Deus Salve o Rei do Maine – Como Stephen King salvou minha escrita

Recentemente resgatamos, meu marido e eu, um presente de casamento legal: uma TV curva de 55 polegadas. À primeira vista eu não via muita diferença entre ela e nossa antiga televisão de 42” – sim, sou péssima em geometria espacial, o que quer que isso seja –, mas depois me dei conta de que ela era, realmente, muito interessante.

Só tem uma coisa: eu só a ligo às terças-feiras, dia que tiro a noite para assistir a um filme.

O que muitos chamariam de “mau uso de uma TV curva 4K de 55 polegadas” eu chamo de “ter sido mentorada à distância por Stephen King”.

Depois de ler Sobre a Escrita, obra que me inspirou ainda mais a fazer este blog, implementei imediatamente duas coisas nos meus processos criativos. A primeira é cortar pelo menos 10% de um texto em sua primeira edição. A segunda é correr o máximo possível em contra-fluxo a um controle remoto. Isso inclui cortar da minha vida novelas, programas de TV em geral e jogos televisionados de futebol.

Sei que existe uma biografia sobre Stephen King, mas confesso ter achado esse livro uma autobiografia bem satisfatória. O escritor acredita que, para nos ensinar sobre a escrita, precisa voltar algumas casas e contextualizar o leitor sobre sua infância. O que é ótimo. Afinal, para quem não sabe – o que seria uma pena –, Stephen é o rei das histórias contemporâneas de terror, e é sempre muito cativante saber de onde pessoas como ele tiram suas mórbidas ideias.

Sobre a Escrita, no entanto, não é um manual sobre como escrever sobre terror. Eu diria, até, que trata-se de uma cartilha para entender a vida, pois o que precede qualquer obra, seja boa ou ruim, é a vida que seu autor teve até então. As pessoas dizem que todo escritor deixa um pouco de si em algum de seus personagens. Isso só é possível quando ele se conhece o suficiente para saber até onde ir.

Nas primeiras páginas do livro de King, sabemos o suficiente para entender sua saga de romances bem sucedidos. Isso, claro, inclui uma longa era sem que nenhum romance fosse, de fato, publicado. Aliás, outra coisa que roubei de Stephen foi sua mania de colocar todas as cartas de rejeição pregadas em sua parede, onde ele pudesse vê-las constantemente.

Esse blog, inclusive, só existe porque, com a leitura dessa obra, me tornei livre do medo de ser rejeitada. Eu sei que serei rejeitada, e não há nada que eu possa fazer para mudar isso. Não dá pra agradar todo mundo, certo? Mas, às vezes, é só quando um escritor milionário joga isso na sua cara que você se dá conta de que realmente é verdade: não dá pra agradar todo mundo. E tudo bem.

Um livro para além dos escritores

Logo de início, Stephen King confessa que debateu, por um longo período de tempo, com a ideia de fazer um livro sobre… a escrita. Em suas próprias palavras, “por que eu queria escrever sobre a escrita? O que me levava a acreditar que eu tinha algo de útil a dizer?” (p. 10).

É quando o escritor-leitor começa a se animar com esse tipo de afirmação que nos deparamos com uma obra que vai além do nosso ofício. Tá certo, King passa alguns capítulos falando sobre linguagem, estilo de escrita e até gramática inglesa; mas, tirando essa parte realmente técnica, Sobre a Escrita pode ser para todo mundo.

Para o/a escritor/a.

Para o/a professor/a.

Para o/a contador/a.

Para o/a médico/a.

Para o/a matemático/a.

Para o/a faxineiro/a.

Para o/a dono/a do bar.

Para o/a __________________________ (insira aqui a ocupação desejada).

Afinal, o que ele quer – e deixa essa vontade clara desde o início – não é formar ou fazer escritores, e sim mostrar o que existe por trás de qualquer pessoa bem sucedida, de qualquer área: técnica, persistência e imaginação.

É verdade que muita gente tem tudo isso e não consegue fazer sucesso, mas é quase impossível encontrar alguém do rol dos bem sucedidos que não tenha essas três premissas como companhias diárias.

Inclusive, vou te dizer de uma vez, principalmente se o seu objetivo for, de fato, escrever: ao ler King você corre um sério risco de ter estragada, a seus olhos, toda a literatura técnica e/ou de autoajuda para alguma finalidade que demande superação. É provável que você olhe para outros títulos como menores, ou como lixo, mesmo, depois dessa aventura com Stephen.

