalho com marketing digital e sei que uma boa história sempre traz retorno efetivo aos negócios. Porém, se as marcas ainda não sabem como contar direitinho essas histórias, as pessoas sabem. É daí que nascem os “digital influencers” de que tanto ouvimos falar.

Tive o prazer de conhecer, recentemente, uma pessoa que atende aos requisitos de contadora de histórias brilhante que enche a internet de amor: Júlia Rocha. A Júlia é uma magnífica cantora de samba que, por sinal, também é médica do SUS. Ela cantou no The Voice Brasil, mas o que a deixou famosa na internet são seus posts sobre atendimentos clínicos, que demonstram a doçura de sua personalidade no trato com o ser humano.

Ser uma artista na alma – e não só do canto, mas também, e tanto quanto, da própria escrita – facilita o entendimento do que Júlia fala. Também proporciona sua abrangência. Mas não é só isso: mulher, negra e politicamente atuante, Júlia é um sopro de humanidade e delicadeza em um ambiente onde impera a certeza de que a pessoa com o estetoscópio, se não é deus, chega bem perto disso.

E por que falar de Júlia Rocha, cantora e médica, em um blog de literatura?

Porque um de seus posts mais famosos diz respeito exatamente a essa arte. Ao atender a um jovem negro e gay, que, mesmo com acompanhamento médico psiquiátrico e psicológico, continuava precisando de ajuda médica para entender seus temores e a razão de seus afetos. A ajuda médica estava lá para prescrever um dos melhores remédios para a enfermidade da alma: o livro.

A foto de seu receituário com livros de negros e negras que poderiam lhe ajudar a entender melhor seu papel na sociedade e como quebrar as barreiras do racismo estrutural repercutiu pelas redes sociais, e com razão. A ciência está aí para cuidar do corpo físico, a psicologia ajuda a elucidar conflitos da mente, mas às vezes é só o livro que dá a mão para o que está além de tudo isso.

Quando fui renovar a carteira de motorista esse ano, o médico falou que me viu lendo na sala de espera, perguntou qual obra era. Ficamos por quinze minutos conversando apenas sobre livros e sobre como eles podem melhorar a vida da gente.

Outro dia, no ônibus, um vendedor de bala muito criativo (comprei a bala mais pela propaganda do que pela própria bala) me viu com o livro no colo, a capa visível, e disse: “não sou muito de ler, mas esse livro aí eu li e entendi tudo”. Comentou até qual era sua personagem preferida da saga.

Considerada por muitos anos uma arte elitista, a literatura quebra cada vez mais paradigmas. Pessoas ditas cultas leem livros populares, a galera no chão de fábrica lê Nietzsche. Todos podem ler de Shakespeare a Conceição Evaristo, desde que o que está ali, escrito, lhes toque a alma.

Estou aqui pensando que mais médicos e médicas poderiam ser como Júlia Rocha: podiam cantar e receitar leituras. Não acho, e nem eles achariam, que um livro substitui um medicamento quando o desbalanço biológico do corpo pede uma compensação química. Não digo, e nem eles diriam, que o livro substitui o remédio, embora o remédio nunca substitua o livro. É tudo uma questão de conciliação. E, dependendo da doença ou obstáculo enfrentado, o livro pode ser um dos instrumentos de cura, o encontro do indivíduo com sua própria fonte de vida. Por que não?

Uso esse espaço para aplaudir de pé a receita de Júlia Rocha e espero que mais pessoas tenham a chance de encontrar cientistas – e não deuses – como ela. São as Júlias do mundo que tornarão real a profecia de Lulu Santos, cantor jurado do reality show do qual ela participou cantando:

Existirá

E toda raça então experimentará

Para todo mal, a cura.

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