Tessa Young: da feminilidade à maternidade

Por Cínthia Demaria – Jornalista e Psicanalista

Mês passado, publiquei aqui um artigo que tive vontade de escrever assim que conheci o personagem Hardin Scott. Deitá-lo no divã e divagar em uma análise sobre o relacionamento Hessa foi uma delícia. Fiquei surpresa com o feedback que recebi dos leitores. Não há prazer maior em escrever do que ver que alguém se identifica com as suas ideias.

A grande descoberta foi ver que muitas pessoas se interessaram, também, por outras análises dos protagonistas da obra de Anna Todd. Em um grupo de Facebook, uma leitora sugeriu que eu escrevesse sobre o momento do impasse de Tessa Young com a maternidade – sem dúvida, uma das cenas mais chocantes de Depois da Promessa. Incentivada pelo apoio de outras leitoras interessadas pelo tema, decidi redigir mais um texto da série (quem sabe?) After no divã. ;p

**Alerta de Spoiler! Se você não leu até o 5o livro da série After, não leia este texto.

O texto de Anna Todd é um grato presente em vários sentidos. Além de ser uma delícia de ler, toca em questões de pulsões humanas fundamentais. Atribuo o sucesso da série também a este fator. A escritora narra o que cada um de nós quer viver pra narrar, de forma incrível. Na singularidade peculiar entre o leitor e a obra, vamos para a cama com Anna para nos deliciar com a pulsão sexual nua e crua, de um jeito que recalcamos principalmente pelas ‘regras sociais’ da nossa civilização.

(Este é um ponto para um outro texto, porque isso aí rende pano pra manga).

Para além disso, Anna toca em pontos da feminilidade cruciais, tal qual a maternidade. E, a meu ver, isso é o que justifica o público majoritariamente feminino. Não é só pela ideia do romance e de um Hardin absurdamente sensual e enigmático. É também pela via do feminino, do que é ser uma mulher.

Logo no primeiro livro Anna sugere esse tom, quando Tessa ouve ser chamada de ‘mulher’ por Kimberly, quando chega ao seu primeiro estágio na Vance Publishing. Até então ela não se via assim, pois tivera sempre em uma posição infantilizada pela mãe. A passagem marca bem a transição da adolescência para a vida adulta de Tessa, pois vai além do momento em que ela questiona a autoridade da mãe, Carol Young. Ela passa a ser, então, mulher, assim nomeada pelo outro. E, durante toda a trajetória de After, a protagonista vai ao encontro de uma pergunta chave da psicanálise: “O que é ser uma mulher?”.

A descoberta da sexualidade para Tessa a transforma. Hardin desperta nela o que poderia ter sido recalcado pelas regras sociais impostas pela família, pelo ex-namorado de infância, pelos vizinhos da cidade em que vivia com a mãe, etc.

Veja bem: Hardin não a transforma; ele revela, a ela mesma, a mulher que é.

Os “segredos de menina” vão se perdendo à medida em que um outro passa a ter acesso à sua intimidade e revela prazeres vividos e confessados pela mulher. Não é a menina que goza: é a mulher que passa a admitir suas pulsões a ponto de revelá-las ao parceiro.

Assim, Tessa começa a estabelecer novas regras para quem ela via no espelho: uma mulher vestida no semblante social (que usa maquiagens, lingeries que vão ser vistas por outro, etc.), mas, mais importante ainda, uma mulher que consegue desejar e assumir suas escolhas.

Ouso dizer que o que a faz apaixonar por Hardin de forma tão repentina é a imagem que ele a faz ver de si mesma. Tessa se apaixona por si antes de amar Hardin. Assim como ele, que admitiu a ela que a coisa que mais amava no mundo era ele mesmo, até começar a amá-la. E não é isso que amamos no outro? A forma como ele nos vê e como faz com que a gente se veja? Com Hessa não foi diferente.

Freud explica (ou tenta)

No Caso Dora, um dos registros mais clássicos da obra de Sigmund Freud, o psicanalista se depara com a angústia da paciente que se pergunta o que é ser uma mulher. Em uma importante intervenção de Freud, a questão da maternidade é trazida à tona por ele e Dora não retorna mais às sessões. Este ponto clínico dará a Freud elementos suficientes para desenvolver o estudo sobre a histeria, e a outros psicanalistas, como Jacques Lacan, longas discussões sobre o que quer uma mulher.

Fiquei realmente grata à Anna Todd por tocar nesse ponto de toda a trajetória da construção do feminino por Tessa. Ela esbarra na questão da maternidade de forma cronológica (talvez não intencional), mas que sugere o feminino, que inevitavelmente irá incidir sobre as escolhas da mulher – ainda que a escolha não seja ser mãe, como Freud conclui após a abandono de Dora da análise. E, como a ponta do iceberg de infelizes acontecimentos que ocorriam na vida de Tessa naquele momento, este faz desmoronar o que ela denominava ser o maior sonho da sua vida.

Lidar com o “real” da impossibilidade materna faz Tessa desabrochar, literalmente. Depois deste ponto é possível perceber como ela consegue bancar as suas escolhas frente a um outro e frente ao seu próprio desejo de não se entregar a Hardin de forma irracional. A maternidade, no caso de Tessa, fez vacilar o ciclo vicioso do relacionamento que ela vivia.