Confesso que poucas vezes me senti tão solitária quanto no dia em que li a última página de Sobre a Escrita. Que, por sinal, é uma lista de indicações de leitura do próprio Stephen King. Mesmo assim, foi brutal deixar essa mentoria de lado.

Além de ensinar escritores a buscar a essência de sua escrita, essa obra pode atuar muito bem como fan service para quem adora o autor de It, Carrie e À Espera de um Milagre, dentre tantos outros. Falo com tranquilidade. É incrível acompanhar com King a criação de seus best-sellers que começaram, como toda boa história, do nada.

A de Carrie, por exemplo, ganhou corpo por causa de uma conversa nos porões de uma lavanderia – e ganhou vida por causa da esposa do autor, Tabitha, que, por sua vez, também é escritora, e viu que existia algo de muito legal nas páginas que o marido tinha jogado fora.

Essa é, inclusive, uma das minhas passagens preferidas do livro, mas não vou colar aqui para não perder a graça. Aliás, haja passagem preferida: meus destaques de Sobre a Escrita renderam 22 páginas de citações. Algumas devem virar textos inteiros, nos próximos meses.

Existe também a chance de você aprender muito em Sobre a Escrita, mesmo se não for escritor, mas estiver passando por problemas com álcool ou drogas. E, se estiver envolvido com arte, em qualquer maneira, a leitura se torna ainda mais urgente. Ao contar sobre essa parte da sua vida, que traz lágrimas aos olhos dos incautos, King chega a afirmar que escreveu livros inteiros (desses que a gente ama) sem saber nada do processo.

Ele olha para sua lista de romances publicados e, alguns, simplesmente desconhece ter feito, por estar sob a constante e destrutiva companhia do álcool. Nesse sentido, coloco aqui, na íntegra, o conselho que ele dá sobre a junção de criatividade e entorpecentes:

A ideia de que criatividade e substâncias que alteram a mente estão ligadas é um dos grandes mitos pop-intelectuais do nosso tempo. (…) Hemingway e Fitzgerald não bebiam porque eram criativos, alienados ou moralmente fracos. Bebiam porque é isso que bêbados estão programados para fazer”. (p. 89)

Além disso, acredito que o uso de substâncias – quaisquer que sejam – para fazer algo, seja um livro, uma tatuagem, um encontro, um casamento ou a montagem do móvel, é um dos estilos mais clichês de fuga de que podemos supor, nos dias de hoje. Stephen mostra isso em seus livros.

Pegue O Iluminado, por exemplo, que trata de um escritor alcoólatra e frustrado que vai trabalhar de zelador em um hotel fora de funcionamento. Um escritor colocando seu protagonista como escritor é quase uma autobiografia. Um escritor alcoólatra, perdido com a família em um hotel mal-assombrado, é claramente um pedido de ajuda.

Sou bem liberal quanto às drogas e acho que cada um responde por si, e o Estado responde por todos que precisam de ajuda nessa seara, mas nunca comprei essa historinha de que um LSD é o que faz um bom compositor escrever suas músicas, ou um escritor seus livros, ou um ator seus filmes. Balela. King escreveu ótimos livros estando bêbado, ótimos livros estando sóbrio, e teve uma vida inteira de criatividade antes da bebida. A única diferença dele para qualquer outro escritor que não beba é que – como ele mesmo diz – o outro escritor se lembra daquilo que escreveu, e consegue sentir tudo aquilo que lhe ocorria enquanto a história se desenrolava.

Para se colocar no seu lugar

Por fim, você precisa ler esse livro, se não for escritor, mas quiser ser um guru da internet. Quiser dar cursos de qualquer coisa. Eu terminei a leitura morrendo de vergonha por ter ministrado tantos workshops antes de aprender com King, e espero ter novas chances de fazer muito melhor daqui pra frente.

Imagine uma pessoa que você admira muito dizendo, com todas as letras, que nem ela é boa o suficiente. Que é preciso aprender sempre, treinar sempre, ser inúmeras vezes rejeitada, para entender que o que se faz tem valor. Mais que isso: que existe um propósito naquilo que se faz, e que, sem essa força oculta, nada mais fará sentido.

Você deve ter ouvido esse discurso muitas vezes nos últimos anos, mas eu te garanto: nada, nem ninguém, te atingirá como uma bola de canhão com essas palavras como Stephen King pode atingir.

Stephen King é o homem que cresceu sem pai, aprontava com o irmão, teve uma boa adolescência, entendeu cedo que gostava de escrever, aprendeu também cedo os perigos do plágio, se formou professor, se frustrou, testemunhou o suicídio de alunos que sofriam bullying, usou toda essa experiência em livros, levou um montão de “não” antes de conseguir ganhar dinheiro com seu primeiro romance – chorei muito nessa parte –, ficou milionário fazendo o que gosta, se tornou o rei do terror e quase morreu atropelado por um lunático.

Ele é tudo isso e, ainda, acredita que não teria nada de útil para falar em um livro sobre a escrita. Passou anos enrolando a redação e parece nunca ter se dado conta do que incluir na versão final para “fazer sentido ao leitor”. Pra completar, ainda compartilha com quem o lê alguns de seus manuscritos e mostra, na prática, as dicas que dá.

Sobre a Escrita é uma aula, mas não se iluda: não é sobre a escrita. Vai muito além. É um tapa na cara atrás do outro, e eu terminei o livro em prantos, na lanchonete de uma universidade. Acho que seria uma lástima terminar essa resenha com minhas próprias palavras, já que King tem as palavras perfeitas para descrever um processo incrivelmente solitário, mas maravilhosamente imenso, que é a escrita criativa.

Eis as palavras que me fizeram chorar:

A escrita não é para fazer dinheiro, ficar famoso, transar ou fazer amigos. No fim das contas, a escrita é para enriquecer a vida daqueles que leem seu trabalho, e também para enriquecer sua vida. A escrita serve para despertar, melhorar e superar. Para ficar feliz, ok? Ficar feliz. Parte deste livro – talvez grande demais – trata de como aprendi a escrever. Outra parte considerável trata de como escrever melhor. O restante – talvez a melhor parte – é uma carta de autorização: você pode, você deve e, se tomar coragem para começar, você vai. Escrever é mágico, é a água da vida, como qualquer outra arte criativa. A água é de graça. Então beba.

Beba até ficar saciado”. (p. 229)

 

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6 Comentários
  1. avatar image
    Caio at 23 de janeiro de 2019 Responder

    Que texto bacana! Obrigado por compartilhá-lo. Não conhecia esta obra do autor. Tenho outras referências no assunto escrita (talvez porque elas vao mais para o lado da não-ficção), como o Guia de Escrita do Pinker. Enfim. Legal saber deste texto, que colocarei em minha lista. Seu post serviu para tirar um pouco da preguiça que fiquei do S. King depois de ler o primeiro livro da Torre Negra (O pistoleiro). O livro é, digamos, estranho ao meu paladar. Achei uma mistureba de generos sem narrativa clara ou inteligível, mas não sou especialista no assunto. Enfim de novo… parabéns pelo post e pelo blog!

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      Lais Menini at 23 de janeiro de 2019 Responder

      Oi, Caio!
      Feliz que tenha gostado. 🙂

      Eu não li esse que você citou, já coloquei aqui na lista de compras.

      Quanto ao King, Sobre a Escrita me causou profunda conectividade, mas meu livro preferido dele é IT. Contudo, ele é bem extenso, pode causar um pouco de “preguiça” porque, em algumas partes, ele chega a ser prolixo. No fim, a conta fecha.

      Para maior deleite sugiro, sem medo de errar, O Iluminado e À Espera de um Milagre. Ambos são incríveis, e bem mais fáceis de ler.

      Volte sempre pra gente papear.

      Um abraço!

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    Lenimar Cunha at 24 de janeiro de 2019 Responder

    Que o Universo me ajude!
    Fiquei extasiada com sua resenha, estou daqui procurando a coragem pra minha entrega,afinal tememos o alheio. Mas a cada leitura fica mais difícil resistir a escrita.
    Obrigada por sua escrita e indicações.

    1. avatar image
      Lais Menini at 24 de janeiro de 2019 Responder

      Lenimar, pode contar com Stephen para perder o medo de se expor! Ele tem as melhores dicas, que vem mais ou menos em forma de tapa na cara, mas o final é feliz. 😉

      E, se quiser mostrar a que veio, o Literama está sempre de portas abertas para suas palavras!

      Um beijo!

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    Claudia at 28 de janeiro de 2019 Responder

    Laís, eu andava me ensaiando pra colocar meus escritos em algum lugar público. O medo da rejeição ronda sempre.
    Só pela sua resenha já senti um pinguinho de coragem, mas agora sinto que preciso muito ler o livro, e sorver por mim mesma.
    Obrigada por compartilhar, e mais ainda por não temer ser lida.
    Um abraço enorme.

    1. avatar image
      Lais Menini at 28 de janeiro de 2019 Responder

      Leia mesmo que você vai amar, Claudia! E se precisar de algum “lugar público” para colocar suas palavras, bem, o Literama está de portas abertas. 😉

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