No momento em que se afasta de outro para pensar sobre si mesma, ela dá conta de voltar a assumir um relacionamento que sempre desejou. Não é Hardin quem faz cair a ficha de Tessa. A maternidade a encoraja a agir sobre si, a abrir mão de rótulos, do curso que fazia, da cidade em que vivia e até da própria possibilidade de ser mãe. Ela se torna mulher antes de se tornar mãe, o que só acontece quando se depara com a impossibilidade.

Depois de algumas tentativas, entretanto, Hessa tem um casal de filhos, com uma mãe muito mais madura, que continua a ser mulher. Umas das minhas cenas favoritas do “final feliz” é quando Tessa ocupa-se de trabalho e diz à filha que, naquele momento, não estaria disponível para ela. É como se ela dissesse:

Filha, além de ser sua mãe, também sou uma mulher que está aqui bancando a sua escolha profissional feita somente por ela mesma.

Ao final, descobrimos uma mulher e um homem que só se revelaram após ser um casal. E é por eles, cada qual em sua singularidade, que nos apaixonamos.

Quer sugerir a análise de uma cena? Envia nos comentários!

 

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Sobre a autora

Eu provavelmente tenho o dobro da idade da maioria das leitoras de Anna Todd. Sou jornalista por profissão há dez anos e psicóloga há quase três. Sou pesquisadora da área de Psicanálise e Cultura Digital e atuo na clínica com crianças, adolescentes, jovens e adultos. No meu aniversário de 31 ganhei de um grupo de amigos psicanalistas o livro After, e meu background foi a justificativa deles para me presentear com Anna Todd ao invés de uma obra de Sigmund Freud ou Jacques Lacan. Ainda bem que eles fizeram isso. Em um mês eu já tinha lido a série completa. E agora é só o Depois.

7 Comentários
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    beatriz at 6 de fevereiro de 2019 Responder

    Se uma psicóloga consegue achar que essa história absurdamente abusiva e que só fará com que adolescentes (que são o público desse livro) achem que podem “transformar” um cara babaca, é porque não há saída mesmo.
    Que lamentável.

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      Bianca Moreira at 7 de fevereiro de 2019 Responder

      Você está muito errada! O público alvo dos livros, é o público femino e MULHERES! After não tem como público alvo adolescentes, porque o livro não foi escrito para este público. After é um livro de conteúdo adulto e um livro “jovem” para adultos. Se você entrar em uma livraria, você não encontrará os livros na sessão infanto juvenil, mas na sessão de romances eróticos. A análise da psicologa, é como ela enxergou a história e como todas as pessoas deveriam enxergar. Porque é o que After é e o que a autora entrega em sua proposta.

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      bianca moreira at 7 de fevereiro de 2019 Responder

      Sinto eu te dizer, mas a senhorita está muito errada! After é um livro com foco no público feminino, ou seja, é um livro para mulheres! Hardin e Tessa são jovens, mas eles são adultos e os livros contém conteúdo proibido para menores de 18 anos. Adolescentes leem os livros, porque ele surgiu de uma fanfic, assim como adolescentes leem 50 tons de cinza, que possui o mesmo conteúdo de After. Se você entrar em uma livraria você não irá encontrar After na sessão de infanto juvenil, você irá encontrar os livros na sessão de literatura erótica. Você nunca irá encontrar em livros para adolescentes um conteúdo sexual explícito, esse conteúdo é permitido apenas em livros para adultos. Agora, a psicóloga ela analisou a feminilidade e maternidade da Tessa, esse é o foco do texto! O relacionamento de Hessa, é um outro tópico.

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    Cinthia Demaria at 6 de fevereiro de 2019 Responder

    Olá Beatriz! O texto fala sobre a feminilidade de Tessa e o que Hardin desperta nela. O que está em discussão nesta pauta não se trata sobre o relacionamento deles. É uma discussão sobre a maternidade e a saída do feminino pela mulher. Mas você tem todo o direito de discordar. Cada um tem uma visão dos personagens e da narrativa de Anna Todd. Aqui está exposta a minha, que não é mais ou menos correta que a de ninguém. 🙂

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    Bianca Moreira at 7 de fevereiro de 2019 Responder

    Eu não concordo com a Beatriz, porque After é um livro com classificação indicativa e por mais que uma parte do publico seja jovem, After é um livro “jovem” para adultos. O conteúdo abordado na história, não é encontrado em livros adolescentes, justamente por seu conteúdo adulto. Nas livrarias, você não irá encontar After na sessão de infanto juvenil, mas encontrará na sessão de romance erótico para MULHERES. Este é o público alvo dos livros! E, Cínthia, obrigada pela linda análise feita com a Tessa. Ela é uma jovem mulher muito forte e seu texto, a transmitiu com perfeição. Parabéns!

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    Cinthia Demaria at 7 de fevereiro de 2019 Responder

    Obrigada, Bianca!

    Concordo com você. É importante deixar claro que não sou mais certa que ninguém, pelo contrário. O que eu descrevi foi o meu ponto de vista e fico muito feliz que você tenha entendido do mesmo jeito.

    Obrigada! ❤️

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    Ellen Cristine at 9 de fevereiro de 2019 Responder

    A Tessa tem sua vida totalmente transformada depois do Hardin e mesmo o livro não sendo pra adolescentes eu super indico para aqueles que tem maturidade suficiente pra ler todos os livros. Eu já li todos e adorei a história!

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